Opinião

O flagelo do desemprego

José Goulão |

Vinte e cinco milhões de pessoas, tal é o número de desempregados na União Europeia, a vigésima parte da população dos 27 países nela agregados.

Vinte e cinco milhões de pessoas, tal é o número de desempregados na União Europeia, a vigésima parte da população dos 27 países nela agregados. Vinte e cinco milhões de seres humanos directamente atingidos pelo flagelo, o que significa a existência de “efeitos colaterais” em mais de cem milhões de pessoas se fizermos cálculos, conservadores, baseados em famílias de quatro membros. Vinte e cinco milhões de pessoas é a soma do número de habitantes de Portugal, Grécia e Irlanda, ou de mais de metade dos espanhóis, 40 por cento dos franceses, ou mais ou menos o número total de pessoas que vivem na Suécia, Dinamarca, Finlândia, Letónia, Estónia e Lituânia.
O desemprego é um flagelo na Europa, uma epidemia que progride a ritmos que, em alguns casos, são alucinantes devido à devastação social que provocam. Afecta directamente um em cada quatro espanhóis, um em cada cinco gregos, mais de um em cada seis portugueses, atinge mais de metade dos jovens espanhóis e ameaça de maneira semelhante os cidadãos com menos de 25 anos em numerosos países europeus.
Ao contrário do que acontece com as epidemias no sector da saúde, este flagelo não está a ser combatido, pelo menos de maneira que resulte, se assim fosse os números não estariam em progressão permanente.
Os políticos europeus, incluindo-se nesta designação os que integram as instituições da União e os governos dos 27 países membros, multiplicam declarações sobre as suas intenções de dinamizarem a economia e criarem emprego enquanto acontece exactamente o contrário: estagnação, recessão e cada vez mais desemprego.
Todos os dias ouvimos notícias sobre novas iniciativas prometidas para criar postos de trabalho e, ao mesmo tempo, informações revelando que a empresa X “suprimiu” centenas de empregos, a multinacional Y “cortou gorduras” abdicando de uns milhares de trabalhadores, o conglomerado Z apostou na “racionalidade económica” eliminando “excessos” na força de trabalho. Parece não haver outra solução para combater a crise do que “comprimir” as despesas laborais, embora jamais se use a palavra despedir. No meio deste cenário de tragédia humanitária assistimos a episódios assombrosos. Um dos vice-presidentes do Banco Central Europeu (BCE), Vítor Constâncio, confessou-se “surpreendido” pelo facto de o desemprego estar a subir.
Peço-vos um pouco de paciência para me acompanharem neste raciocínio. Todas as estatísticas oficiais e oficiosas revelam que os custos com o trabalho não são, nem de perto nem de longe, os maiores responsáveis pelos problemas das empresas; além disso, a opção única pela via da austeridade para combater a crise tem como consequência principal, já comprovada, uma razia económica  mergulhando países na recessão como são os casos de Portugal, Espanha, Grécia, Holanda, Irlanda, Áustria e outros que não tardarão; como se não bastasse, a austeridade é acompanhada pela multiplicação de reformas laborais que têm como consequência principal e imediata provocar despedimentos com o máximo de facilidade e o mínimo de indemnizações, benesse que as entidades patronais estatais e privadas não hesitam em aproveitar.
Qualquer cidadão com um mínimo de experiência na gestão das suas economias pessoais e dotado do mais elementar senso comum sabe que nenhuma das medidas aplicadas pode animar economias e criar emprego.
Então, completando o raciocínio, como é possível que alguém que chega à vice-presidência de uma entidade como o Banco Central Europeu se declare “surpreendido” por o desemprego estar a crescer? Das três uma: ou vive numa ilha deserta ou noutro planeta, ou é absolutamente analfabeto em economia, o que custa a crer, ou tenta atirar-nos poeira para os olhos partindo do princípio de que somos nós os ignorantes e analfabetos.
Podemos conjecturar sobre todas estas hipóteses. Mas creio que, independentemente disso, não restam dúvidas de que no Banco Central Europeu e afins existe uma insensibilidade absoluta perante os flagelos que atingem seres humanos e uma reverência total perante as exigências dos “mercados”. Isto é, primeiro o euro e a especulação financeira, no fim de tudo os cidadãos.

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