Opinião

A terra prometida de dois jovens em Portugal

Muanamosi Matumona| Portugal

Quando faltam poucos dias para regressar a casa, cumprindo, rigorosamente, a minha agenda pastoral, recebo na paróquia onde me encontro neste preciso momento, ainda na Cidade Invicta (Porto), dois jovens (Jorge e Carla) que pretendem casar-se catolicamente dentro de 72 horas.

Quando faltam poucos dias para regressar a casa, cumprindo, rigorosamente, a minha agenda pastoral, recebo na paróquia onde me encontro neste preciso momento, ainda na Cidade Invicta (Porto), dois jovens (Jorge e Carla) que pretendem casar-se catolicamente dentro de 72 horas.
No âmbito da continuação de contactos que se deve estabelecer previamente entre os noivos e o ministro de Deus, coloco uma pergunta oportuna para saber se a crise económica internacional que está a afectar também as famílias portuguesas não é um impedimento para se assumirem compromissos matrimoniais que exigem uma certa estabilidade social e económica.
O jovem, muito sereno e optimista, responde sem hesitação, confirmando que a crise é uma realidade que nenhum português pode ignorar, pois está a mudar, pela negativa, a vida de muitas famílias.
Continuando no mesmo flanco, Jorge adianta ainda que a nível colectivo a situação é crítica, mas, a nível individual, muitos vão se safando, como ele próprio: licenciado em gestão de empresas, tendo um bom emprego que lhe permite ganhar um pouco acima do normal para viver sem sobressalto, reconhece que a vida vai muito bem do seu lado. Ela, a Carla, licenciada em química alimentar, também com um posto de trabalho digno e muito rentável, faz com que a vida seja uma maravilha para ambos. Os jovens sentem-se preparados para enfrentar a crise no país que os viu nascer.
Tendo em conta a “febre” que atinge muitos portugueses, cujo remédio ideal é a ida para Angola no sentido de trabalhar e ganhar mais ou menos bem, interrogo os noivos se não se sentem atraídos pelo mesmo “bicho” - África, mais concretamente Angola. Os dois respondem em uníssono: “Não!”. Esta pode ser vista como uma posição estranha, quando a maioria não se cansa em exaltar o actual “El Dorado” dos “tugas”. Os jovens revelam a sua leitura sobre este fenómeno: consideram-no como algo “exagerado”, que também pode ser compreendido no âmbito do saudosismo e da ansiedade que muitos portugueses alimentam em relação a Angola.
Para Jorge e Carla, o que se verifica agora é uma “loucura”, pois não compreendem como um povo que esteve em África durante séculos, e numa posição de colonizador, se sente agora atraído por um país que abandonou em 1975, quando este passou completamente sob o controlo dos próprios nativos, com o processo da independência.
Perante a realidade actual, os dois jovens acham que a “fuga” para Angola não é solução ideal para se safar da crise internacional. Aliás, ainda segundo os meus interlocutores, os seus conterrâneos não devem esquecer que vão para um país independente que tem as suas leis, as suas prioridades e as suas necessidades. Pelo que os filhos da terra devem estar em primeiro lugar. Em tudo. O medo deste casal é a facilidade com a qual os seus conterrâneos podem exibir uma arrogância e uma ganância invejáveis, quando o seu estatuto de hoje nada tem a ver com o do tempo colonial. Paralelamente, os jovens acham que Angola não deixa de ser um bom país para o turismo, já que é muito mais interessante visitar este país com estatuto de turista e não de um cidadão que deixa a sua terra para ir procurar a vida em África.
Dias depois desta conversa amena e franca, Jorge e Carla celebram, na igreja, o seu matrimónio cristão segundo o rito católico. Familiares, amigos, colegas, participam, alegre e piedosamente, na cerimónia religiosa, que foi seguida de uma festa muito linda, numa quinta de referência da área. Convidado para festa, aceito.
Noto que tudo é organizado de uma forma impecável, e o ambiente é muito familiar. A festa apresenta tudo de bom: muitos deliciosos pratos e bebidas que agradam aos convidados que permanecem num ambiente onde todos se sentem à vontade. E nem sequer se sente os efeitos que a crise está a provocar.
A festa atinge o seu ponto máximo, e naquele momento próprio para “mujimbo”, o esposo dirige-se cortesmente à minha pessoa e, muito convencido, diz-me em voz muito baixa: “Chefe: veja bem o que estamos a viver aqui e agora: acha que seria justo deixar tudo isto para ir trabalhar em Angola? Tudo o que está aqui, na sua totalidade, não confirma que Portugal é a nossa terra prometida?”. Sinceramente, fiquei a meditar sobre o posicionamento deste casal, cujas perguntas continuam ainda sem resposta da minha parte…

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia