Opinião

Incoerências e mentiras

José Goulão |

O Bahrein é um pólo desmistificador da operação de propaganda em que se transformou a expressão “Primavera Árabe”, eventualmente bem intencionada na sua génese mais remota e rapidamente aviltada.

O Bahrein é um pólo desmistificador da operação de propaganda em que se transformou a expressão “Primavera Árabe”, eventualmente bem intencionada na sua génese mais remota e rapidamente aviltada.
Foi preciso um grande prémio de Fórmula 1 para o mundo voltar a ouvir falar de protestos populares no Bahrein, e logo da pior maneira possível, dando escape ao profundo desprezo dos furiosos do circo automóvel por aquela inconveniente horda de exaltados dispostos a estragar o seu dispendioso brinquedo.
Poucos dos actuais movimentos populares no mundo árabe terão tanto a ver com a inspiração da “Primavera Árabe” como a luta no Bahrein. É uma luta social, política, étnica e, claro, também confessional, porque através dela se confrontam indirectamente os principais centros islâmicos do xiismo, o Irão, e do sunismo, ainda que na sua versão wahabita, a Arábia Saudita.
Existem, no entanto, razões muito profundas para que o contencioso social e político tenha um peso determinante. O Bahrein é uma monarquia autocrática disfarçada de “constitucional” em que os direitos sociais e políticos da maioria da população do país, de origem xiita, pura e simplesmente não existem. É por isso que se realizam os protestos nas ruas e na simbólica praça da capital, Manamá, praticamente contemporânea da mítica Praça Tharir do Cairo. As manifestações não eclodiram agora para aproveitar a projecção mediática dada pela Fórmula 1 ao Bahrein. Prolongam-se há bastante mais de um ano, reprimidas de modo sangrento, violando todas as normas fundamentais associadas ao respeito pelos direitos humanos, agredindo o direito internacional. Basta recordar que a primeira fase da luta social do povo do Bahrein, em Março do ano passado, foi combatida através de uma invasão militar da Arábia Saudita disfarçada de pedido de apoio feito pelo regime ditatorial sunita no âmbito do Conselho de Cooperação do Golfo.
A invasão de um país soberano por tropas de um país vizinho para ir tentar matar no ovo um processo de luta pela democracia e respeito pelos direitos humanos não inquietou nenhum desses habituais santuários como Bruxelas e Washington onde se fazem os julgamentos e avaliações sobre os comportamentos democráticos e quem supostamente os viola. Uns calaram-se, outros assobiaram para o ar, tanto mais que, poucos dias depois, o Conselho de Cooperação do Golfo desempenhava já outra função de elevada importância como a de armar, financiar e treinar os “rebeldes” líbios, a rogo da OTAN, para estabelecer a democracia na Líbia.
Tenhamos pois a noção da coerência deste processo: enquanto reprimia em sangue, enchendo cemitérios e hospitais, a luta pela democracia no Bahrein, o Conselho de Cooperação do Golfo, Arábia Saudita e Qatar, sobretudo, dava asas e alento aos “rebeldes” na Líbia que lutavam pela democracia no país.
Os resultados estão à vista alguns meses depois: a democracia líbia entretanto instaurada é um regime controlado por milícias, gangs tribais e forças secessionistas; e a luta pela democracia continua a ser reprimida no Bahrein; observamos agora também como a Arábia Saudita e o Qatar estão directamente envolvidos no apoio militar aos grupos de mercenários através dos quais procuram trocar de regime na Síria ou, no mínimo, impedir que o cessar-fogo seja instaurado neste país.
Onde para a “Primavera Árabe” neste cenário? Em boa verdade nunca existiu qualquer “Primavera Árabe”, a não ser na Tunísia; porque no Egipto ainda estamos longe de todos os dados terem sido lançados.
Quanto ao Bahrein, a primavera política e social vai continuar a fazer-se esperar, pesem embora a coragem e a determinação dos democratas. Além de tudo, o país alberga a Quinta Esquadra dos Estados Unidos da América, gigantesca força de polícia imperial que controla os mares do Golfo ao Índico, por alturas do Quénia, peça estratégica do domínio sobre o Médio Oriente, Corno de África e adjacências, de preferência petrolíferas.
As grandes potências, porque o são – abrangentes e poderosas – deveriam ter o decoro de admitir que as suas posições na cena internacional nada têm a ver com democracia, liberdade e direitos humanos. Continuam a achar, porém, que a propaganda será suficiente para manter a generalidade do mundo de olhos fechados perante as suas incoerências e mentiras. Talvez se enganem.

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