Opinião

O Boko Haram e as eleições na Nigéria

Victor Carvalho

Os nigerianos vão no próximo sábado, dia 16, às urnas num ambiente de incerteza quanto ao seu futuro político, muito marcado pelo papel que o grupo terrorista Boko Haram tem desempenhado nos últimos meses e que contraria tudo aquilo que tem sido o discurso do Presidente Muhammadu Buhari, que luta desesperadamente pela renovação do seu mandato.

O terrorismo, sobretudo o Boko Haram, tem sido, a par da luta contra a corrupção, a grande “pedra” no sapato do Presidente Muhammadu Buhari, constituindo um dos seus pontos mais fracos na campanha que desenvolveu para tentar que o povo nigeriano lhe proporcione um segundo mandato à frente dos destinos do país, a maior economia africana.
No essencial, a prática tem-se encarregado de desmentir aquilo que tem sido o discurso oficial do actual Presidente, desde que em 2015 chegou ao poder: ter o Boko Haram e o terrorismo totalmente sob controlo.
De facto, isso não só é mentira, como nestes últimos meses, sobretudo desde 2017, que o grupo terrorista tem, como raras vezes antes, marcado com sangue todo um percurso de morte e destruição.
Tem sido nesta fragilidade encontrada entre o discurso do Presidente e a realidade dos factos, que a oposição tem centrado as suas críticas, o que também não resolve o problema criado pelo Boko Haram e cujos efeitos se agravam a cada dia que passa.
Formado em 2002 como uma organização não violenta que tinha por objectivo principal “purificar o islamismo” no norte da Nigéria, o Boko Haram foi aos poucos implementando tácticas cada vez mais radicais ao ponto de estar hoje já particularmente activo não só no país onde se formou, como também nos vizinhos Chade, Níger e Camarões.
No seu triste historial de quase duas décadas, consta a responsabilidade pela morte de dezenas de milhares de pessoas e por obrigar mais de dois milhões a fugirem das suas zonas de origem.
O ponto mais alto da sua macabra agenda ocorreu em 2014, ano em que atacou e raptou cerca de 300 raparigas estudantes de uma escola na cidade de Chibok, no Estado de Borno, onde o grupo continua a estar mais activo até aos dias de hoje.
Em 2017, depois de uma ofensiva militar do Governo, que apesar de ter uma ajuda externa foi pouco sucedida, o Boko Haram dividiu-se em dois, passando uma parte a integrar o denominado Estado Islâmico.
Esta facção assumiu então uma postura ainda mais radical, tanto nos métodos de actuação como na postura em relação ao executivo, nomeadamente na negociação para a libertação dos reféns que ia fazendo para se auto-promover junto de clero radical islâmico e para angariar fundos exigidos como resgate.
Foi esta facção, apoiada pelo Estado Islâmico, a responsável pelo rapto de mais 100 raparigas numa escola da cidade de Dapchi, também no norte da Nigéria.
O antigo Presidente Olusegun Obasanjo, que é um dos principais apoiantes do líder da oposição, Atiku Abubakar, tem sido um dos principais críticos da atitude de Muhammadu Buhari em relação à forma como lida com o problema do Boko Haram.
Para Obasanjo, uma das falhas de Buhari tem sido a de não conseguir garantir a segurança às populações que vivem no norte do país, nem de lhes dar os meios necessários para que possam sair do isolamento em que se encontram.
O antigo Presidente, acusa também Muhammadu Buhari de não ter conseguido defender as zonas do país que em 2015 e 2017 foram libertadas das mãos do Boko Haram com a ajuda de forças estrangeiras, deixando que aos poucos os terroristas voltassem às suas posições praticamente sem resistência por parte do exército.
Nos últimos meses, os militares nigerianos têm boicotado a divulgação de dados credíveis em relação ao processo de luta contra o terrorismo e fechado a sete chaves as informações sobre os ataques que o Boko Haram tem efectuado a alguns quartéis, na aparente tentativa de evitar defraudar ainda mais as expectativas da opinião pública quanto à situação da segurança no país.
Durante a campanha eleitoral, esta questão tem sido repetidamente levantada pela oposição, nomeadamente através de dados aqui e ali revelados pela imprensa estrangeira e prontamente desmentidos, sem grande convicção, pelos apoiantes de Muhammadu Buhari que citam as fontes oficiais.
O problema é que essas fontes oficiais começam a perder a credibilidade depois de um jornal nigeriano ter revelado esta semana que os serviços de estatística estavam proibidos de utilizar dados relacionados com a actividade do Boko Haram para a elaboração e divulgação dos seus relatórios.
Nos dias que ainda faltam para a ida às urnas, que acontecerá no próximo dia 16, o que sucederá no próximo sábado, o nome do Boko Haram continuará a ser falado para esgrimir argumentos de acusação e de defesa para o balanço daquilo que foi este mandato de Muhammadu Buhari, de modo a que os nigerianos avaliem se ele merece, ou não, uma nova oportunidade para travar o terrorismo no país.

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