Opinião

Publicidade e vocação religiosa

Fragata de Morais

Nos dias de hoje, sem a publicidade não se vive, seja ela individual ou colectiva. Com a televisão global a invadir-nos os lares; com o acesso crescente aos jornais, revistas e todo o tipo de magazines, viramos janela aberta para a interiorização, na maior parte das vezes subliminar, dos condimentos que nos moldarão a imagem própria que desejamos vender, de preferência, como produto acabado.

Hoje não calçamos sapatos, calçamos a marca tal, usamos óculos Pierre Cardin, as bolsas das senhoras são Vuiton, etc. A indiferença na nossa aparência não mais nos consome, estamos e somos ávidos para nos tornarmos uma estrela nem que seja por cinco minutos ou, então, ficticiamente sermos parte do mundo das estrelas mais ou menos incandescentes que pululam nas revistas cor-de-rosa, nos écrans televisivos e nas nossas mentes.
Sem publicidade não se faz nada nem se alcançam objectivos, preferencialmente de venda. A irmã Gemma Morató, da Congregação das Irmãs Dominicanas da Apresentação da Santíssima Virgem, que o diga. Com faro inusitado, e do mais moderno em técnicas para alcançar as mentes e os corações, esta senhora, preocupada com a crise que a Igreja Católica vive para convencer tanto homens quanto mulheres a abraçar a carreira religiosa, seja como padres ou como madres, vai daí, cria um site na Internet e acerta em cheio.
Nada de anormal ou de estranho poder-se-ia esperar, dirão, até porque a via publicitária para se levar os futuros padres para o seminário é tão antiga quanto o próprio cristianismo. Jesus e os Apóstolos utilizaram-na exaustivamente, para fazer vincar a nova Igreja que se estabelecia, através de estórias, parábolas, contos, lendas, mitos, só para mencionar algumas. Se tivessem a Internet na altura, sem sombra de dúvida que a teriam utilizado, assim como as Igrejas a utilizam hodiernamente, para além do uso e abuso dos canais e cadeias televisivas, muitas delas pertença das mesmas.
A irmã Gemma, desta Congregação de origem francesa (fundada em 1696) e também estabelecida em Espanha, que fez voto de pobreza, obediência e de castidade, criou um site, como já referi. www.mivocacion.es onde, com certa ousadia e picardia, tem conseguido levar água ao seu moinho, com uma linguagem inovadora, poder-se-ia dizer.
Vejamos, pergunta ela às futuras candidatas: “Gostas de homens? És namoradeira? Tens charme?”.
Para quem ainda duvide, caso a resposta seja sim, a irmão Gemma não deixa fugir o seu peixe, logo anuncia que “então talvez sejas a freira perfeita”.
É claro que estas questões só podem conduzir a uma introspecção sobre o que se deseja da vida, quais os possíveis rumos a seguir, entre eles, a revelação da fé e a carreira religiosa. São técnicas aparentemente ousadas, todavia voltadas para uma juventude cada vez mais encurralada, por um lado, e liberta de dogmas e preconceitos, por outro. A linguagem directa tem um objectivo concreto, contacta-se a possível interessada com uma ideia compreensível e que faz parte da sua vivência diária. Não se pode, acho, exigir castidade a uma pessoa casta, aliás, Maria Madalena é um exemplo, foi uma jovem fogosa, como diz ela no seu site. Se a jovem conhecer o mundo em que vive, tiver passado por ele de modo e forma conscientes, talvez esses contactos as possam orientar para uma carreira vocacional, sem os sentimentos da culpa, da ambivalência e contradições que afastam cada vez mais os homens e as mulheres dos seminários, dos conventos e dos púlpitos.
Por essa razão, já hoje os leigos, na maioria sendo mulheres, se vêm obrigados a administrar os ritos dos casamentos, dos baptismos e dos enterros.

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