Opinião

As ambições dos jovens portugueses

Muanamosi Matumona

Numa noite de sexta-feira, com um calor característico do Verão, no Porto, aceito o convite de um grupo de jovens finalistas universitários portugueses, que brevemente deverão ser atirados para o mercado de emprego, onde a sorte, o azar, as amizades, as influências, a competência, as preferências, desempenham um papel decisivo na definição do futuro de muitos.

Numa noite de sexta-feira, com um calor característico do Verão, no Porto, aceito o convite de um grupo de jovens finalistas universitários portugueses, que brevemente deverão ser atirados para o mercado de emprego, onde a sorte, o azar, as amizades, as influências, a competência, as preferências, desempenham um papel decisivo na definição do futuro de muitos.
 Pior ainda é que os diplomas e títulos académicos nem sempre são “luz verde” para as profissões e locais de trabalho aspirados por muitos. Daí as frustrações que têm marcado muitos estudantes universitários que dia e noite se empenham para um futuro melhor.
Independentemente destes factos e factores, não hesito em atender ao pedido dos já referidos jovens, que me parece como uma oportunidade de ouro para reviver os velhos tempos, quando, nesta mesma cidade, como jovem estudante universitário, me apetecia desfrutar tudo de bom que a vida estudantil oferecia, em termos de convívios com amigos e colegas de vários cursos, raças, culturas e nacionalidades, especialmente nos “week-end”.
Respondendo ao convite, sinto, mais uma vez, saudades dos anos 80 e 90, quando o Porto era uma cidade muito movimentada, sobretudo no centro, mas que não estava habituada com os negros que vinham principalmente dos países africanos de língua oficial portuguesa.
Chegado ao local combinado, um dos restaurantes modestos, mas muito procurado pelos estudantes, encontro o grupo bem disposto para me receber. Desconheço completamente o motivo do convite, mas prevejo que seja um simples acto para ajudar moralmente um cidadão que há quase 20 anos levava a mesma vida: estudantil. São nada menos nada mais que nove jovens portugueses. Quatro moças e cinco moços, todos eles bem aprumados, com uma idade média de 20 anos. São de várias especialidades: economia, engenharia civil, sociologia, pedagogia, música, educação física, direito, informática e jornalismo. Saboreando ainda os suculentos aperitivos, começo por “desabafar”, frisando que a cidade do Porto mudou muito. Regista aspectos positivos e negativos.
Nos pontos positivos, destaco o bem-estar, o metro, os novos edifícios e as ruas. Do lado negativo, em termos de vida académica, assinalo o “isolamento” para o qual o centro é atirado, pois quase todas as faculdades são transferidas para as zonas periféricas que se tornam agora em grandes cidades universitárias, e as artérias que eram mais movimentadas perdem o brilho. E fruto do bem-estar, os estudantes preferem agora ocupar os apartamentos nos arredores, e as residências universitárias, onde os estudantes viviam num clima familiar, perdem o seu impacto. Daí, o “isolamento” da cidade.
Depois dos aperitivos, “atacamos” os pratos principais, e já quase na parte final do convívio, depois de apreciar o bom vinho e a cerveja fresquinha, a rapaziada ganha coragem, e começa com a apresentação: um por um. A seguir, revelam com entusiasmo, e sem receio, as suas ambições, resumindo tudo num só ideal, e com este tom: “Queremos ir trabalhar para Angola, com o intuito de vencer mais ou menos o que ganharíamos aqui, pois academicamente estamos bem preparados para os novos e grandes desafios. Ajude-nos a atingir os horizontes que nos agradam!”.
Fico espantado com um discurso proferido com realismo, serenidade, humildade, convicção e, sobretudo, esperanças. Tomando mais um gole de vinho branco, o jovem prossegue a sua exposição: “Sabemos que muitos dos nossos conterrâneos já foram para Angola trabalhar, e estão a ganhar muito bem. Estão muito felizes. A nós ninguém abre a porta. Não somos conhecidos, mas somos jovens com ambições bem calculadas. Gostamos de Angola e do seu bom povo…”.
Fico de novo impressionado com a frontalidade do grupo. Penso e meço as palavras para responder a esta proposta cuja realização não depende absolutamente de mim. Reconhecendo as minhas limitações, e que não são poucas, acho por bem aconselhar os jovens a prosseguirem os seus estudos superiores a fim de ganharem mais maturidade, em todos os sentidos, tentando ao mesmo tempo a sorte de encontrar bom emprego no seu próprio país, a fim de trabalharem perto dos amigos e familiares, pois ainda têm muitas hipóteses para achar projectos mais aliciantes no futuro. Mesmo em Portugal. Apesar de tudo, a minha resposta não foi suficiente para convencê-los… Paciência!

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