Opinião

A UNITA e a corrupção

João Melo |

A UNITA já ameaçou somalizar Angola. De igual modo, ameaçou avançar para Luanda a ferro e fogo. Só não logrou esses objectivos macabros porque foi derrotada no campo de batalha.

A UNITA já ameaçou somalizar Angola. De igual modo, ameaçou avançar para Luanda a ferro e fogo. Só não logrou esses objectivos macabros porque foi derrotada no campo de batalha. A sua direcção foi salva graças à magnanimidade do MPLA e do governo e, em particular, do Presidente José Eduardo dos Santos. Agora, essa mesma direcção diz que a vida piorou em Angola. Apesar de ter tido apenas dez por cento dos votos, em Setembro de 2008, jura que fala em nome do povo. “C’ést la politique”!
O mais curioso é que os mesmos que ameaçaram somalizar o país e que, de facto, o puseram a ferro e fogo durante dez anos, mostram-se ofendidos pelas vaias que receberam no Parlamento, quando atacaram o Governo. “Falta de respeito!” – gritaram. Vários jornais, além de noticiar isso, assumiram as dores da UNITA. Ora, ora, digo eu. Então isso também não é política? Troca de vaias no Parlamento é uma manifestação banalíssima, em qualquer parte do mundo. O Parlamento não é nenhum convento de freiras, com todo o respeito que as últimas me merecem.
A UNITA tem todo o direito de dizer que a vida piorou e de propor ao Parlamento uma moção de censura ao Governo. Mas os que não concordam com isso também têm o direito de vaiá-la. Em democracia, todos – Governo e oposição - precisam de habituar-se quer às críticas quer às vaias.
Os herdeiros de Savimbi parecem especialmente nervosos com o recente discurso do Presidente José Eduardo dos Santos prometendo tolerância zero em relação à fraude, à corrupção, à má gestão dos recursos públicos e ao esbanjamento. Resolveram, por isso, encenar uma exigência de demissão do Governo, apenas um ano depois das eleições, alegando que todo (?) o Governo é responsável por esses problemas. A encenação resulta do facto de, sabidamente, a UNITA não possuir votos suficientes no Parlamento para fazer passar essa exigência.
O maior partido da oposição não tem moral para falar de corrupção. Desde logo, a UNITA é politicamente co-responsável pela agudização da corrupção de 1992 aos nossos dias. Não é preciso possuir um conhecimento histórico profundo para saber que qualquer guerra cria um ambiente favorável à corrupção (por que será que o antigo vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, ganhou contratos milionários no Iraque?). A decisão da UNITA de retomar a guerra, em 1992, atrasou o país durante dez anos, inclusive no domínio da moralização da sociedade.
Mas, há mais. Por exemplo, o que é feito dos enormes recursos que a UNITA dispunha durante a guerra? Que destino foi dado aos diamantes que a referida organização controlava? Como é que algumas das suas principais figuras, civis e militares, começaram a ficar com propriedades – terras, empresas, etc.- e a ganhar dinheiro depois da guerra, se não graças ao tráfico de influências e ao apoio directo do Estado?
A corrupção em Angola é um problema transversal e não especificamente partidário. Sem ignorar as responsabilidades acrescidas que o partido governante possui, nesse e em outros domínios, toda a sociedade é convocada para ajudar a combater esse flagelo económico, social, ético e moral. Isso passa pela crítica e pela denúncia de factos ou indícios consistentes que apontem para a sua existência, mas também pela adopção de práticas individuais consentâneas com essa postura. A luta contra a corrupção deve ser firme e sistemática, mas também ponderada, realista e baseada nas necessidades e prioridades da nossa sociedade e não em receitas prontas elaboradas no exterior por gente que faria melhor se cuidasse da sua própria corrupção.
Do ponto de vista partidário, a luta contra a corrupção em Angola não pode ser feita sem o MPLA e muito menos contra ele. Acaso alguém pensará que a maioria dos quase cinco milhões de membros do partido no poder está envolvida em casos de corrupção? Aqueles que imaginam que podem usar as recentes palavras do Presidente José Eduardo dos Santos para destruir o MPLA podem, por conseguinte, tirar o cavalo da chuva.
Como escrevi anteriormente nesta coluna, apenas o Presidente tem força política para conduzir o combate à corrupção e aos excessos do poder económico nesta fase final da transição em que o país se encontra. Por isso, defendo o apoio de toda a sociedade ao Presidente, para que ele possa levar a bom termo essa autêntica e necessária cruzada.
Como é óbvio, esse apoio terá de ser crítico. É assim que eu entendo, por exemplo, as alusões de alguns jornais, no último fim-de-semana, aos negócios de certos familiares do Presidente. Estou certo que, como político atento e experiente, ele saberá como levar em conta essas observações, as quais, posso aventá-lo, são partilhadas, embora não verbalizadas, nem sequer nos “órgãos próprios”, por alguns dos seus pares nas estruturas de direcção do MPLA.
Quanto à moção de censura ao Governo que a UNITA encaminhou ao Parlamento não passa de mero oportunismo político. Trata-se de uma estratégia para tentar criar um facto que diminua o impacto positivo do recente discurso presidencial sobre a corrupção. A possibilidade do sistema angolano ser capaz de se auto-regenerar deixa a UNITA em pânico.

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