Opinião

Uma lágrima em corda de guitarra

Manuel Rui

É por aqui. Pelos caminhos de encontrar a palavra no poema. Repeti-la de memória na insónia.

 O poema numa voz o som do canto. Perguntar a mim mesmo se fui eu que escrevi o que posso ficar a ouvir uma montanha de gente a cantar e eu no meio, semiescondido, com vergonha, não devia ter sido eu a escrever aquilo. E uma guitarra. Uma harmonia tão simples e mais sublime ao pensamento quando no palco me surge um cantor português com uma voz e uma clássica canção quimbundo em fado. Aí só uma tangida corda de guitarra desfaz para lá da memória todos os barcos tumbeiros que nos trouxeram a esta caravela de regresso e de mil ritmos e arritmias. Estou a ouvir e a ver o guitarrista – que nasceu em Angola- a lembrar-me que neste cinema que era, salvo erro, Império e agora é Atlântico, o arquitecto tinha sido o pai do Zink, o meu irmão português também deste lado de letras, o Ruy Zink. Parece que os sons é que inventaram o silêncio, os sons quando fazem eco nas nossas veias, quando os poemas e as cantigas deixam de ser de poetas, compositores e intérpretes, porque a arte foi socializada, cantam todos, sabem de cor como se fossem hinos à liberdade de não querer sair daquilo, das vozes com os corações a invadir a frescura da noite, uma angolana a cantar um fado com um sabor a dendém numa moamba de guitarra.
 Foi assim então que eu me remeti ao meu último e recente romance. O rei ou soba grande da Lukamba, nome dele, nome do rio e nome da embala, mandava chamar contadores de estórias, griôs ou mujimbeiros, tocadores de quissanji, de marimba ou flauta e até pintores para fazerem o seu retrato e uma caravela. Afinal a realidade é sempre mais de sonho do que o mais imaginário. Lukamba era um mecenas, tirava umas migalhas da sua riqueza para apoiar os criadores sem os quais o mundo já teria acabado. Fico sempre a pensar quando me deleito como a cidade italiana de Florença que se não fosse o mecenato onde andaria o renascimento na europa. Os duques das cidades italianas que eram estados e uma boa parte dos reis apoiavam os artistas. Depois com a Revolução Francesa, as repúblicas e a comercialização e mercantilização da vida, as coisas mudaram mas houve resistência da música que se incorporou em todas as revoluções e movimentos progressistas. Tive a sorte de estudar em Coimbra, ter convivido com Zeca Afonso (ainda andámos aqui em Luanda debaixo de fogo…) com o meu colega de curso Adriano Correia de Oliveira, vejam só: com o vinte e cinco de Abril acabou a minha residência fixa. Vim num salto. Foi só “comprar” um documento militar de ficha limpa e saltar para cá. Os amigos que ficaram em Portugal iam acompanhando aqui os nossos mambos…eu no governo de transição “com os meninos à volta da fogueira”…, aparece-me o Teté Ramos, voltando da metrulha, com um garrafão de aguardente, “foi o Adriano Correia de Oliveira que a manda com um abraço de solidariedade.” O Adriano na República Rás-te-parta nos primeiros toques dos versos do Manuel Alegre já exilado em Argel…”pergunto ao vento que passa/onde mora o meu país/ o vento cala a desgraça/ o vento nada me diz” (etc.). Nós, angolanos e portugueses da poesia e da música, salvo raras excepções, estivemos sempre unidos. Então, esta noite que o Banco Caixa organizou, faço publicidade de borla porque merece, é uma lição, como também se cantou (Luanda é uma lição como se fosse Coimbra). É uma lição para que iniciativas do género, com critério e sentido humanista, possam e devam ser levadas a cabo por quem pode tirar do muito um pouco para o que vale mais do que tudo: a arte, a comunicação das pessoas de forma a que a CPLOP comece a abrir os olhos e limpar remelas pelo que não tem feito pela arte excepto a de roubar.
A noite que se fez no Atlântico ficou demais com o abraço do meu irmão Paulo de Carvalho que havia ido comigo ao Huambo, logo a seguir à libertação, mais o falecido Raúl David, o Paulo estava-me a recordar de ouvir o tio Raul cantar os Meninos do Huambo em umbundu com quissanji, eu falei a travar a lágrima numa corda de guitarra. “Caramba, Paulo, tens que cantar isso em umbundo e gravar.”
Sim. Eu travei muito a lágrima na corda de uma guitarra. E ainda fiquei a pensar no falecido André Mingas a chegar a minha casa de viola pronta, o Carlos do Carmo estava muito doente mas não se esquecia daquela ideia do fado mulato. E num ápice fizemos o fado mulato “com missangas de luz a brilhar…”Tudo parece um sonho quando as palavras cantam a vida o amor e a beleza das flores abrem os olhos do vento.

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