Preconceitos com a comida e tripas à moda do Porto

Luis Alberto Ferreira |
6 de Março, 2015

Com tanta politiquice a recomendar aos gregos que se rendam e entreguem as “chaves” ao “politicamente correcto”,o valor da comida e do trabalho foi cedendo à pressão de mundos estranhos.

Vinha sendo assim até que, em dias recentes, o Syriza, o elefante grego da picardia e do pistolim contra a austeridade, resolveu almoçar em Portugal. A iniciativa de ir à Invicta e, sem olhar sequer a ementa, pedir tripas à moda do Porto, pareceu-me um arrebatamento “politicamente temerário”. Em consonância, talvez, com um discurso táctico que não é intraduzível, quer para os políticos, quer para os cozinheiros, quer para a ideologia da “sopa dos pobres”, quer para os próceres ibéricos de governança apostados em demonstrar que comer é estar “acima das possibilidades”. Numa altura em que o castelo de São Jorge da “recuperação” e dos 4.625 mortos “pelo Inverno”é assediado pela binocular “vigilância a­pertada” dos seus sitiadores: os que mandam no FMI e no BCE. A coincidir com a postura daqueles que minimizam a reconquista, pelos gregos, do prato de sopa, do aquecimento e da luz eléctrica na sua “alegre casinha tão modesta como eu”.Viver melhor pode vir a ser uma insídia.
Os gregos do Syriza leram “O Horror Económico”, da ensaísta francesa Viviane Forrester. Nos anos de 1990, “O Horror Económico” tornou-se, em França, o maior êxito editorial. Agora que se confundem a “vigilância apertada” e o falhanço dos ultras subservientes, “O Horror Económico” é ocatecismo dos capitães do Syriza.
Este partido político da Gréciaestá convencido de que é dever da comida assumir, no debate agora em curso na Europa, as suas responsabilidades históricas. Porque a comida é, desde a Idade da Pedra, inseparável da política. 
A comida, desde sempre, tem olhos, sente e pensa. Se exigirem à comida que se defina, do ponto de vista ideológico, “ela” define-se. A comida foi quem mais aprendeu com a “Teoria do Capital Humano”, trabalhada de forma magistral pelo economista norte-americano Theodore Schultz. Nobel da Economia em 1979, Shultz encarou a comida como um instrumento não cooptável pela sofisticação leviana das elites.
Sofisticação que deporta para o campo do abstracto o que de verdade a comida representa: alimento, nutrição. Um outro grande vulto do saber, o professor espanhol JesúsPadillaGálvez, matemático, historiador, filósofo, resume numa frase de enorme singeleza o lado humano, prático, da simbiose trabalho-comida: “O homem digno ganha o seu pão antes de levá-lo à boca”. Pedagogo da dignidade, PadillaGálvez referiu-se, em tempos, a uma fase de transição económica na América do Sul, nestes termos: “Os chilenos que recuperaram o velho costume de viver”.
Nos “salões” da sofisticação da cozinha prevalece um elitismo estético que desaloja do léxico o termo “comida”. Que menospreza a relação entre aagricultura e a indústria ou o comércio. Schultz viu, como o Syriza viu também na Grécia, como tudo estremece quando a agricultura é negligenciada. Na Argentinagovernada por Perón, na China dos anos de 1950, na antiga URSS, na Índia, os desmazelos com a agricultura causaram rasgões de vulto nos domínios do comércio e da indústria. Seguiu-se o choque brutal e desigual dos excedentes, por um lado, e da escassez, por outro. Com os Estados Unidos, na época, apoiados na “Lei Pública 480”, a “cederem” aos países débeis os seus excedentes de trigo… em troca de milhões e milhões de dólares. O ensaio de Viviane Forrester (“O Horror Económico”) é pródigo em indicadores da estreita relação entre a política e a “perversidade” com que o “emprego” é desviante para uma ideia límpida da função e do valor do “trabalho”.
Neste particular, não é despiciendo propor uma reavaliação das actuais circunstâncias de Espanha e de Portugal, a braços, ambos, com a missão impossível de provar que milhões de desempregados é a melhor forma de demonstrar que o emprego é mais importante que o trabalho. Tento fazer-me entender.  Há países europeus repletos de empregos mas com baixos níveis de produtividade, com milhares de pessoas que não trabalham de facto mas garantem a institucionalização omnívora do emprego como um “golpe do baú”.
 “O Horror Económico” diz-nos que grandes parcelas do Ocidente continuam a viver“no meio de um logro magistral, de um mundo desaparecido que nos recusamos a reconhecer como tal e que políticas artificiais pretendem perpetuar”. Chegados a 2015, o “velho costume de viver” paira, medroso, sobre uma Península Ibérica em difidência política e moral com os seus cidadãos. A argumentação contra a Grécia está cheia de subgéneros da ética e da verdade histórica. Algumas acusações representam mesmo malfetrias contra o direito à inteligência.
A dívida portuguesa é superior à da Grécia. A Espanha choca-nos pelo número de pobres, de desempregados, de pessoas defenestradas de milhares de casas que ficam ao abandono. O maior dos seus escritores vivos, Javier Marías, dá-nos a conhecer uma abismalpaisagem de atribulações.
Ao mesmo tempo que aceitava um resgate dos seus bancos no valor de 100 mil milhões de euros, a Espanha reduzia em 63 por cento os fundos destinados a preservar a actividade mineira até 2018. Portugal, com milhões de desempregados, de jovens “fugitivos”, de muitíssimosdoentes e idosos, conheceu um período, 25 anos posteriores ao “25 de Abril”, durante os quais recebeu de Bruxelascinco milhões diários. Países como estes não podem adamar-se com esquisitices insensatas: a lastragem da sua própria realidade basta para invalidar-lhes a presunção e o preconceito. Juncker conhece os factos e não tartamudeia.
Em mais uma das suas metáforas, o Syriza enviou agora a Portugal um seu dirigente, YiannisBournous, que lançou âncora na Cidade Invicta, de matriz espartana e “braços feitos ao trabalho”.
O grego Yiiannisnão só se deliciou com as tripas à moda do Porto como quis conhecer-lhes a “origem histórica”. Soube então que em 1415 o Infante D. Henrique, “O Navegador”, querendo abastecer as naus para a conquista de Ceuta, arrebanhou e salgou toda a carne disponível na cidade, para o povo ficando apenas as tripas. As gentes do Porto não são de fácil desconcerto. Às tripas juntaram o feijão branco. Evitou-se um surto de fome. As invencíveis tripas à moda do Porto estão para durar. O Porto, também. E o Syriza... “faz das tripas coração”.

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