Opinião

O crime do maratonista catanado

Arnaldo Santos |

O caso do crime acontecido no município do Cazenga, que se ufanava narcísica de ser o mais populoso do país, mesmo à frente da velha e respeitável Luanda, teve uma repercussão inusitada.

Afinal, não se tratava apenas e só de mais um crime violento, como outros com armas brancas ou enferrujadas com que se defende ou ofende a dignidade das gentes. Aquele crime tinha contornos diferentes e não era apenas mais um destorço de alguém de mal com a vida. O caso deu que pensar e suscitou desconfianças.
Na Maianga escutamos-lhe através da rádio, envolvido num casuísmo de humores que não conseguimos destrinçar e logo me lembrei que o que o outro fala ou diz te concerne.
Na realidade a expressão catanado causara-me um choque algo mais do que uma simples repulsa. E as conversas sobre o crime do “maratonista” catanado, começaram aí.
O ineditismo da linguagem usada para introduzir o crime depois de uma maratona trazia conotações que não podiam ser menosprezadas.
 Nem toda a gente estava familiarizada com as “maratonas” luandenses, eu mesmo até agora só conhecia as que tinham derivado da Grécia antiga. As “maratonas” calús são simples “boites-ao-ar-livre”, e a preços módicos, em ruas onde cada vez não falta nada que se procura nesses lugares habitados por gente mais desfavorecida. Nessas “maratonas” promovidas por grupos da sociedade civil (e que têm a tendência de se transformarem em Movimentos) a resistência física nem sempre parece ser o maior desafio. Nelas fazem-se autênticas provas de vida e não da vontade de morrer. As provocações vão longe e pelos motivos mais díspares.
E foi precisamente com essa perspectiva que as conversas na Maianga se prolongaram. As eleições para as autárquicas aproximam-se e as “maratonas” não vão parar. Consequentemente, o protagonismo da  catana num contexto de paz tem de ser de uma natureza mais de acordo com o que ela representa para todos os angolanos. Além de instrumento de trabalho e da revolução, é também símbolo na Bandeira que nos une.
Não se conhece a verdadeira motivação que provocou a catanada que vitimou o “maratonista” no Cazenga. Era alta  a noite e ninguém que podia adivinhar que ele, que não era de makas, e ainda menos de políticas, se fosse meter nalguma discussão, mesmo cambaleante – é nesses casos que dá para ter coragem, podia se bandear para qualquer lado dos grupos que encontrou no caminho. Quiseram logo juntar as coisas, a catana da bandeira tem muita força, quiseram logo juntar as coisas…

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