Opinião

O livro e as livrarias

Arnaldo Santos

Há tão poucos meses das mudanças operadas pelo Governo do General João Lourenço, talvez, seja ainda prematuro falar sobre o livro no nosso espaço nacional.

 É interessante, mas dramático constatar que o livro ficou subjugado a outros meios de transmissão de conhecimentos como a televisão, rádio e internete que, embora eficientes, não reflectem tão harmoniosamente os estados de alma. Nem toda a gente pensará assim. No entanto, pelo nosso movimento editorial, observa-se que a maior parte da literatura angolana é editada no estrangeiro, ainda que   a Ministra da Indústria afirme e tenha a convicção que o nosso parque tipográfico é moderno e está em condições de dar resposta a todas as nossas necessidades. Não é isso o que se constata. A  produção literária nacional é editada no exterior e após os lançamentos, a  maior parte da edição fica a apodrecer nos armazéns. Os encargos alfandegários desencorajam a importação de toda a edição paga. O seu destino é a guilhotina.
Na iminência da admissão de milhares de professores para a Educação, permitimo-nos aventar novos cenários de probabilidades para a sobrevivência do livro. Quem como eu, fala dos livros, tenderá necessariamente a refugiar-se em ocorrências que se impõem de forma abrupta pois quem  pensa em livros, pensa  nas livrarias que na minha juventude comecei a olhar sob suspeita. São experiências do antigamente que vale a pena contar, pois decorreram daí vivências que não podem ser esquecidas. A nossa Academia de Letras que se debate para sobreviver à música ambiental, contra a qual nada me opõe, por ser um bom exemplo de uma inteligente adequação de recursos que a técnica lhes tem propiciado. A maka dos escritores afina por outros compassos e nem todos aprendemos a dançar com as mesmas passadas. Nos tempos que já lá vão a leitura impôs-se como uma necessidade para a juventude caluanda. Ela descobriria a necessidade da leitura e consequentemente de livros por força de acontecimentos históricos que testemunhou. O início da Luta Armada com o assalto às cadeias de Luanda em 4 de Fevereiro de 1961, foi um deles. O outro da mesma natureza política, seria o 15 de Março. A sublevação deu-se nas regiões da monocultura do café no norte do país. Esses acontecimentos desencadearam uma grande inquietação que em alguma juventude caluanda produziu reflexos profundos que a polícia política logo detectou. O interesse suspeito em conhecer as razões desses angolanos levou-os, inevitavelmente, às livrarias. Não havia muitas. A Lello, inesquecível, logo concentrou a atenção sobre si… e pela sua esquina.
Eram tantos os intelectuais que ali se entrechocavam quando havia novidades que não cabiam no espaço limitado da livraria. Deste modo, escritores e juristas como Eugénio Ferreira, Antero de Abreu, Maria do Carmo Medina, Julieta Gândara, o médico-poeta Cochat Osório e combativos sindicalistas como Edmundo Gonçalves e outros eram vistos a cavaquear. Nesses tempos quase ninguém atentava nas livrarias próximas como a LUSITANA, nem na MINERVA, ali bem próximas. Talvez porque nunca tiveram um livreiro, atento e perspicaz como era Felisberto (da Lello), que sempre encontrava uma novidade. Ele sabia do interesse dos jovens caluandas, ávidos de perspectivas, o que eram as “novidades”.
Pode argumentar-se que assim também acontecerá com uma grande parte da nossa actual juventude. Infelizmente, ainda não é assim. Ela é inquieta mas iletrada, tem que bater alta noite nas casas dos moradores dos bairros pobres e mal iluminados para mostrarem que existem. Os seus assaltos nunca virão a ser comemorados.

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