Opinião

A outra face da emigração para Angola

Muanamosi Matumona|

Depois do maravilhoso convívio no café do nosso compatriota Jejé, na cidade do Porto, decidi pegar o avião para visitar, mais uma vez, a famosa e rica Alemanha, com o principal intuito de rever os meus familiares que lá vivem, e de uma forma geral os muitos angolanos que residem nas zonas de Frankfurt e de Guissen.

Depois do maravilhoso convívio no café do nosso compatriota Jejé, na cidade do Porto, decidi pegar o avião para visitar, mais uma vez, a famosa e rica Alemanha, com o principal intuito de rever os meus familiares que lá vivem, e de uma forma geral os muitos angolanos que residem nas zonas de Frankfurt e de Guissen.
Notei muitos e grandes sinais de alegria e de esperanças em relação ao seu país de origem. Esta foi uma grande diferença que notei neles, depois da minha última passagem por aquelas paragens. A última foi há precisamente seis anos, ou seja apenas um ano depois da assinatura do Protocolo do Luena, que permitiu ao povo angolano respirar o ar da verdadeira paz.
Desta vez, o tom de conversa mudou, e o conteúdo não foge muito do fenómeno que temos vindo a meditar nesta mesma rubrica: a “invasão” dos estrangeiros ao nosso país.
É claro que, ao abordar esta questão, a referência centra-se muito mais nos portugueses que diariamente enchem os serviços consulares em Portugal e os voos regulares da TAAG e da TAP, com o único objectivo de pisar o solo angolano para alcançar determinados fins, também pessoais. Esta é uma versão sobejamente comentada.
Porém, na Alemanha, foi possível notar a outra face da moeda em relação ao mesmo assunto: a entrada dos estrangeiros. Mas, nesta perspectiva, a partir da República Democrática do Congo. Os “utentes” desta via não precisam de pedir vistos para entrar em Angola. Aliás, muitos deles nem sequer sabem onde funcionam os nossos consulados. Não precisam destes pormenores porque preferem encurtar tudo, ignorando até o que é oficial: nem vistos nem bilhetes de passagem são necessários. Em causa está a imigração ilegal!
De facto, durante a minha estadia por aquelas paragens, especialmente em Frankfurt e em Guissen, pude apreender muito da “sociologia africana”, a partir das conversas informais que consegui manter com muitos congoleses, e através de “filmes” que apresentam várias séries de peças teatrais produzidas principalmente pelos congoleses e nigerianos. São material muito simples, mas bem preparado, à maneira africana, e que retratam o verdadeiro quadro sociocultural do mundo negro-africano, transmitindo mensagens fantásticas que são lições válidas para a vida prática, permitindo entender muitos factos estranhos que acontecem no universo negro: traições, roubos, feitiçaria, burlas, manipulação através da religião (protagonizada pelos novos falsos pastores que se aproveitam da fragilidade dos fiéis), mentiras, e outros mistérios.
Todavia, entre vários episódios, chamaram mais a minha atenção os relacionados com os projectos dos congoleses que entram em Angola, principalmente, a partir das fronteiras terrestres do Uíje e Mbanza Congo.
Mas o destino é Luanda, cidade que eles acham ser um “terreno fértil” para conseguir as condições necessárias para melhorar a sua vida. Chegados ao destino, metem-se sobretudo em negócios, mesmo nada dignos, pois o mais importante é encontrar aquilo de bom que não conseguiram na RDC. Antes de viajar, aprendem algumas noções básicas da língua portuguesa e práticas relacionadas com a vivência dos valores culturais angolanos. Uma vez chegados a Angola, não assumem qualquer receio ou vergonha para alinhar em tratos como vender água (potável como não), trocar dólares em várias esquinas da cidade, e aderir ao conhecido processo chamado de “candongueiro”. É assim que procuram ganhar a vida, e às vezes no meio de humilhações, mesmo sendo africanos.
Muitos deles, depois de encontrar poucos ou muitos meios, emigram para a Europa, realizando uma trajectória inversa dos outros que apostam no continente africano, através do nosso país. E em Angola ninguém tem medo nem respeito por eles, pelo que são tratados de outra forma, muito diferente da maneira como são recebidos os portugueses, que utilizam a via normal de vistos e de viagens aéreas.
Estes, ao contrário dos congoleses, são muito bem acolhidos. Têm dignidade e poder económico a merecer a devida consideração. Frequentam os restaurantes e outros locais mais luxuosos ou não da capital.
Evidentemente, reconhecendo estas duas facetas, torna-se muito fácil saber como está actualmente o dossier da “invasão” dos estrangeiros ao nosso país, quando o mundo está a provar os efeitos negativos de uma crise económica que está a precisar de uma resposta urgente, pronta e eficaz.

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