Opinião

O amigo Café

Há poucos dias enfrentava uma destas filas, às vezes incomodativas, nos ATM, quando reencontrei um amigo de infância, que já não via fazia tempo.

Márcio Brito “Café”, já com alguns fios brancos a tomar de assalto o seu couro cabeludo, fez-me lembrar, no breve contacto havido, enquanto aguardávamos a nossa vez, de coisas de que já me tinha esquecido, do tempo que o tempo já levou para outro tempo(o pleonasmo é propositado), em que palmilhávamos os mesmos caminhos, como colegas de escola e companheiros de outras traquinices.
Falou-me das pelejas ao intervalo das aulas no Kadipovo, e da nossa fidelidade ao Progresso do Sambizanga. Tal como eu, também ele continua adepto do clube do bairro que nos viu crescer. Mais palavra menos palavra, evocamos as romarias que fazíamos ao Estádio dos Coqueiros nas primeiras edições do Girabola. Sempre que o Progresso jogasse não mediamos distância nem sacrifício para ir apoiá-lo e ver as estrelas do nosso bairro em acção.
Man Inácio(Praia), Man Tai (Salviano), Santos da Virilha(Santo António), Santinho, Augusto Pedro e outros eram para nós verdadeiros símbolos de orgulho bairrista. Era a pé que, na maior das vezes, fazíamos o percurso Sambila/Coqueiros/Sambila, salvo nos dias em que tivéssemos a sorte de pegar o 19, machimbombo da ETP(depois Tcul), que cumpria o trajecto Campo da Revolução/Kinaxixi e vice-versa. Como muitos estarão lembrados, o 19 começava o percurso pela actual 12 de Julho, dobrava para o São Paulo, tomava a Brigada e depois esgalhava pela Avenida Brasil até à Maria da Fonte, antiga designação do Kinaxixi.
Na verdade, o futebol doméstico em determinada época levava os grandes centros urbanos à loucura, porque jogava-se futebol alegre, vistoso e de apurado teor qualitativo. Os verdadeiros clássicos, como 1º de Agosto-Taag, Petro de Luanda-1º de Maio, Mambrôa-1º de Agosto, disputados ao fim-de-semana, eram motivo de calorosa discussão durante toda a semana seguinte. Lembremo-nos do épico Petro de Luanda7-1º de Maio 6, numa noite de loucura nos Coqueiros. São lembranças que só vêm à luz quando, de forma combinada ou fortuita, cruzamos com alguém com o DNA desportivo comparado ao nosso.
O Café é daqueles amantes do desporto bem informado. Nos anos 80, quando, por alguma razão, falhasse à compra do Jornal de Angola à terça-feira, imperdível, porque trazia o Suplemento Desportivo, era a si que eu recorria. Tinha sempre os jornais em dia.

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