As eleições na Grécia e o triunfo do medo

José Goulão|
20 de Junho, 2012

Já está. A chantagem, a intimidação e as palavras arremessadas como pedras pela força bruta de Berlim e Bruxelas e respectivas câmaras de eco conseguiram que os partidos a mando da troika tenham maioria suficiente para governar a Grécia.

Já está. A chantagem, a intimidação e as palavras arremessadas como pedras pela força bruta de Berlim e Bruxelas e respectivas câmaras de eco conseguiram que os partidos a mando da troika tenham maioria suficiente para governar a Grécia. Pelo tipo de sondagens que foram sendo divulgadas nas últimas semanas, dando um autêntico empate técnico entre a Nova Democracia (direita) e o Syriza, esquerda anti-austeridade, os resultados finais revelam a existência de um voto de medo no sentido situacionista decidido praticamente à boca da urna. E também algum refúgio na abstenção – bastante elevada (38 por cento) estando em jogo o que estava. Menos de três pontos percentuais e, na realidade, apenas oito deputados separaram os dois favoritos, mas as diferenças provavelmente consolidadas apenas nas últimas horas antes de abrirem as urnas garantem o triunfo da Alemanha nestas eleições gregas. A lei eleitoral da Grécia prevê um bónus de 50 deputados ao partido classificado em primeiro lugar e daí a diferença de 58 deputados para pouco mais de dois por cento de diferença, facto ilustrativo de aspectos caricaturais da democracia grega engendrados pelas duas famílias políticas – Nova Democracia e Pasok (socialistas) que formam no país aquilo a que costuma chamar-se o “arco da governação”, ou de forma mais arrogante ainda, o “arco da governabilidade”.
Berlim, Bruxelas e, na verdade, todos os governos da União Europeia, incluindo o francês agora reconfortado com a maioria absoluta socialista no novo Parlamento, suspiraram de alívio. Os gregos vão continuar a penar ainda mais austeridade, mais recessão, mais desemprego, vão sofrer os efeitos de uma dívida que continua a crescer mesmo com as medidas ditas para a “combater”, mas a estratégia da senhora Merkel para a “estabilidade” da União Europeia e satisfazer os mercados financeiros deu um importante passo em frente.
Estamos a assistir, é certo, a um surto de bazófia do Pasok, que como ficou com 33 deputados contra os 129 da Nova Democracia sabe que entra no governo como uma espécie de apêndice e, por isso, afirma que só aceitará coligar-se com a Nova Democracia se for na companhia do Syriza.
A falta de senso desta posição, ou então a tentativa canhestra de pregar uma partida ao Syriza minando o campo do combate à troika, saltam à vista. É o partido operacionalmente mais responsável pela situação em que se encontra a Grécia, o que chamou, abriu as portas e disse ámen a tudo quanto a troika impôs, o partido que aceitou ser substituído por um governo de tenocratas formado em Bruxelas, votando-o favoravelmente no Parlamento, que agora diz que só irá para o governo de braço dado com o mais poderoso dos adversários da troika.
Uma declaração como esta não passa de fogo fátuo, que aliás é absolutamente contraditória com a cartilha política do próprio chefe do Pasok, Evangelos Venizelos, tão ultraliberal como a senhora Merkel, o senhor Monti, o senhor Papademos e outros praticantes da doutrina Goldman Sachs, de tal modo que transitou automaticamente de ministro das Finanças do governo de Papandreu para o mesmo cargo da equipa tecnocrática expedida para Atenas enquanto, de caminho, tomava conta do próprio partido.
Nas próximas horas a Alemanha e a Comissão Europeia lembrarão ao Pasok que depois do susto por que todos passaram não há tempo para frescuras políticas, é preciso acelerar o trabalho de aplicação dos resgates para recuperar o tempo perdido com os devaneios democráticos e eleitorais. E os socialistas gregos lá se associarão à direita, por dever patriótico, é claro, para prosseguir a guerra contra o seu povo em benefício de grandes interesses estrangeiros, que aliás desencadearam.
O desfecho foi este, terrível para o povo grego e para todos quantos sofrem a aplicação insensível da austeridade por causa de uma política monetária que, de facto, apenas serve um país. A escolha do medo foi entre o conhecido, que mesmo agravando-se assegura a manutenção da Grécia no euro (assegurará?) e na União Europeia; e entre o caos anunciado pelas trombetas de Berlim informando que derrotar a troika significaria o descalabro, o isolamento e a destruição do país – como se não fosse a isso que estamos a assistir.
Do desfecho ficou também uma lição importante para os europeus: é possível resistir, afrontar e mais do que assustar o regime. Um partido de esquerda, lutando e mobilizando contra a austeridade teve 27 por cento dos votos e discutiu a vitória com os partidos-Estado, os partidos ditos “com vocação governativa”. Na Grécia ficou demonstrado que não existem os partidos de governo e os outros, os que servem para compor o ramalhete democrático. Se os cidadãos europeus reflectirem sobre este processo, inclusive sobre as formas de unir e tornar eficazes as forças, por certo maioritárias (mas dispersas), que se opõem à austeridade e aos representantes da política única, submetidos ao diktat de Berlim e Bruxelas, então o medo deixará de votar.

capa do dia

Get Adobe Flash player

Você e o Jornal de Angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

Enviar carta

Cartas dos Leitores



ARTIGOS

MULTIMÉDIA