Política

África deve promover crescimento inclusivo

João Dias, Edna Dala e César Esteves

O continente africano deve olhar para si mesmo e promover um desenvolvimento inclusivo que não marginalize pessoas, regiões ou países e seja capaz de incentivar a criação de emprego e proporcionar o bem-estar do povo, declarou em Luanda, o embaixador Vicente Muanda.

Alguns participantes da palestra mostraram-se cépticos quanto ao sucesso da Agenda 2063
Fotografia: Kindala Manuel | Edições Novembro

O diplomata que foi prelector da palestra “A África e os desafios do seu desenvolvimento”,  dirigida a oficiais generais, almirantes e superiores do Estado Maior General das FAA, na Escola Superior de Guerra, falou das iniciativas que o continente precisa para sair do estado em se que  se encontra.
É preciso mudar de paradigma na gestão das questões sociais e económicas de África, promover, com intensidade, o intercâmbio entre países do continente  desenvolver a agricultura e incentivar a criação de fundos especializados para o seu desenvolvimento, disse.
O diplomata de carreira afirmou que o continente africano está a dar alguns sinais, apesar de tímidos, e a prová-lo está o facto de, em termos de esperança de vida, por exemplo, ter conhecido alguma evolução. Se em 1963 a expectativa de vida era de 45 anos, em 2016 foi de 59 anos para homens e 63 para mulheres.
Para o diplomata, é fundamental, nesta fase, que os dirigentes africanos comecem a focar-se, cada vez mais, naquilo que é a boa gestão dos recursos naturais e que a sua negociação beneficie sempre o povo.  Vicente Muanda lembrou que os líderes devem verter as atenções para a necessidade de um renascimento africano e da transformação da mentalidade para que até 2063, África resolva parte considerável dos problemas que enfrenta há largos anos.
Quanto à Agenda 2063, referiu que ela dá numa perspectiva muito distante. “Até lá, muitos de nós já não estarão vivos, mas temos de continuar a dar o nosso testemunho”, disse.
Explicou que entre as aspirações da Agenda 2063 consta a integração política e económica do continente, baseada nos ideais do panafricanismo e na visão de renascença africana e pela boa governação e respeito pelo Estado de Direito e Democrático, justiça e legalidade.
Na sua opinião, as aspirações devem voltar-se para o respeito dos direitos da mulher e do jovem e que seja capaz de influenciar e criar fortes parcerias, bem como a promoção de qualidade na saúde e educação, criação de infra-estruturas e transportes, tecnologia e desenvolvimento das tecnologias de informação. O chefe do Estado Maior General  adjunto das Forças Armadas Angolanas(FAA), Geraldo Abreu Muhengo, disse que “África é um continente  abençoado” e ao mesmo tempo “amaldiçoado”, por causa dos seus recursos naturais.
Acrescentou que o embaixador Vicente Muanda forneceu importantes ferramentas para uma melhor compreensão dos problemas do continente e das vias que os líderes devem desempenhar para melhorar o índice de desenvolvimento  humano de acordo com as metas do milénio.

Cepticismo
Alguns participantes mostraram-se cépticos quanto à Agenda 2063, por entenderem que a África tem problemas imediatos e de curto prazo que carecem de resolução, para evitar que exista o êxodo de cidadãos africanos para Europa, como se assiste nos últimos meses. Outros receiam que o continente não saia do marasmo em que se encontra se os seus líderes não mudarem de mentalidade e não se colocarem ao serviço do povo.
  Um participante chegou a falar do paradoxo que o continente tem vivido ao longo das últimas décadas e lembrou que “se antes os africanos eram levados à chicote em grandes navios para a Europa, hoje o cenário segue quase o mesmo ritmo em moldes diferentes. Hoje, é o próprio africano que, em busca de melhores condições de vida, se põe no mediterrâneo para ir à Europa”.

Feira das embaixadas
O líder da Igreja Tocoísta, Afonso Nunes, disse que África continua a ser, “um continente preso, pedinte  e dependente que insiste em viver outro tipo de colonização”.
Em declarações à imprensa, no primeiro dia da segunda edição da feira internacional das embaixadas, Afonso Nunes lembrou que a igreja também sofreu os horrores da colonização.
O bispo reforçou que a igreja tem a sua forma de se expressar através do  evangelho e libertação para iluminar os políticos e as organizações africanas naquilo que são as suas falhas, indicando, deste modo,  soluções para que seja uma, organização executiva com decisões exequíveis sem estar dependente de orientações extra continente.
Afonso Nunes, que falou sobre os desafios da evangelização em África, disse que os problemas sociais e económicos graves que o continente vive merecem atenção especial dos seus líderes, porque, no seu entender, o continente pode crescer e ultrapassar outras regiões ou ainda estar em pé de igualdade se os africanos estiverem unidos.
A feira, que decorreu até ontem no Museu de História Militar, contou com uma exposição de vários serviços e abordou temas como “Os objectivos do desenvolvimento sustentável”.

Preservação de valores
Questões relativas ao continente foram igualmente abordadas ontem numa  conferência sobre “O papel da juventude na preservação da paz e conservação dos valores culturais africanos”.
O historiador e docente universitário Boubacar Keita foi o orador principal. O professor maliano afirmou que a experiência colectiva ou percurso histórico dos últimos 55 anos do continente africano mostra, claramente, que a herança colonial global tem pesado e continua a pesar, constituindo, deste modo, os novos desafios para um desenvolvimento idealizado por todos.
Boubacar Keita, que se debruçou sobre o tema “Os desafios para África: um olhar retrospectivo sobre o discurso de Kwame Nkrumah em 24 de Maio de 1973, em Addis Abeba”, disse que todos os estratos políticos e intelectuais que participaram na luta pela independência dos seus territórios não têm sabido ultrapassá-los.
O historiador considerou que o único caminho para se sair do actual quadro é a promoção de debates de vária ordem, que deve congregar todos, sobretudo os jovens, a fim de permitir que se reflicta mais, de maneira profunda, sobre tudo o que foi feito e dito para se avançar com segurança, rumo ao desenvolvimento tão idealizado e desejado.
A 25 de Maio  de 1963, em Addis Abeba, Etiópia, 33 Chefes de Estado africanos criaram a Organização de Unidade Africana(OUA), que viria a ser transformada em União Africana em 2002. Posteriomente, o 25 de Maio passou a ser o Dia de África.

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