Opinião

Polícia “bem comportado”

Luciano Rocha

O desplante do comandante-geral da Polícia Nacional, ao referir-se ao assassinato, em Luanda, de uma jovem zungueira revelou, entre tantas coisas, a insensibilidade de alguém desconhecedor da importância do cargo que lhe foi entregue.

O comandante disse que o agente, que assassinou, a sangue-frio, a jovem indefesa não teve a intenção de matar. E até - atentem os dilectos leitores e contenham lágrimas de comoção e pena pelo homem que disparou - tem bom comportamento na corporação.
Nem consigo fazer ideia - nem eu, nem ninguém no perfeito juízo - se o autor do disparo à queima-roupa sobre uma mulher indefesa fosse mal comportado. Como alguns daqueles vestidos com a farda da Polícia com quem o luandense comum se cruza no dia-a-dia. O comandante, na confusão do que deixou sair pela boca, a comprovar que é, no mínimo, mau estratega, pelo menos no que toca a palavras, tentou “dourar a pílula”, ao dizer que a arma de fogo é um instrumento de defesa e protecção que não deve ser usada para atacar pessoas inocentes.
A jovem zungueira, pelos vistos, escrevo eu, não o era. Teve a ousadia de querer impedir que o “agente bem comportado” lhe levasse o ganha-pão da família: uma bacia de plástico com tomate comprado - não roubado, com ameaça de arma de fogo - para vender.
A jovem zungueira morreu em defesa do sustento dos seus. Entre os quais, um bebé de colo. Que deixou de ter, para sempre, o carinho e leite maternos. Por acção de um “polícia bem comportado”.

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