Opinião

O espectro da fome nos Luchazes

Arnaldo Santos |

Não me revejo nos contornos do espectro da fome nos Luchazes, nem sei mesmo se ela ainda subsiste nessas paragens, desde a altura em que começamos a poder combater-lhe seriamente.

Estávamos então exaustos pela guerra que a todos enfraquecera. Hoje, esse espectro cada vez já não passa de uma simples reminiscência de uma fome como qualquer outra. Talvez igual à que enquanto candengue nos meus tempos do Kinaxixi lhe identificávamos na sensação de minhoka no estômago, ou ribuka, vulgo lombriga na barriga. Nessas ocasiões, ela fazia-se assinalar por uns sons estranhos mas que nada tinha de fantasmagórico por se deixar aplacar facilmente com um punhado de kikuerra ou caneca de ngonguenha.
Tudo isso me ocorre, se calhar sem grande necessidade de falar, para me definir em relação às novas medidas destinadas a diminuir ou mesmo extinguir a fome que ainda atinge mais de vinte por cento da nossa população. Esta minha hesitação é tanto maior quando o Instituto Nacional de Cereais declara que a nossa actual produção de milho nem sequer é suficiente para suprir a metade das necessidades de alimentação do país. De resto, esta  preocupação não é generalizada.
Na Província de Malanje optou-se pela produção de cana sacarina com vista à fabricação de etanol. Foi uma opção de sucesso, que superou as expectativas, mas ignora-se tudo o que diz respeito à fabricação da sua conhecida farinha – a farinha de Malanje, a ela só se lhe opunha farinha-de-musseque oriunda de Luanda. Hoje lucra mais, quem a importa. Aliás, esses factos não são motivo de qualquer controvérsia. Em Angola, ao contrário da Itália, com quem vamos cooperar, o Ministro da Agricultura não é responsável pela pasta da Alimentação.
No entanto, Angola rural vai passar a ter a projecção que merece e não apenas através do seu interessante programa televisivo. O Executivo pretende realizar no próximo ano, com o apoio da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o primeiro Censo Agrícola e Inventário Florestal depois da Independência e que se inscreve no Programa de Desenvolvimento do MPLA até 2017.
Deste modo, o discurso sobre o espectro da fome tenderá a ser necessariamente diferente mas não previsível. Os novos empresários agrícolas que vão receber fazendas nas Terras do Futuro (ficam então aonde?) são por enquanto uma incógnita.
No Kwanza-Sul é o que se sabe… O investimento está mal parado e as terras abandonadas. As opções de cultivo para a alimentação vão diferir e é natural que algumas venham a recair em produtos que no espectro da fome mais comum raramente se visualiza. É o caso do jindungo (kaleketa ou kahombo?). De certo que qualquer um desses alimentos não nos vai faltar, porque além do petróleo e mais um ou outro item são dos poucos produtos de exportação para os EUA.
Mas entretanto, nem tudo é assim tão sombrio como parece. A maioria da nossa população já aprendeu a distinguir o espectro da fome da própria fome.

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