Opinião

O enigmático jogo do golfe

Arlindo dos Santos

O golfe é considerado um desporto burguês, cuja prática é exclusiva e apanágio das classes mais abastadas e socialmente privilegiadas”, esclareceu-me o costumeiro sítio das minhas consultas.

Os historiadores dividem-se nas opiniões acerca da sua origem. Uns dizem que é escocesa, outros afirmam ser um hábito inglês. Vai dar no mesmo. O golfe, esse desporto de elites vaidosas, representa para mim, um dos jogos mais absurdos que o homem inventou, logo depois do boxe e do râguebi. Posso estar a proferir uma grosseria mas, que me desculpem os amantes dessas modalidades. Além de tudo, gostos não se devem discutir.
Jogado em campos adaptados às condições geográficas da região, quase sempre numa vasta extensão de terreno que é, por via de regra, descampado, relvado e a céu aberto, o golfe, refiro-me ao profissional, onde se investem somas fabulosas de dinheiro, consiste apenas em introduzir uma pequena bola, suficientemente dura, por meio de pancadas desferidas com um instrumento chamado taco. Aparentemente fácil! Tacada atrás de tacada, a bola voa, ronda e cheira um a um, e conforme a dimensão do campo, em vários contornos, os nove ou dezoito buracos que se espalham pelo dito cujo. Umas bolas entram, outras ficam próximas do buraco. Às vezes, no limite. É o essencial que sei do jogo e, quanto à bola, pequena e dura, dela tenho apenas uma certeza. Se for arremessada da bancada de um estádio ou de um pavilhão, jamais de um campo de golfe, contra um jogador ou mesmo um árbitro indeciso, de futebol, por exemplo, costuma fazer estragos e é capaz de criar polémicas e imensos problemas à justiça desportiva.
Sou um autêntico analfabeto na matéria, está mais que visto. Prova-o ainda mais, esta paupérrima análise que suscitará, sem margem para dúvidas, o desprezo e, quem sabe, a chacota daqueles que percebem da coisa e são adeptos confessos do golfe. Haverá, provavelmente, terá de haver, para além das elevadíssimas somas aplicadas e ganhas por promotores e praticantes e ainda pelos gigantes dos meios de comunicação social, pela publicidade e fontes do género, outros aliciantes do jogo que despertam o interesse de uma já considerável massa de adeptos da modalidade. Talvez a habilidade, a força, a destreza ou a elegância dos jogadores no gesto do arremesso, aquele movimento lindo das pernas; talvez a particularidade de também ser praticado por mulheres, a postura dos jogadores, a execução dos golpes de “swing”, talvez a presença dos “caddie”, aqueles boys que transportam os sacos com os tacos, sacos com capacidade de transportar até catorze tacos de vários modelos, pesos e feitios. A evolução da modalidade tem-nos substituído paulatinamente por pequenos veículos de apoio permanente. Enfim, talvez prevaleçam as curiosas e aliciadoras movimentações da assistência, por vezes semelhantes a coreografias de bailados clássicos. É interessante de se ver, a malta a acompanhar, de cabeça levantada e dando umas corridinhas, perseguindo a trajectória das bolas. Têm uma certa beleza as imagens das deslocações em massa dos adeptos, seguindo e aplaudindo os craques, atingem o êxtase quando conseguem, à distância, enfiar a bola no buraco. Exercerá possivelmente, não sei, poder cativador nesse público que, desde logo, não é, nem poderia ser, pelo menos na sua parte mais representativa, oriundo das camadas que apreciam e enchem os estádios de futebol e os pavilhões que acolhem o basquetebol, o voleibol e o andebol, como é evidente. Esses são recintos que se enchem com pouca gente rica. Enchem-nos o pessoal que faz contas à vida para poder ir gritar pelo clube do coração.
Ora, se lhe descubro defeitos e falsas virtudes, pergunto-me porque motivo venho a público manifestar o meu desinteresse? Porque sou, afinal, tão pouco amigo do golfe? Direi que serão pequenos pormenores, alguns não tão pequenos assim, exemplo já referido da incompreensível enormidade de dinheiro que movimenta, que me levam a isso. Será, sobretudo, o exercício explícito da exclusão de classes a que o dinheiro obriga e o golfe executa. De tudo, é o que mais me incomoda. O papel dos transportadores dos sacos que carregam os tacos, os chamados “caddies”, não deixa de constituir também imagem perturbadora e ao mesmo tempo esclarecedora. E fico amofinado. Primeiro porque me lembro do falecido Domingos Manuel Fula Cassule, provavelmente o primeiro negro angolano promovido à categoria de jogador de golfe. O seu nome faz hoje história e patrocina torneios, mas passou pela condição de carregador de tacos, perfeitamente aceitável no contexto em que viveu a experiência. Foi claramente utilizado por uma burguesia que tinha de Angola e do seu futuro uma visão contrária à minha, pelo menos. Depois da Independência, e à medida que se formaram os clubes de milionários, foram surgindo golfistas, campos, torneios, e a necessidade de se criar uma lenda angolana genuína. O nome de Domingos Fula Cassule, serviu que nem luva. E foi assim que aqui, também, o golfe não perdeu a sua característica distintiva: um jogo de elites!
Deixo para o fim, a resposta àquilo que muitos se terão perguntado. Qual a razão da escolha deste tema para a minha crónica dominical. Que raio quero eu com a história do golfe? Na verdade, nada. Mas admito que pensei no golfe, não apenas para recordar o malogrado Fula Cassule. Também não foi a pensar no futuro dos vendedores ambulantes. Calculem os leitores que comparei-o apenas a alguns gestos da governação do nosso país. Que disparate! Mas a verdade é que foram esses gestos normais que, por mera coincidência, me fizeram e fazem lembrar este enigmático jogo. Quase sempre quando vejo as pequenas multidões de assessores e secretários que acompanham o Chefe de Estado nos trabalhos de campo, nesta ou naquela inauguração. Angustia-me ver tanta gente à volta do Presidente. Lembro-me logo das classes sociais do país, a diferença exibida nas roupas, nos carros, enfim, é difícil fugir ao tema. E reparo bem nos rostos dos que integram as comitivas presidenciais. Nalguns deles a ambição estampada, o desejo encoberto de ascensão, tal como no golfe se aspira à fama de um Jack Nicklaus ou de um Tiger Woods nas disputas dos Masters de Golfe ou do US-Open. No seu agitado rodopio, noto semelhanças com as movimentações coreográficas da assistência nas competições internacionais de golfe. Há mesmo muitas semelhanças. E finalmente, vem o drama das bolas e dos buracos. Os falhanços e a ansiedade quando as bolas não entram. E as bolas a não entrar, teimosamente. Ali tão pertinho e com tanto dinheiro aplicado, bastariam pequenas tacadas para elas entrarem no sítio certo. Vão entrando as que estão muito perto, essas entram. Não há como falhar. Desconsegue-se, contudo, nos buracos de longa distância. É por isso que não aprecio o enigmático e absurdo jogo do golfe!

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