Opinião

Tudo isto tem de acabar!

Osvaldo Gonçalves

A transumância é, há muito tempo, um modo de vida para as populações do Sul de Angola.

Além dos rios, o povo costuma fazer chimpacas para armazenar o líquido que cai do céu quando chove e se torna de facto precioso nas épocas de estiagem.
Em tempos idos, durante uma Feira Nacional da Agropecuária, ouvimos no Lubango uma conversa entre pecuaristas sobre essa questão e um deles queixava-se que o gado “gentio” lhe estava a causar problemas, porque não era vacinado e, ao misturar-se com os animais da sua fazenda, passava-lhes doenças.
Havia também o problema do roubo de cabeças, que aconteciam não apenas por constituir, ao que dizem, costume dos povos daquelas terras, mas porque os criadores tradicionais estavam cada vez melhor armados: qualquer pastor tinha uma AK-47 e, se já eram bons no manuseio do arco e da flecha, imaginem com uma arma automática!
Outros, mais experientes, defendiam a criação, dentro das fazendas, de corredores para a passagem das caravanas e de “mangas”, onde os bichos poderiam beber, tomar banho e ser vacinados, mas, para isso, precisam de ajuda das autoridades, em fármacos, veterinários e de algum suporte financeiro para pagar ao pessoal envolvido nessa actividade.
Os anos foram passando e a malta parece que se esqueceu de fazer chimpacas – dizem que faltam tractores e mão-de-obra (?!). Já se falava naquela altura de indivíduos endinheirados, nomeadamente empresários, governantes e até militares, que, sem possuírem qualquer conhecimento da lida da terra, dos bois e dos costumes locais, se punham a ocupar largas extensões de terreno e a construírem vedações sobre as antigas rotas de circulação do gado e das pessoas, impedindo, assim, o acesso dos criadores tradicionais às pastagens e aos locais de abeberamento.
Com o tempo e a impunidade reinante durante todos esses anos, surgiram verdadeiros latifúndios, que limitam o acesso das populações à terra e à água. O desrespeito pelos povos autóctones atinge níveis nunca antes registados.
O povo e os fazendeiros locais não são tidos nem achados quando se procuram respostas para os diversos problemas locais, como é agora o da seca prolongada. Mas é preciso que se diga que o agravamento da seca é resultado de tudo o que é mau que se regista no Sul do País: a ocupação desenfreada de terrenos, a desmatação, a caça furtiva, enfim o deixa-andar que ali se foi instalando.
Alguns comentam que, nos tempos da guerra, a grande maioria dos novos latifundiários jamais pensaria em instalar-se naquela região. Com a Paz, abriram-se os caminhos, procedeu-se à desminagem com altos custos para o Governo e ONGs. Abriram-se as portas e agora é o povo que tem de saltar pela janela ou morrer à fome.
A seca que se regista nas províncias do Cunene, Huíla, Bié e Namibe afecta cerca de 2,3 milhões de pessoas, segundo as Nações Unidas. A ONU refere que, em consequência das alterações climáticas, há pessoas a morrer diariamente em Angola pelo que é imperativa a “mobilização acelerada de recursos”.
Em Maio deste ano, o Presidente da República, João Lourenço, admitiu em Ondjiva, capital do Cunene, a necessidade de reforçar o Programa de Emergência de Combate à Seca no Cunene para acautelar o agravamento do fenómeno.
Infelizmente, a situação de emergência tem gerado uma onda de aproveitamento por parte de elementos mal-intencionados, tanto políticos, como gente de negócios, que tentam aliciar os criadores a venderem os seus animais a baixos preços, e indivíduos e organizações que, com o pretexto de recolherem ajuda humanitária, aproveitam-se da boa vontade das pessoas em ajudar.
Está na hora de as autoridades porem mão na situação, de deixar de olhar para o aquecimento global como única causa da situação. Os relatos que chegam do Sul do País são graves demais para que continuemos a assobiar para o lado: pessoas a morrer de fome, assassinatos, tráfico de crianças e de órgãos humanos...
Tudo isto tem de acabar!

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