Opinião

Os alunos da primária

Manuel Rui

A globalização é como uma vírgula em qualquer narrativa ela aparece como se a narrativa fosse a própria globalização, como se o tempo, os negócios, as guerras comerciais das taxas entre americanos e chineses, as bolhas imobiliárias, a garagem da Madona ou as camisolas do CR7 que os madrilenos já não querem para desgosto dos pobres vendedores de rua, tudo é globalização e a obrigatoriedade de a seguirmos como uma pastilha elástica, a força das notícias falsas nas redes sociais e as mensagens de agitação e propaganda dissimuladas de comunicação que nos oferece a tela das televisões.

Aí é que vemos os pontos marcantes de alunos entrarem na turma da sua escola e descarregarem armas de fogo como se os seus professores e colegas fossem os índios dos filmes de cowboys, há terror, mortos e feridos, vem a polícia, as ambulâncias e tudo se repete de maneira sistémica da globalização.
     Mas é preciso travar esta nova forma de imperialismo. Acabaram as ideologias, houve a tal desideologização dos sistemas? Houve alguma teoria e prática de convergência?
    Depois do ventre da nossa mãe, a nossa casa, vem a escola primária. Hoje, em alguns países acontecem cenas de professora a lutar com uma aluna para lhe tirar o telemóvel, alunos fecharem a escola a cadeado para não terem aulas, sindicatos de professores a contestar vitimando os alunos que ficam com notas por dar.
    Temos por hábito habituado e com razão de dizermos mal de tudo que é nosso ou de guardarmos arroz no fundo que não é a nossa panela mas algo de imaginário. Mas falo da nossa escola. Costumo reparar nos grupos de alunos que vão de bata branca para a escola e outros, de pais mais ricos, de fardas aprendidas na África do Sul. Aqui na nossa terra os alunos entendem a escola como um templo da sabedoria. É a memória ancestral do tempo em que escola era quase só para o “outro.” Agora há o sentimento de posse do lugar onde se constrói a sabedoria da nação. Onde é preciso cuidar das carteiras, dos nossos livros e cadernos. Não me lembro de um estudante assassino nem de alunos a destruírem a escola. Para trás, muita coisa foi mal feita mas houve ideias tantas vezes propaladas por quem as não cumpriu mas que as crianças aprenderam. Ensinou-se que devia haver liberdade, que devia haver estudo na escola, para sermos um só povo e uma só nação. E, felizmente, esse rastilho nunca se apagou. Mesmo com as manchas da gasosa que também fizeram nódoas da ética de alguns professores podemos orgulhar-nos da nossa escola primária ou, para sermos mais precisos, devemos orgulhar-nos dos nossos pequenos estudantes como um dos jardins com que sonhávamos antes da independência e, este, salvou-se graças às crianças que leram e, na sua inocência, cumpriram, enquanto muitos mais velhos foi o que se viu. Rio-me sempre de um amigo que sempre me telefonava para lhe resolver à borla pequenos problemas jurídicos. Subiu um degrau e logo, para falar comigo, passou a mandar recados escritos no telefone pela secretária com aquele “encarrega-me…”
    Os da civilização passam a vida a falar no terceiro mundo. Esquecem o sangue e o suor dos escravos que lhes cavaram ouro e plantações e ergueram palácios que todos se deviam chamar palácios da escravatura. É o ocidente violador daquilo que ele próprio consagrou em instrumentos jurídicos sobre os direitos humanos e outros que legitimam a liberdade de religião ou o respeito pelo mundo como uma comunidade internacional e, ao contrário retoma os populismos racistas e desumanos que trava os migrantes para, como no tempo da escravatura para o outro lado do mar, fazer do mediterrâneo um depósito de esqueletos de pessoas que não podem entrar no mundo. A Europa esquece o que é solidariedade. Esquece que foram os americanos que os vieram ajudar contra Hitler e, depois, com o plano Marshall (Programa de Recuperação Europeia) conseguiram que a europa renascesse das cinzas. A convicção da sua força pensante como Velho Continente e sua unidade começa a esboroar-se pelas contradições. Mesmo assim não lhes desejo que um dia tenham de atravessar o mediterrâneo fugindo da guerra.
    Voltando aos nossos pequenos estudantes eles não merecem que num passado próximo alguns mais velhos tivessem usado o petróleo para riqueza individual pelo facto de ser volátil, evaporar-se, e os diamantes em vez de minerais do carbono milenarmente acumulado, não terem sido vendidos a preço correcto a serem lapidados para joias mas terem sido delapidados pela ganância.
    Tenho para mim que não troco uma escola primária por um penico cheio de diamantes ou um garrafão sem fundo cheio de petróleo.

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