Opinião

Quando a ignorância passa a ser insulto

Luciano Rocha

A toponímia na capital do país, a par das classificações de “património” e nomes dados a edifícios públicos revelam, no mínimo, a ignorância de responsáveis dos vários sectores, a nível municipal, distrital, provincial e, até, nacional.

A ignorância, sabe-se, é atrevida, mesmo insolente, que tem, normalmente, como resposta um encolher de ombros, sorriso disfarçado, mas, não raro, igualmente, gargalhada sonora pelo insólito.
A verdade é que tudo tem limites. Sobretudo, quando está em causa a dignidade de um povo, como o nosso. Que tem História. Recheada de heróis e mártires. Inscritos nela, para todo o sempre, com letras de coragem, abnegação, lágrimas, sangue. Que souberam soltar o grito de revolta, tantas vezes feito de silêncios, impulsionado pelas humilhações. António Jacinto, dos nossos poetas maiores, explicou isso, como poucos, nos versos “finge que empurra, mas não empurra”. Hino de resistência, magistralmente descrito no “Comboio Malandro”. Que a maioria de enfatuadas e enfatuados que insistem, desavergonhadamente, em proliferar por aí, amparados nas muletas do nepotismo - pai e mãe de todas as desgraças que atingem o Mundo -, desconhecem. Ou, tão grave como isso, não o entendem. Por nunca lhes restar tempo. Ocupado por superficialidades, que lhes embebedam egos doentios. Pagos com o erário.
Dos exemplos mais flagrantes do ignorância insultuosa reinante em Angola está numa tabuleta toponímica no Bairro da Maianga, que perdura, com nome de artéria, desde a época colonial: 28 de Maio, dia da oficialização do Estado Novo em Portugal, que é, como quem diz, do fascismo. Curiosamente, ou talvez não, a placa de uma via adjacente, 5 de Outubro, que assinala a implementação da República naquele país, foi retirada.
Já se pensou o que era haver uma rua de Berlim chamada Adolfo Hitler? E em Havana, a praça Fulgêncio Baptista? Em Santiago do Chile, a avenida Pinochet? Em Buenos Aires, o largo Videla? Em Espanha, um jardim com o nome Franco? Em, Itália, a travessa Mussolini? Em França, a alameda Philippe Pétain?
Então, porquê haver em Angola ruas e bairros com nomes de figuras gradas do regime hediondo que nos oprimiu como Nação, o qual, acentue-se, ajudámos a derrubar, com abnegação, sangue, luto e lágrimas de alguns dos melhores filhos desta Pátria, vezes sem conta tão mal tratada pelo atrevimento da ignorância.
A História de Angola - a mais remota e a recente - está repleta de exemplos de heroicidade, mártires, intelectuais brilhantes de todas as áreas. Não precisamos de recorrer a personagens ou datas que deviam, pelo que lembram, enojar-nos a todos. Mas, infelizmente, continuam a ser reverenciadas pela ignorância de uns quantos impreparados que ocupam cargos sem reunirem o mínimo de condições para tal.
Outro dos exemplos ofensivos da alma da angolanidade atingida pelo atrevimento da ignorância cuspido por uma série de enfatuadas e enfatuados é o nome que ostenta o edifício, no qual funciona o Tribunal Provincial de Luanda. Nada mais, do que o daquela que se notabilizou, no século XIX, apenas por ser das maiores esclavagistas em Angola, mesmo após a abolição da escravatura. Por gozar das graças do regime, cujos representantes fechavam os olhos à ilegalidade do negócio em troca de benesses ocultas. No seu palacete recebia, em lautos jantares e serões prolongados, mercadores de seres humanos, como ela, armadores de barcos negreiros, comparsas da ignomínia. Ao som de choros de crianças acorrentadas na “sala de espera” para o embarque rumo a portos desconhecidos. Amontoadas em porões imundos, sem ventilação.
Esta foi a tal Ana Joaquina. Que ficou milionária a vender pessoas. Cujo nome está inscrito - com letras garrafais, como se tivesse sido alguém de que motivasse - no edifício no qual funciona um tribunal. Local destinado a fazer justiça!

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