Opinião

A grande traição aos mortos do 11 de Setembro

José Goulão|

O mundo oficial, isto é, o mundo que decide, o mundo que assiste conformado e o mundo que aceita sem se interrogar, assinalou os dez anos passados sobre o atentado terrorista de 11 de Setembro de 2001.

O mundo oficial, isto é, o mundo que decide, o mundo que assiste conformado e o mundo que aceita sem se interrogar, assinalou os dez anos passados sobre o atentado terrorista de 11 de Setembro de 2001.
Foram muitos os discursos, vários os exorcismos e numerosas as ameaças metralhadas em todas as direcções a pretexto de recordar as vidas humanas perdidas numa tão cobarde acção de violência. Tudo com muita pompa, circunstância, solenidade e, sobretudo, um formalismo hipócrita.
Lembrar e assumir o pesar pela morte de milhares de inocentes que pereceram no interior dos aviões atacantes e nos edifícios por eles atingidos é uma reacção natural, que para os familiares e amigos dos desaparecidos não é, porém, uma rotina dependente de datas redondas é, acima de tudo, o convívio permanente com a tragédia que marcou para sempre as suas vidas.
Também é curto, infelizmente, resumir as vítimas do 11 de Setembro aos que desapareceram nos atentados de Nova Iorque. Os senhores do mundo ignoraram de forma grosseira, nestes actos solenes, as centenas de milhares de vítimas mortais decorrentes dos acontecimentos internacionais provocados pelas interpretações, os aproveitamentos e os actos de vingança associados aos atentados de Nova Iorque.
Não foram lembrados, nestes dias, os mortos e estropiados inocentes das guerras do Afeganistão, do Iraque, da Líbia, também eles vítimas do 11 de Setembro.
As cerimónias oficiais do 11 de Setembro também não serviram para desfazer as muitas e legítimas dúvidas que continuam a subsistir em paralelo com a verdade oficial montada pela Casa Branca e pelo Pentágono, tão incompleta como inquestionável, tão pontuada de hiatos como útil se tornou para colocar a sociedade norte-americana de hoje – e, por arrastamento, a "sociedade mundial" - nas fronteiras do Estado policial onde, em última instância, prevalece a força securitária e militar.
Já repararam que nenhuma "verdade oficial" assumida nos Estados Unidos da América é clara, transparente, verosímil, definitiva? Todas elas têm os seus episódios de culto, as suas figuras de vilões e, também, factos que vão sendo descobertos e que, década após década, não encaixam de modo algum na tese transmitida aos cidadãos.
É o que se passa com o assassínio de JF Kennedy, com o assalto a Playa Girón (Cuba), também conhecido por episódio da "Baía dos Porcos", com a Guerra do Vietname, com a mediação do processo de paz israelo-palestiniano, com o 11 de Setembro, com o avião que nesse dia caiu ou não no Pentágono, com os longos anos de caça a Bin Laden, com as relações entre este e departamentos oficiais de Washington, com o próprio assassínio de Bin Laden e a rápida entrega do seu suposto cadáver aos tubarões do Índico. Nada disto é límpido, isento de suspeitas, aceitável pelas mentes que pensam e não estão disponíveis para ser tratadas como paus-mandados.
E quando há entidades, organizações, cidadãos que investigam acontecimentos com base em factos e dados verosímeis que não se enquadram nas verdades oficiais é certo e sabido que são acusados de cultivar a "teoria da conspiração" e, no limite, de estarem feitos com os mais maléficos de todos os terroristas.
Nada é tão disparatado e grosseiro como esta muleta de discursos oficiais assumida pela comunicação social que se comporta como câmara de eco dos senhores do mundo. No entanto, os factos por vezes são tão gritantes que valem logo por si próprios mesmo antes de serem envolvidos em qualquer tese que venha a ser qualificada como conspirativa.
Poder-se-á dizer que a aliança entre os Estados Unidos e Bin Laden no Afeganistão durante os anos 80 e inícios dos 90 já é história velha; pode argumentar-se que a colaboração militar entre fundamentalistas islâmicos e a OTAN em vários países balcânicos e na criação desse fantasma que é o Kosovo foi uma engenhosa manobra para controlar os terroristas muçulmanos numa região da Europa em pé de guerra; pode merecer alguma reflexão o argumento da colaboração entre os Estados Unidos e o regime de Khaddafi como meio de combater a influência crescente da al-Qaida no Norte de África.
Mas vamos a factos novos, puros, indiscutíveis, actuais: enquanto homenageiam as memórias das vítimas da al-Qaida nos atentados de 11 de Setembro, as principais potências da OTAN, com os Estados Unidos à cabeça, montaram uma guerra para levar ao poder na Líbia uma coligação onde avultam grupos irmãos da al-Qaida e acabam de permitir que o novo governador militar de Tripoli seja um velho combatente fundamentalista islâmico associado da al-Qaida. Não digam que é teoria da conspiração…
Os mortos do 11 de Setembro não mereciam esta traição.  

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