Opinião

Ditadura do mercado

José Goulão |

Há situações que não se compadecem com rodeios ou meias palavras. Para quê tentar adoçar a palavra “ditadura” através de qualquer outra quando é a que assenta exactamente num determinado facto?

Há situações que não se compadecem com rodeios ou meias palavras. Para quê tentar adoçar a palavra “ditadura” através de qualquer outra quando é a que assenta exactamente num determinado facto?
E o facto é a intervenção das decisões das chamadas agências de notação na vida das pessoas retirando-lhes direitos, baixando-lhes salários, forçando despedimentos.
Quem deu o poder às agências de notação? Os cidadãos? Foram eleitas? Apresentaram programas? Quem são elas? Têm rostos?
Prestam contas a alguém? Pagarão mesmo impostos?
Todas as respostas que cada um de nós possa dar a estas perguntas serão suficientes para percebermos que estamos perante um fenómeno opaco e que, de certeza absoluta, não tem nada a ver com qualquer mecanismo democrático.
Poderá parecer excessivo dizer que as suas decisões interferem directamente na vida das pessoas. Mas é isso mesmo que acontece. As agências de notação dão notas às dívidas dos Estados, as quais vão determinar os tratamentos que os mercados dão a essas dívidas, os quais obrigam os governos a fazer adaptações às economias dos seus países, as quais, como muito sabemos pela crise em curso, caem direitinhas sobre os sectores mais vulneráveis das populações.
Nem todos sabem que existem muitas agências de notação. O que é natural: apenas se fala de três: Standard and Poor’s, Moody’s e Fitch, todas elas norte-americanas e cuja importância parece ser a da ordem escrita.
Na sexta-feira passada a Standard and Poor’s arrasou as notas de nove países da União Europeia, retirando inclusivamente a avaliação máxima à França e à Áustria, e a Europa ficou em estado de choque a duas semanas de uma cimeira sobre um tratado que irá impor limites drásticos aos défices públicos, institucionalizando a austeridade, atingindo os mesmos de sempre. Um tal tratado representará o fim da capacidade dos Estados para realizarem investimentos e manterem os direitos sociais dos cidadãos.
No meio do pânico geral ergueu-se então a voz de Merkel, poupada pelos notadores, dizendo que a melhor resposta a dar à Standard and Poor’s é aprovar e fazer entrar rapidamente em vigor o novo tratado. Isto é, em linguagem comum, vamos deixar-nos de perder tempo com dúvidas e discussões, sigamos em frente com o tratado que é, como já perceberam, uma criação de Merkel. E nada de pensar em submeter o tratado a referendo das populações, só faria perder tempo e poderia até inviabilizá-lo.
Perante as críticas entretanto surgidas, a Standard and Poor’s assegura que não age “por caprichos”. Tem toda a razão, o poder do dinheiro odeia o capricho, só conhece ganância. E se bem repararam entre a razia das notas das dívidas e a proclamação sonora de Merkel há uma relação de causa e efeito, que não é, por certo, capricho ou coincidência, sabendo-se que a chanceler alemã é o expoente máximo da ortodoxia neoliberal no universo da União Europeia.
As agências de notação – as “três irmãs” norte-americanas, entenda-se – são pilares da ordem neoliberal que impôs o poder absoluto do mercado, da especulação, da agiotagem, da economia de casino. Não as elegemos mas mandam em nós.
Não tenho dúvida de que a palavra ditadura é a que melhor explica uma situação como esta.

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