Opinião

Requiem para um companheiro da bola

Vivaldo Eduardo

Quis o cruel destino que, no ápice da tua carreira de treinador, a enfermidade refreasse a escalada de êxitos à frente da selecção nacional de andebol.

Aquele primeiro AVC deixou sequelas. Te impediu de continuar a fazer o que de melhor tinhas para oferecer à Nação.
Mas nunca te retirou a imagem de marca. Aquela que ficou, desde o início, quando dávamos os primeiros passos como praticantes, onde mesmo a defender cores diferentes, nos brindaste com a tua amizade, com aquele sorriso franco e o aperto de mão cordial que não se envaidecia com a alegria da vitória, nem se abalava com a amargura da derrota.
Assim trilhamos os primeiros passos em comum, a jogar andebol em representação das equipas militares da época. Num piscar de olhos transitamos para a etapa de busca de conhecimentos, conscientes de que a nossa vontade de treinar equipas não era suficiente, para bem servir.
Veio o Inef e o estudo da Educação Física, com os debates acesos sobre Teoria e Metodologia de Treino, afinal de contas o que nos tinha aí levado. De permeio os duelos no campo, novamente em alas opostas. Desde os escalões de formação com campeonatos nacionais no Namibe, em Benguela e um pouco por todo mapa andebolístico do país.
Antes da refrega se estender além fronteiras de Angola, assistimos ao teu êxito à frente do ASA, em 1999, quebrando um longo ciclo de vitórias do Petro. Nos anos seguintes, com plantel rejuvenescido coube ao Petro suplantar o ASA que se transformara em favorito. Mesmo assim, aceitaste com galhardia o revés. 
Foi nos duelos além-fronteira (numa das muitas passagens por Cotonou, Benin) que a angolanidade nos induziu a selar um pacto importante, por tua sugestão: manter, entre nós, uma relação melhor do que aquela que existira entre os treinadores nossos antecessores.
O teu ecletismo ajudou imenso, porque mesmo quando te refugiavas na “Chez de Madame Rita”, para amargar a derrota diante do Petro, ao sabor duma “Flag” e ao som do nosso conterrâneo Bonga, deixaste sempre a porta aberta para o diálogo. Sofrias em silêncio e mesmo que a desilusão e tristeza pela derrota fossem notórias no teu rosto, a elegância e a sã convivência estavam presentes ao lidar com os vencedores.
Neste espírito nos recebeste, na tua casa, em Odivelas, anos mais tarde. Aconteceu dias antes da entrevista que fizemos, nas imediações da Praça de Espanha, retratada no Jornal de Angola, para mostrar que o Jerónimo Neto estava a treinar um clube em Portugal, com bom desempenho. E pronto a retornar ao seu país.
A tua rija têmpera levou-te a seguir adiante. As agruras fortaleceram-te. Apesar da angústia de não treinar equipas (sabemos bem o quanto isso é importante para nós) continuaste a luta pela vida. Foi na tomada de posse da Associação de Treinadores que me criticaste por não te ter assistido na última S. Silvestre. E aí mesmo manifestaste a satisfação por ver consumada a edificação de uma obra da qual és co-autor.
A nossa pequenez nos impede, nesta hora, de ousar contestar os desígnios do Senhor. Apenas guardamos para nós a orgulhosa herança de quem conheceu a magnitude deste seu servo, tendo com isso enriquecido a própria alma.

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