Opinião

Os céus e a cegueira dos rios

Arnaldo Santos |

Debate-se nas proximidades do Cunhinga, um dos primeiros palcos da guerrilha de triste memória iniciada pelos kalupetekas contra a Polícia Nacional, a questão da liberdade de religião.

Faz sentido. É mambo de interesse nacional, mas de importância muito  relativa ou até mesmo nenhuma, sobretudo para os ateus que não podem ser  excluídos das estatísticas.
Estes como os animistas e  os povos da região do Cunhinga atingidos pela cegueira dos rios, só podem contar com os seus direitos inscritos na Lei Constitucional. Em virtude de mais de 90 por cento da população do nosso país ser católica, de acordo com o porta-voz da CEAST, esse caso dos animistas e outros não religiosos também ditos ateus, deixa de ser um problema. O INE – Instituto Nacional de Estatística -  talvez nos liberte da angústia dessa ignorância para que uns e outros nos sintamos mais acompanhados.
No contexto social angolano foram se afirmando, lado a lado com as antigas e respeitáveis Igrejas tradicionais, igrejinhas mais ou menos coligadas em plataformas oportunistas e com elas as correspondentes seitas redentoras. Por isso é natural que nos recantos mais inomináveis e secretos do nosso país se esteja a seguir a questão religiosa  de maneira muito atenta. Porém, tenho para mim que nem todos perseguirão uma busca para melhor comunicação com o divino. Na proposta apresentada no Huambo pelo Instituto Nacional de Assuntos Religiosos sobre a liberdade de religião, crença e culto (que tanto quanto sei ainda não é do domínio público), podem advir razões que não são as mais curiais, dito isto a modo de fala ambaquista. O assunto é melindroso e já tivemos disso uma experiência desastrosa. Entendemos que não se deve extrapolar os riscos, mas o inverso também é evidente e o perigo da Política abastardar a questão religiosa, não é uma fantasia e dessas águas ninguém me convence que não vai beber.
Deste modo, a alusão à cegueira dos rios não é de todo irrelevante e nem sequer se propõe aqui para fazer boa muxima no Executivo que leva a efeito campanhas profilácticas, das quais  a erradicação da onconcercose é uma delas. O mosquito preto, seu principal vector, (suponho) vai continuar a atacar. Não vão bastar as coligações religiosas para solucionar problemas colectivos. Temos que evitar qualquer espécie de cegueira que impeça de nos reconhecermos também nos outros.
Maianga, Agosto, 2015

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