Opinião

A desirritação do irritante

Manuel Rui

Estou a escrever esta crónica no avião pois por razões de força maior que contarei um dia destes só agora me é possível, num voo TAP que atrasou horas e ainda nos mandaram sair para os electricistas a assustarem-me com um sei lá de apanhar um choque.

 Mas onde eu queria começar é sobre uma conversa informal com jovens artistas angolanos que assistiam a uma conferência sobre arte angolana contemporânea matéria que abordarei um dia destes. Mas aí os jovens colocaram opiniões e perguntas sobre a recente visita do Presidente português a Angola. Eu bem quis explicar que a nossa diplomacia tinha ganho a batalha do irritante conseguindo obter o relacionamento pacífico com Portugal podendo-se até dizer tratar-se de um relacionamento novo. Mas os jovens falaram que nunca souberam onde estivera o irritante e ainda o povo nunca ficou a saber qual motivo porque uma personalidade angolana terá ido a Portugal corromper um magistrado para arquivar processos, porquê e quem seriam as pessoas que constavam desses processos. Eu a dar a volta que o mais importante é daqui para a frente e ainda bem que tudo foi resolvido de acordo com o regulamento da CPLP. Nada, tio Rui! E tem outras coisas, cota. Falaram no banho de multidão para o Presidente dos afectos. Não gostaram. Entendem que devia ter sido recebido como o nosso Presidente foi recebido em Portugal, cerimónias de guarda de honra, o aniversario tudo bem mas não deviam ter mobilizado o povo. Eu ainda temperei que embora sabendo como se mobiliza mesmo sem “movimento espontâneo” o nosso Presidente e o nosso povo deram uma lição de bem receber e reabilitar as relações bilaterais. Nada, tio Rui, desculpe, quando o nosso veio a Portugal, o cortejo passava na avenida e os carros nas ruas transversais bloqueadas buzinavam de raiva, portanto não é uma relação paritária mas debaixo para cima e para os tugas o importante é a cobrança da dívida que ninguém percebe como se ficou a dever às vezes para obras que só existiram no papel. Mas vocês podem ter as vossas razões emocionais mas a política deve ser observada com mais frieza. Aí um dos jovens falou que só dinheiro que a empresa que detinha o monopólio da compra e venda de diamantes, rapou…Mas como? Comprava as pedras abaixo da avaliação e vendia por cima, então, tio Rui, só daí chegava e sobrava para não se ficar a dever a Portugal, tio, é o segundo Presidente que vem à cobrança, o outro, o Cavaco até foi malcriado quase a ralhar e ontem na televisão, Paulo Portas, político e comentador disse que tardou o fim do irritante porque Portugal sempre foi um país africanista, o tio sabe que os novos antropólogos de África e da América Latina trabalham com o conceito de colonialidade? Sei mas não vamos por esses caminhos do bota abaixo mas sermos mais realistas sem esquecer que o futuro está nas vossas mãos. E independentemente das ideologias Marcelo é magnético, fura o protocolo e atira-se para os braços do povo. E disso o nosso povo gosta, qualquer povo. Reparem que João Lourenço não se tem cansado de mostrar ao mundo o que pretende fazer e a verdade é que a impressão sobre o nosso país melhorou internacionalmente. E comparem com os países que nos rodeiam. No mais, o tal de irritante e a forma como foi digerido serve de exemplo para que irritantes desse género não se voltem a repetir. De resto admiro o vosso espirito crítico que valorizará mais a nação quanto mais criativo e de energia positiva. É preciso juntar todas as energias positivas, juntar as mãos para alargar o círculo.
A rapaziada pausou a conversa para a literatura, qual seria o próximo livro e ainda como explicar a situação do nosso futebol quando outros países africanos alimentam os grandes clubes portugueses. Olhem isso não conheço o suficiente mas no basquete quem é que manda? O tio sabe que quando Angola é campeã aqui a comunicação nem noticia, está a ver a bilateralidade. Isto são problemas culturais dos quinhentos anos passados. Qualquer um de vocês tem o clube de Angola e um de Portugal. Foi a grande gargalhada naquela maneira como angolano resolve makas que não era o caso e que havia um almoço com comida de Angola, Cabo Verde e Guiné. Agradeci mas não ia por motivos de saúde e dois amigos meus já apanharam intoxicação alimentar com esses óleos de pala azedos que andam por aí.
Ficámos em silêncio até que um deles atirou um ponto final. Tio, intoxicação alimentar deve ser irritante! Aí fui eu quem bateu palmas falando, gente, por isso foi bom acabar com aquele irritante, o Marcelo ficou contente, o povo também e, acima de tudo Angola deve e precisa de ter amigos e com Portugal e os países da CPLP a melhor amizade melhora o relacionamento. A comidinha fica para Luanda pois vocês vieram de Londres para a conferência aqui em Lisboa. Têm a sorte económica e o tempo a vosso favor para observarem o irritante que é o Brexit.

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