Opinião

Uma guerra difícil e longa

Luciano Rocha

Esta guerra sem tréguas à corrupção, nepotismo e impunidade, invariavelmente ligados, é a maior aposta que travamos, cientes que estamos quase todos que dos êxitos dela dependem nosso presente e futuro, como Estado soberano.


Esta guerra de muitas batalhas, na qual todos os angolanos, dignos desse nome, estão obrigados a participar, independentemente de ideologias políticas que perfilhem, diferenças partidárias que os separem, locais de nascimento, sexo, credos religiosos para quem os tem, igualmente agnósticos e ateus, é longa, requer, entre outros atributos, paciência, pois entre tantas artimanhas, o inimigo há-de querer continuar a servir-se de armas que maneja habilmente, como impostura e calúnia, além dos milhões surripiados ao erário para pagar a advogados, comprar “testas de ferro” , arregimentar “consciências de aluguer”, além de, ainda, dispor de refúgios paradisíacos.
Esta guerra, capacitemo-nos, é longa por ser contra a ladroagem de “colarinho seboso” pelas manchas dos crimes que cometeu e continua a cometer enquanto conseguir usar, em proveito próprio, dinheiro que lhe não pertence, nem que seja para tomar um café, quanto mais para o desbaratar em festins acintosamente obscenos, vestimentas mandadas fazer por encomenda em alfaiatarias e boutiques da alta costura europeia, jóias únicas, palacetes, vivendas, iates, aviões, tudo o que mentes recheadas de novo-riquismo pode carregar.
Esta guerra, é bom não esquecer, é contra a gatunagem de “colarinho seboso”, capaz de tudo e mais alguma coisa para nos ludibriar. Atenção, pois, às artimanhas dela, como a que começou a ser usada, com recurso a câmaras de ressonância, segundo a qual parte do dinheiro tirado à má fila ao erário serviu, também para criar postos de trabalho! Desaforo de bandido não tem, mesmo, limites.
Então se o pilha-galinhas entrar em capoeira alheia, levar de lá uma galinha, depois noutra, aliviá-la de um galo, levar ambos para casa, escondê-los no quarto, a seguir, assaltar o armazém de uma mercearia, sair de lá com um saco de milho às costas para alimentar o casal de aves, começar a vender ovos, a criar pintos, alargar o negócio, prosperar, empregar parentes e amigos, despertar a atenção da Polícia, pela vida de gastos que passou a levar, confessar o primeiro roubo, devolver o bicho já velho e incapaz de parir, é mandado embora, com a garantia de não se lhe divulgar o nome? Ou leva uma surra, confessa o que fez e não fez, é atirado para uma cela colectiva a abarrotar de larápios de meia-tijela, como ele, onde pode ficar esquecido sabe-se lá quanto tempo, mesmo que jure, a pés juntos, arrependimento sincero e chore lágrimas de verdade, não de crocodilo, mas das dores no corpo moído pela sova?
E a identidade completa há-de figurar em relatório semanal da corporação que o prendeu, lido para “os senhores jornalistas”, com quase solenidade e pormenores sobre “a apurada investigação que culminou na detenção de perigoso meliante que se dedicava, pela calada da noite, a assaltar casas de honestos cidadãos, de onde roubava o que podia para levar uma vida folgada sem trabalhar”. O documento vai também sublinhar que o “produto das acções criminosas foi apreendido”, “o suspeito aguarda nos calabouços enquanto não é presente em tribunal”, “a cidade está mais segura” e rematar com veemente apelo à colaboração de todos para que denunciem os elementos nocivos à sociedade, principalmente agora que é urgente diversificar a economia!
Esta guerra, não com os pilha-galinhas, mas com os gatunos de “colarinho seboso”, é longa porque os antagonistas são perigosos, não por pertencerem a casta privilegiada, intocável, como já foi, mas pela desumanidade que os caracteriza, insensíveis ao sofrimento que causaram e causam. Marimbondo é assim, não tem coração, nem desculpa.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia