Opinião

Canhões de água e gás lacrimogéneo

Manuel Rui

Nunca nos passaria pela cabeça que nestes tempos das alterações climáticas, da necessidade de consumir a água com parcimónia e poluir menos, nunca a democracia ou as democracias, ou a diferença entre sistemas e regimes, nunca nem em ficção se poderia imaginar que os maiores consumidores de água e os maiores poluentes seriam as forças policiais ou de segurança que lançam jactos de água impetuosos, bombas de gás lacrimogéneo, balas de borracha e outros petiscos como cargas de pancadaria e bastonada contra as multidões que se manifestam contra poderes instituídos, o mais das vezes, pela via eleitoral.

E não podemos deixar passar esta realidade: a maioria dos manifestantes, por esse mundo fora, são jovens, são o futuro, o mais flagrante é o caso de Hong Kong, obedecendo ao princípio avançado por Deng Xiaoping no artº 5º da convenção de “um país e dois sistemas,” para 50 anos, mantendo o sistema capitalista em Hong Kong e no outro entreposto que foi Macau, aí havia cooperação dos portugueses com a China enquanto em Hong Kong os ingleses faziam como queriam. No entanto os dois territórios estão, a nível económico, completamente dependentes da China. Em Hong Kong, os sectores portuário e financeiro atuam como elo de ligação da China com o resto do mundo e, quanto ao imobiliário, este tem sido alimentado em grande parte por compradores do interior da China. No que toca a Macau, cuja economia é dominada pelo sector do jogo, a vasta maioria dos clientes (como o turismo em Hong Kong) são do interior da China. Tem um dado histórico importante: Macau foi cedida a Portugal a troco de uma renda anual e existiu sempre uma boa relação entre ambos os povos. Hong Kong foi tomada pela força dos ingleses na Guerra do Ópio.
E agora multidões de jovens começaram por se manifestarem contra uma hipotética lei de extradição que remeteria os delinquentes para a justiça da China continental. Com a memória dos acontecimentos dos blindados na Praça Celeste, a juventude explodiu e mesmo depois da governadora anunciar a queda de tal norma, a juventude continuou a sair às ruas, primeiro pacificamente e depois com violência e a resposta mais violenta das forças policiais. E todos os dias vemos pela televisão barricadas, incêndios, paralisação do aeroporto ou do metropolitano, porque a juventude não quer perder o seu estilo de vida…falado em inglês, quase não se ouve mandarim ao contrário de Macau. Fica-se até que a intenção em crescendo é a própria independência. Por cada batalha de rua somam-se mais de uma centena de feridos e várias centenas de jovens detidos. A violência chegou ao ponto de incendiarem com gasolina um “traidor” que se manifestou a favor da China. Em suma, os ongueconguistas não querem e têm medo do comunismo chinês. Espanta onde a governadora manda tratar tantos feridos e encarcerar tantos detidos. É muito hospital e cadeia.
Mas a água e a carbonização continua em Espanha onde uma região autónoma, a Catalunha, luta nas ruas pela sua independência. Dirigentes foram julgados e condenados, bloqueiam-se ruas, a polícia local foi reforçada com a nacional, bloquearam uma autoestrada na fronteira com França e, mesmo com a aliança à esquerda que resultou das recentes eleições a Catalunha continua uma semente que ameaça a unidade territorial de Espanha.
Eu estava para fazer a conferência de encerramento do Congresso das Comemorações sobre a chamada viagem de circunvolução de Fernão de Magalhães na Universidade de Santiago do Chile. A nossa União de Escritores não conseguia as passagens… nem de propósito, Santiago transformou-se num inferno de contestação nas ruas. Santiago de Pinochet e ainda regido pela constituição e o neoliberalismo herdado pelo facínora general que mandou assassinar o eleito Allende. Mais canhões de jactos de água, gás e outras ementas tão conhecidas na América Latina onde, na Bolívia, a oposição contestou as eleições, as multidões saíram às ruas, saqueando e destruindo estruturas. As forças armadas declararam defender o povo, O presidente Evo Morales renunciou, segundo ele para poupar seu povo e exilou-se no México. “Houve um golpe cívico, político e policial. Meu pecado é ser indígena, líder sindical e plantador de coca,” disse Evo Morales. É significativo que à semelhança do que se passa em todas as Américas, também na Bolívia, bolivianos sãos os brancos e os índios são indígenas…
A democracia que é uma geometria variável, vota e põe gente no poder para depois a depor por vezes com violência a mando do “patrocinador” que já anunciou que a seguir vem a Nicarágua e a Colômbia.
Tem um ditado chinês mais ou menos assim: que o estado é um barco e povo a água. O estado deve navegar bem num bom entendimento com a água. Quando não é assim a água afunda o barco. Por isso, ante tanto canhão de água, fiquei satisfeito por saber dos 1,98 milhões de toneladas no ano agrícola 2019-2020, colheitas combinadas de três províncias. Estamos bem de água. O mesmo deverá acontecer com o barco.

 

 

 

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