Opinião

O terrorismo mediático é o mais eficaz de todos

José Goulão|

O processo da forçada mudança de poder na Líbia é tão trágico, como exemplar.

O processo da forçada mudança de poder na Líbia é tão trágico, como exemplar. À boleia da chamada Primavera Árabe, um processo em que é ainda muito cedo para fazer balanços de causas e efeitos, uma sucessão de acontecimentos de índole terrorista tomou conta do país que se diz ser o de maior potencial petrolífero em África e o resultado, para já, é a instalação de um poder em Tripoli sobre o qual há duas únicas certezas: é patrocinado pela OTAN e tem uma fortíssima componente operacional fundamentalista islâmica associada à al-Qaida.
Na Líbia cruzam-se várias expressões de terrorismo, isto é, o exercício da política através do terror. O terrorismo mais poderoso de todos, o da Aliança Atlântica como braço do poder imperial dos Estados Unidos da América; o terrorismo dos "rebeldes" por ele patrocinado; o terrorismo islâmico, com a sua agenda própria e que não poucas vezes, nos últimos 30 anos, tem coincidido com o da OTAN – Afeganistão e Balcãs são os casos mais flagrantes; o terrorismo mediático, uma forma de violência cada vez mais sofisticada porque sem ela é impossível que a "moral" que recorre ao terrorismo em nome da democracia funcione como moral dominante. Havia ainda na Líbia o terrorismo do regime de Kadhafi, assente na arbitrariedade de um poder único não discutível, ditatorial portanto, pesem embora as belas intenções à nascença e até o relativo desenvolvimento económico e social, garantido, contudo, à custa da exploração do trabalho e das necessidades dos imigrados chegados de países muito pobres.
Aqui chegados parece-me importante notar que o terrorismo do regime de Khaddafi não foi, principalmente nos últimos anos, um problema para os dirigentes que espalham aquilo a que chamam democracia nas ogivas dos mísseis. Tinham acesso perfeito ao que verdadeiramente queriam, o petróleo, se calhar não tanto nas condições de selvajaria neoliberal que preferem, mas dava para o gasto.
Claro que agora, em princípio, o leilão das riquezas naturais líbias será mais fácil e barato, a não ser que tantas vezes se abre a caixa de Pandora do terrorismo islâmico que algumas vezes a coisa corre mal. Como parece ter sido o caso do 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque. Em todo estes contextos emerge a importância estratégica do terrorismo mediático. Por uma razão simples: é preciso criar e manter uma opinião pública mundial, tanto quanto possível formatada, domesticada e unânime, convencida de que aquilo que se está a fazer é certo, mesmo que os resultados sejam ao contrário de tudo quanto se diz e reneguem a cada passo as doutrinas humanistas e democráticas pregadas. Mentira continua a ser a palavra adequada para aplicar a estas situações, mas realmente ela parece muito fraca perante a sordidez do processo de que todos estamos a ser vítimas. Há, claro, a mentira insidiosa, sofisticada, em fato e gravata servindo-se generosamente dos horários nobres da TV mundial. Mas o desplante já é tanto e tão bruta a insensibilidade gerada pelo poder da força que às vezes o terrorismo mediático se torna tão carniceiro como o de um "bombardeamento cirúrgico" sobre escolas e creches.
E acreditem que a nódoa cai mesmo em fatiotas que têm fama de serem feitas com os melhores panos. Quando a vitória "rebelde" em Tripoli estava longe de consumada, a douta BBC antecipou-se e pôs no ar, "em directo", as manifestações de euforia que, segundo dizia, estavam a decorrer na Praça Verde de Tripoli, já rebaptizada "Praça dos Mártires". Os nossos irmãos brasileiros costumam dizer, e bem, que a mentira tem perna curta: a montagem era tão grosseira que não foi difícil desmascará-la: as imagens eram de arquivo e tinham sido captadas durante manifestações na Índia que nada tinham a ver com a situação na Líbia.
Não é de estranhar, perante isto, que a petroTV Al Jazeera, do Qatar, ditadura monárquica desde o primeiro momento na fila da frente ao lado da OTAN, tenha cumprido o papel para a qual existe. Também antes da vitória "rebelde" em Tripoli passou imagens dos supostos festejos na Praça Verde – e aqui a mentira foi mais apurada. O cenário parecia real – mas não era, embora à primeira vista iludisse. Algures foi construída uma réplica da Praça Verde de Tripoli à moda de Holywood, invadida por figurantes pagos aos berros e tiros para o ar. As imagens correram mundo através de muitas outras televisões, tornaram-se notícia antes de a notícia verdadeiramente acontecer, uma notícia montada e fabricada, ao que dizem, nos arredores de Doha, a capital do Qatar.
A propaganda foi, como a História nos conta, uma das mais eficazes e implacáveis armas do nazismo. É também um instrumento feroz do terrorismo, assuma ele as vestes que assumir.
PS: Deixo-vos dois links de internet ilustrativos destas histórias que correm mundo, pelo menos enquanto não asfixiarem também a rede http://www.beinternacional.eu/pt/the-week/2152-bbc-exibiu-qfestejos-em-tripoliq-filmados-na-india
http://www.beinternacional.eu/pt/mil-palavras/2133-tripoli-ou-qatar-veja-as-diferencas

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