Opinião

Euro ao estilo da Alemanha

José Goulão|

Num exercício de manipulação política que espezinha quaisquer sobras de respeito que existam nas instituições europeias pela soberania da Grécia, Bruxelas e Berlim multiplicam mensagens e ameaças aos gregos para as eleições gerais de 17 de Junho.

Num exercício de manipulação política que espezinha quaisquer sobras de respeito que existam nas instituições europeias pela soberania da Grécia, Bruxelas e Berlim multiplicam mensagens e ameaças aos gregos para as eleições gerais de 17 de Junho. Com a arrogância própria de quem sobrepõe liminarmente os interesses dos mercados à capacidade de decisão dos eleitores, o que esses poderes ditam para Atenas é que as urnas decidirão, não sobre a constituição de um Parlamento ou a formação de um governo, mas tão só a continuação na Zona Euro. Ou seja, se os gregos ousarem dar a maioria a organizações que discordam das medidas de austeridade impostas a coberto de uma dívida que não contraíram, a partidos ou coligações que entendem haver outras soluções para acertar essas contas que não a determinada pelos mercados privados através da troika “pública”, correm o risco de ser expulsos da moeda única.
Passo a passo, a crise económica e financeira – que se assemelha cada vez mais a um regime político do que a uma situação conjuntural – expõe os reais interesses de quem dela se aproveita impondo sacrifícios não apenas injustos mas também injustificados e desnecessários a dezenas de milhões de pessoas. Não é por acaso que, apesar de todas as maciezas semânticas próprias do jargão diplomático, a cimeira do G8, dos que mais mandam no mundo, demonstrou como Merkel, com a sua intransigência, e os seus subordinados institucionais da União Europeia, com a sua subserviência a Berlim, foram confrontados com posições mais moderadas dos seus parceiros do mesmo patamar dimensional, a começar pelos Estados Unidos da América.
Digamos que o egocentrismo do governo alemão, confundindo ostensivamente os seus interesses e o fundamentalismo neoliberal com os de todos os países e povos da União Europeia, deixou bem à mostra o osso da crise. Nem mais nem menos do que o euro, a moeda única de 17 países da União Europeia.
Sabemos que a posição aparentemente mais moderada do senhor Obama não está directamente relacionada com os sacrifícios a que são sujeitos milhões de europeus atacados por políticas cruéis que arrasam os seus mais elementares direitos. Na verdade, Washington não se dá bem com um euro rivalizando permanentemente com o dólar e muito menos com uma instabilidade que abala todo o sistema económico e financeiro mundial por causa da política assumida por um país para com uma moeda comum a 17.
Nada no edifício legal em que assenta o euro dá legitimidade aos ministros alemães e aos dirigentes das instituições europeias para ameaçarem os gregos no caso de votarem contra as políticas impostas pela troika; nada na moeda única dá direito a um país de ameaçar expulsar outro dizendo que o faz em nome de todos os outros.
No meio de vários falsos problemas, o principal dos quais é a ideia de que a moeda única é incompatível com défices orçamentais, emerge agora, bem à vista de todos nós, a verdadeira razão das políticas que se aplicam em nome da crise mas que não a combatem.
Se olharmos para as situações dos países sujeitos às intervenções da troika, todas elas são hoje piores do que quando começaram os resgates, a começar pelo facto de as dívidas soberanas terem subido, e muito.
A crise também não é do euro, mas sim do modo como a Alemanha encara o euro. A moeda única europeia foi criada à imagem e semelhança do marco alemão, o Banco Central Europeu adoptou a estrutura do Banco Central alemão. Muitos economistas reconhecem que a principal causa da situação que hoje existe reside nos apertados critérios de convergência em que assentou a criação da moeda única e no combate cada vez mais fundamentalista aos défices orçamentais, manietando os Estados, afundando as economias.
Tudo isto resulta, em última análise, da política de euro “forte” que entre os 27 da União Europeia apenas interessa à Alemanha, o único país do grupo onde o valor das exportações é superior ao das importações.
Moral da história: a economia e a moeda da União Europeia são geridas ao sabor dos interesses alemães. Um único país determina como é gerida a moeda comum a 17. No entanto, apesar das ameaças dirigidas para Atenas não parece ser assim tão seguro que a Zona Euro possa aguentar a saída de um país, seja a Grécia ou outro. Quem o diz não são os gregos que lutam contra a austeridade, mas sim altos dirigentes europeus como o luxemburguês Jean-Claude Junker, presidente da Zona Euro.
Afinal, apesar da arrogância e das ameaças, nas eleições gregas pode estar em jogo a própria sobrevivência do euro à moda alemã.

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