Opinião

Uma História virtual

José Goulão |

A bandeira da Palestina soberana flutua desde 13 de Dezembro na praça da entrada da UNESCO, em Paris, em companhia das restantes 194 dos países membros da organização.

A bandeira da Palestina soberana flutua desde 13 de Dezembro na praça da entrada da UNESCO, em Paris, em companhia das restantes 194 dos países membros da organização.
Para estar ali, naquele lugar que é indiscutivelmente seu se ainda considerarmos o direito internacional como fonte de legalidade, a bandeira da Palestina custou muito sangue, muitas vidas de inocentes, mais de quatro milhões de seres humanos a errar pelo mundo, privados das suas raízes mais essenciais, as da terra onde nasceram.
Aquela bandeira movida pelos ares de Paris deveria estar igualmente hasteada na entrada do palácio de vidro das Nações Unidas, em Nova Iorque, mas a chamada comunidade internacional, que põe e tira governos, que desmancha e fabrica regimes em função da arbitrariedade da relação de forças dos seus interesses, recusa-se a dar esse passo. Comunidade Internacional? Digamos que é quem nela manda em última instância, manipulando quando lhe convém o mecanismo mais anti-democrático que existe, o direito de veto, mas, quer queiramos quer não, vem a dar no mesmo.
Para os palestinianos, sejam os dos territórios sob tutela efectiva israelo-norte-americana, sejam os da diáspora, aquela bandeira no átrio da UNESCO é apenas o fim de mais uma etapa de uma maratona de obstáculos que continua. E continua fazendo correr mais e mais sangue, vitimando quotidianamente mais inocentes, espoliando mais e mais cidadãos dos seus direitos, dos seus bens, da sua essência como seres humanos que a Declaração Universal considera “nascidos livres e iguais”.
Para esses cidadãos, contudo, a inerência do acto de virem ao mundo é a de já terem nascido aprisionados e escravos. O Estado de Israel atacou a fundo o hastear dessa bandeira e deu-se ao desplante, porque tudo lhe é permitido, de qualificar a integração da Palestina na UNESCO como um caso de “ficção científica” para um “Estado virtual”. Na era da diplomacia cibernética, em que os Estados Unidos criaram uma “embaixada virtual” no Irão, isso não deveria ser um caso de pasmar mas temos de ter em conta os caprichos do país mais trauliteiro e ao mesmo tempo mais mimado da tal comunidade internacional. Um país que nem no futebol corre o risco de se encontrar com o dito Estado virtual que ocupa porque os senhores da FIFA criaram essa aberração de o incluírem na Europa enquanto todos os parceiros da região competem na Ásia. Caprichosa Geografia esta. Mas se, como alegam os dirigentes de Israel, a Palestina é um Estado virtual – tão virtual, no fim de contas, como a aplicação do direito a internacional a este caso – vejamos então como tal acontece.
No dia em que a bandeira Palestiniana foi içada na UNESCO, 20 organizações não governamentais, entre elas algumas israelitas, a agências da ONU revelaram que o ano de 2011 bateu todos os mais recentes recordes de violência de colonos, demolição de casas de palestinianos, destruição de poços, árvores e culturas, expulsão de famílias para o exílio e autorização para construção de novas de casas em colonatos dos territórios ocupados da Palestina, incluindo o sector Leste de Jerusalém. Isto é, se o Estado da Palestina é “virtual” é porque Israel assim o faz e a chamada comunidade internacional deixa. A ocupação continua e assim se vai consolidando a anexação gradual dos territórios reconhecidos mundialmente como os do Estado Palestiniano. Ao mesmo tempo, uma entidade verdadeiramente virtual como o Quarteto, que existe para fingir que existe um “processo de paz”, reuniu-se para incitar as partes a voltar à mesa das negociações. Ou seja, sob a presidência de uma figura desqualificada como Anthony Blair, esse Quarteto nascido morto acha que assuntos determinantes como o da colonização, através do qual Israel torpedeia qualquer solução possível, são meros caprichos de uns fulanos esquisitos de Ramalá.
Como o leitor já percebeu, neste processo da Palestina a própria História não sabe às quantas anda, enjoada pelo anacronismo, pelo faz de conta, pelo desrespeito dos direitos das pessoas e de um povo mártir – tudo sinónimos de arbitrariedade e abuso de poder.
Aquela bandeira no átrio da UNESCO corresponde a um país real realmente ocupado, a pessoas reais realmente escravizadas, a um exemplo dramático de uma ordem mundial que desmente a cada passo o que apregoa a todo o momento e que transforma, esse sim, o direito internacional num instrumento virtual.

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