Opinião

O kazumbi do dólar

José Luís Mendonça |

Quando passa um kazumbi, pela calada da noite, o cão do meu vizinho uiva como um lobo da montanha. Na noite da passada terça-feira, o dito cão uivou de forma tão assustadora, que eu, que tenho sono leve, despertei. Tem uma vizinha que fala muito desse uivo lancinante.

Diz ela que é mau sinal. Não sou supersticioso. Mas o que é certo é que a primeira chamada que recebi no meu telefone, ainda não eram 8 horas, foi da minha ex-colega, a Helena, a perguntar: ó Mendonça, bom dia, sabes quem morreu? E eu: Quem morreu? A Helena: O teu motorista. O ti Damião.
É claro que só podia ser o motorista do meu antigo serviço. O ti Damião, que Deus o tenha, era um trabalhador honesto, fiel e dedicado, coisa rara nos dias que correm. O ti Damião era um mais velho que já conduzira o carro do primeiro Presidente de Angola, o Dr. Agostinho Neto. O ti Damião, nos tempos em que trabalhámos juntos, foi baleado na barriga, porque enfrentou os batuqueiros que lhe apontaram uma arma e queriam lhe receber a viatura hiace do serviço. Resistiu a tudo isso. Agora reformado, não resistiu à opressão financeira do banco onde lhe depositavam o dinheiro da reforma, em dólares. Disse-me a Helena que o ti Damião andava já com a pressão arterial bastante alterada. O filho tinha falecido e o banco não quis lhe dar os dólares da sua conta em moeda estrangeira, a sua reforma depositada pelas Nações Unidas, pois queria fazer um funeral condigno para o filho. Agora, o banco cortou o acesso aos dólares que o ti Damião ganhou durante mais de trinta anos. Ele não aguentou, me disse a Helena, que também um dia destes foi ao banco e fez um escarcéu de todo o tamanho, até lhe entregarem parte dos dólares da sua reforma, ela que já é uma mais-velha e está em casa a cuidar da mãe doente.
Apesar do governador Massano Júnior ter desdolarizado a economia, toda a gente sabe que o dólar é a moeda forte do planeta. E todos sabem como o kwanza ficou mais burro com a crise. Portanto, quem ainda ganha dólares, pelo menos que receba o que ganha, conforme a necessidade. Esses mais velhos reformados, cuja reforma deve rondar os 300 ou 500 dólares, precisam desse pecúlio de toda uma vida de trabalho e não é esse parco rendimento em divisas que, entregue mensalmente na mão de quem o ganhou honestamente, vai afectar o bom desempenho da nossa economia. O que afecta o bom  desempenho da nossa economia é o acesso que alguns têm às divisas, em somas tão avultadas, como as que tivemos notícia pela imprensa e que as levam para o exterior do país, em sacos, malas ou mesmo por transferência bancária que espanta até os cazumbis da noite. É o caso do dono dos Jardins do Éden do Camama, o Sr. José Ferreira Ramos que, citamos a Reuters, comprou o Islamic Capital Bank, em 2012, no Dubai onde vive, por 100 milhões de dólares, dólares esses dos clientes a quem não entregou as casas.
Agora, do dólar, só vemos passar, em plena luz do dia, o seu kazumbi, enfeitado de kinguila, de funcionário bancário ou de eterno viajante em missão de serviço regular para a estranja. E lá vai o dólar. Fica o kazumbi.
Fica o kazumbi em forma de desespero, na voz da minha amiga, a Dona Feliciana, que trabalha numa multinacional e sempre foi paga em dólares, uma parte do salário e a outra parte em kwanzas. No ano passado tinha bilhete de passagem para Lisboa, foi ao banco Totta, que hoje é a Caixa, pediu o seu rico dinheirinho em dólares e ninguém lho deu.. Queriam lhe dar 300 dólares! Até se riram na cara dela! Eu não acreditei, até porque se eu for ali a um banco qualquer e depositar dólares, dão-me logo um cartão Visa para eu viajar com o meu cumbu.
Em nome dessas minhas duas amigas mais velhas (porque o ti Damião já não precisa), era bom que o governador do BNA e o Tribunal de Contas pusessem ordem no circo, para levar para bem longe da nossa vista e do nosso coração esse famigerado kazumbi do dólar.

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