Opinião

Princípios da velha máfia e desaforos de marimbondo

Luciano Rocha

A criminalidade de “colarinho branco”, que tem na máfia dos maiores exemplos dos tempos modernos, surgiu, por via do nepotismo, que abre caminho à corrupção e impunidade.


A máfia, como tudo que é nocivo, foi-se espalhando, assumindo nomes consoante os sítios, onde despontava, contudo com objectivos e regras comuns, fazendo do contrabando, principalmente de álcool, mas, também, de tabaco, extorsão, exploração dos jogos de sorte e azar, fontes de lucro fácil, mas, é importante recordar, que, ao contrário do que sucede agora, tinha, no início, e durante décadas, regras balizadas por princípios bem definidos e ai de quem as violasse. Neste caso estavam tráfico de drogas, prostituição sexual de menores e, naturalmente, a traição, por norma, punidos com a morte sem que os herdeiros do executado, ficassem na miséria, de mão estendida à caridade.
A organização, nascida, e “abastecida”, em bairros pobres, rapidamente se desenvolveu, estendeu os tentáculos em cidades, países, continentes, espalhando o crime, sempre sujeito a normas aceites em pactos de sangue selados em vivendas luxuosas, gabinetes de juízes, parlamentos, sedes de Governo, centros de comando da Polícia. No fundo comprava os poderes todos e notabilizava-se pela generosidade no pagamento de favores e intransigência quanto à quebra de compromissos.
Com o desenrolar dos tempos, a máfia ganhou novas nuances e, embora mantenha parte das regras originais, deixou cair muitas delas e adoptou outras que nas primeiras décadas da organização eram punidas com a pena capital, como são os casos do tráfico de drogas e prostituição de menores. De qualquer modo, continua a “depor” e “eleger” Chefes de Estado e de Governo, comprar juízes, polícias, gente “bem colocada” em todos os sectores.
O crime de “colarinho branco”, cujo objectivo continua a ser o enriquecimento fácil, impõe-se, pela corrupção, que utiliza, invariavelmente, nunca é demais sublinhar, o nepotismo como arma mortífera, devastadora de economias e da paz social em qualquer parte do mundo. Hoje, não há país algum, seja em que continente for, a salvo dos efeitos deste mal. Angola, para desgraça da quase totalidade dos seus filhos, não é excepção, o que a leva a parecer eternamente adiada. Nas verbas que se gastam em reconstruções que deviam ser utilizadas em construções, nas correcções que atrasam melhorias, com importações a ocupar o lugar de exportações, desemprego a suplantar o emprego, incapazes a sobreporem-se aos capazes.
Angola, sem o nepotismo que continua por aí à solta, à sombra da impunidade, mesmo com a crise económica internacional, que, sublinhe-se, não nos tocou somente a nós, jamais tinha chegado ao estado a que chegou para gáudio de uma minoria que lhe delapidou riquezas, dinheiros públicos, tudo o que lhes apeteceu, em prejuízo da maioria, entre a qual se contam os mais desvalidos. Nem a velha máfia era capaz de tanto. Entre os delitos que lhe são imputados nunca se ouviu falar de roubos a pobres. Os “nossos” bandidos enfatuados, salvo seja, mesmo com aspas, não conhecem regras, que não sejam pilhagem e ostentação. Até na hora do aperto, o despudor não os abandona, afirmam, publicamente, coitadinhos, não ter dinheiro para pagar advogados, despesas de pais e filhos. Já se pensou o que era o pilha-galinhas, com ar de choro, bater à porto dono da capoeira, que assaltou na véspera, a pedir-lhe uma canjinha, por ter fome?! Desaforo de marimbondo não tem, mesmo, limites. Mas, tenha ou não tenha, o que é que o cidadão comum, que trabalha para se sustentar e à família, tem a ver com isso. Alguém lhe paga as despesas do dia-a-dia?

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