Opinião

O plano do professor catedrático

Muanamosi Matumona| Portugal

Antes de mais, gostaria de pedir as minhas sinceras desculpas aos respeitados leitores assíduos desta rubrica pela falta de resistência a uma tentação que, todavia, considero normalíssima, especialmente nesta altura em que o mundo continua a procurar uma saída para a crise económica que está a afectar tudo e todos, estando muitos a olhar para Angola como a “menina bonita” que poderá ser uma boa alternativa para remediar a situação. Será mesmo assim? Muitos peritos insistem nesta tese.

Antes de mais, gostaria de pedir as minhas sinceras desculpas aos respeitados leitores assíduos desta rubrica pela falta de resistência a uma tentação que, todavia, considero normalíssima, especialmente nesta altura em que o mundo continua a procurar uma saída para a crise económica que está a afectar tudo e todos, estando muitos a olhar para Angola como a “menina bonita” que poderá ser uma boa alternativa para remediar a situação. Será mesmo assim? Muitos peritos insistem nesta tese.
Mas prefiro reservar um espaço adequado para justificar o porquê das desculpas e de que tipo de tentação se trata: reconhecendo que corro o risco de ser muito repetitivo, podendo cansar rapidamente o público, reconheço, ao mesmo tempo, que tenho motivos fortes para bater de novo na mesma tecla, abordando um assunto que se tornou numa habitual “conversa de café”: a ida assustadora dos nossos “irmãos” portugueses para Angola. Desta vez, a coincidência foi demais, no âmbito dos “pedidos” que tenho recebido de alguns “tugas” que tencionam fixar-se no país.
Sempre na bela e acolhedora cidade do Porto, procurando um lugar para repousar, depois de um dia ameno, livre das tarefas e pressões pastorais, profissionais e académicas, achei por bem “visitar” o café de um cidadão angolano de raça branca, mas que me parece ser muito simpático e muito flexível na abordagem de questões relacionadas com o actual quadro sociopolítico angolano. Chama-se Jojó, um pacato camarada nascido no Gulungo Alto. Nunca foi meu amigo, mas conheço-o de uma forma diagonal. Por isso, decidi ir tomar um cafezinho no seu pequeno, mas grande, estabelecimento.
Encontrei um ambiente muito fraterno, pois lá estiveram são-tomenses, guineenses de Bissau, portugueses de vários pontos e um angolano natural do Uíje - o Dr. Armindo Queza, um grande militante assumido do MPLA.
Por coincidência, um dos presentes, um professor catedrático, especialista em agronomia, colocado na Universidade de Vila Real, percebendo da minha identidade e do meu pobre estatuto social, apresentou, apressada e cortesmente, revelando que já perdeu o sono por não ter conseguido ainda visto para seguir para Angola, a fim de trabalhar na província do Uíje, mais concretamente no município do Negage, onde se pensa instalar uma faculdade de agronomia. E falou de uma possível geminação das cidades de Santarém e Vila Real com aquela cidade angolana, para uma cooperação sã e eficaz, no sentido de uma conclusão feliz do já referido projecto.
Há, certamente, justificação para este ideal. Santarém e Vila Real possuem institutos universitários de agronomia com reconhecido prestígio tanto a nível de Portugal como a nível da Europa. E seria muito fácil dar um apoio à faculdade de agronomia do Negage em potência.
O professor via em mim uma pessoa ideal para levar avante o seu plano. E avançou ainda: a sua intenção não é trabalhar em Angola para ganhar muito dinheiro como muitos preferem. O seu ideal, além da vida académica, é também colaborar para a concretização de pequenos projectos que possam ser úteis para as grandes e pequenas comunidades do município do Negage. O mesmo visa criar condições para o desenvolvimento da agricultura, que possa permitir aos habitantes locais ter os seus meios próprios para o seu sustento. Trata-se de aproveitar ao máximo dos benefícios dos métodos a ser aplicados, que são muito simples, mas práticos e produtivos.
O homem já analisou muitos dados sobre a economia e a geografia da cidade do Negage, e ninguém lhe tira o entusiasmo de um dia ver com os seus próprios olhos este município, sito, justamente, na minha província. Que coincidência! Enquanto batíamos “papo”, Jojó seleccionava a boa música congolesa, que convidava os clientes a dançar. Rochereau, Franco, Sam Manguana, eram os artistas preferidos. Indagado sobre a escolha, garantiu: a música da RDC faz-lhe recuar no tempo e no espaço, recordando-se dos revolucionários que, nos anos 60-70, depois de mais uma missão perigosa, regressavam do Congo Brazzaville e do Congo Kinshasa com informações secretas, certas e “fresquinhas” sobre as actividades do MPLA e dos seus “inimigos” no exterior. Entre muitas coisas, os mesmos traziam jornais, revistas, discos, cigarros e bebidas de Kinshasa.

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