Política

Angola e EUA: ligados por um passado comum

Francisco José da Cruz

Num dia como hoje, há vinte e seis anos, os Estados Unidos da América (EUA) anunciaram formalmente a normalização das relações diplomáticas com Angola, depois de quase duas décadas de tensão política e de um ambiente de confrontação, embora indirecta e por actores interpostos, que tinham caracterizado a sua vivência bilateral durante a fase derradeira da Guerra Fria.

Fotografia: DR

Washington assinalava assim o início de uma etapa importante e necessária para um novo começo entre as duas nações, afinal ligadas por um passado histórico comum, que deve ser lembrado às novas gerações como um legado de Angola ao Novo Mundo e servir de base para relações bilaterais assentes no respeito mútuo e numa cooperação dinâmica e mutuamente vantajosa.
Tudo começou em 1607, quando um grupo de 108 ingleses criou o primeiro colonato permanente em território americano, em Jamestown, nas margens da baía de Chesapeake - o maior estuário nos EUA em que desembocam mais de 150 rios e cercado pelos actuais estados americanos de Maryland e Virgínia. Anos depois, chegavam os primeiros africanos que, com o seu saber e experiência, ajudaram a promover a agricultura, nomeadamente do tabaco, e a desenvolver esta colónia.
Pesquisas recentes confirmam que estes eram escravos originários dos reinos do Ndongo e do Kongo, territórios que actualmente constituem parte de Angola e que, em 1619, estavam a bordo do navio negreiro português São João Baptista, com destino ao Porto de Vera Cruz, no México, quando este foi atacado por corsários ingleses. Acabaram por ser transferidos para os navios Treasurer e WhiteLion, que navegavam com bandeira holandesa, rumo a Jamestown, onde alguns dos escravos foram trocados por mantimentos. Começava assim a presença angolana nos EUA.
Animados por princípios de liberdade e dignidade e de uma tradição de independência que ainda hoje não se limita simplesmente à defesa dos seus interesses ou do seu território, os angolanos muito cedo passaram a desempenhar um papel activo no processo de emancipação do Homem Negro em terras americanas. Factos documentados provam que eles estiveram na vanguarda de um dos primeiros conhecidos actos de rebelião organizados contra a escravatura dentro das fronteiras actuais dos EUA.

Tradição de Luta pela Liberdade

A 9 de Setembro de 1739, um grupo de 20 negros da Carolina do Sul, liderados por Jemmy, um escravo angolano até já letrado, iniciou uma marcha perto do Rio Stono, vinte milhas a sudoeste da cidade de Charleston, agitando um estandarte onde estava escrita a palavra “Liberdade”, a mesma que gritavam em uníssono.
Na refrega que se seguiu, 20 brancos e 44 negros morreram antes deste levantamento ter sido abafado. Inspiradas pela rebelião de Stono, como então ficou conhecida, surgiram outras sublevações de escravos, particularmente na Geórgia, em 1740, seguida de uma no ano seguinte, mais uma vez na Carolina do Sul.
Nos anos 1980, nos arredores da cidade de Saint Augustine, na Florida, foram descobertos vestígios do Forte Mose, um símbolo de liberdade para os escravos fugidos da Carolina do Sul e da Geórgia. Há muito que a Florida espanhola representava um problema para os estados e territórios americanos do Sul que tinham institucionalizado a escravatura.
As autoridades espanholas assumiam uma postura de protecção em relação aos escravos que fugissem em busca de liberdade, oferecendo-lhes abrigo, desde que estes se convertessem ao catolicismo romano. Para eles, era uma forma de enfraquecer a posição do seu vizinho americano do Norte no Novo Mundo e ganhar “aliados” para a defesa das suas possessões na Florida.
A natureza dinâmica desta aspiração profunda de liberdade, primeiro representada pelo Forte Mose, nos anos 1700, e, em seguida, pelo Forte Negro, no princípio dos anos 1800, criou um verdadeiro dilema aos proprietários de escravos, que consideravam a mera existência dessas comunidades como sendo um estímulo e um incentivo para escravos fugirem para a Florida espanhola.
Uma vez estes fortes destruídos, as autoridades americanas aperceberam-se de uma nova ameaça ao longo da costa ocidental da Florida. Tratava-se de Angola, uma comunidade agrícola criada por 300 antigos escravos angolanos, por volta de 1812, ao longo do Rio Manatee, que os arqueólogos consideram estender-se de Tampa ao Condado de Sarasota.

O Sonho da Emancipação do Homem Negro

Angola acabou por ser associada à realização do sonho da liberdade para os escravos foragidos. Este povoado foi crescendo, primeiro, com a chegada de cerca de 40 sobreviventes do Forte Negro, quando este foi destruído em 1816, a mando do general americano Andrew Jackson.
Em 1818, uma nova vaga de refugiados chegou a Angola. Jackson atravessara novamente a fronteira na Florida, com 4000 soldados, numa campanha para capturar e devolver escravos foragidos aos seus donos. A expedição estava na sua segunda semana, quando entrou em choque com cerca de 400 guerreiros negros nas margens do Rio Suwannee, um dos principais cursos de água do sul da Geórgia e do norte da Florida.
Contra todas as expectativas e previsões militares, estes conseguiram resistir durante um dia, dando assim tempo para que as suas famílias atravessassem o rio, antes do grupo fugir na direcção Sul, para Angola.
Em 1821, Angola foi destruída, durante uma incursão de índios, comandada por William McIntosh, um aliado de Andrew Jackson. As casas foram incendiadas e cerca de 300 negros capturados como escravos. Porém, muitos dos seus residentes conseguiram escapar e, num acto de coragem e de determinação, encetaram uma longa e penosa jornada, usando simplesmente as suas habilidades de sobrevivência, até alcançarem a ilha de Andros, nas Bahamas, onde os seus descendentes ainda hoje vivem. Outros fugiram em direcção ao Rio de Paz, para se juntarem a um povoado de negros livres, perto do Lago Hancock, conhecido como Minatti - um nome que possivelmente se referia ao Rio Manatee, onde o povoado de Angola fora estabelecido.
Na mente dos escravos, Angola tornara-se o símbolo da liberdade, de emancipação do Homem Negro e de resistência a todas as formas de subjugação. Assim, o nome passou a ser dado às comunidades criadas pelos escravos foragidos, muitas delas lideradas ou inspiradas por angolanos.
Desse legado histórico, hoje, a cidade mais célebre denominada Angola está localizada no Estado de Louisiana, a 50 milhas da cidade de Baton Rouge. Nesta antiga plantação de mais de sete mil hectares, cujos trabalhadores eram na sua maioria naturais de Angola, em 1835 foi construída a Penitenciária Estadual de Louisiana, o maior estabelecimento prisional dos EUA, onde 85 por cento dos presos cumpre penas de prisão perpétua.
Porém, existem ainda outras cidades com o nome de Angola, menos famosas, mas entretanto célebres na sua dimensão histórica, particularmente nos estados de Nova Iorque, Delaware e Indiana, comunidades nascidas graças à presença de escravos angolanos e da sua adopção de princípios sobre a liberdade e a igualdade, numa América ainda em fase de formação.

Evoluir para uma parceria cada vez mais estratégica

As novas gerações de angolanos ainda hoje continuam a manter este profundo sentimento de missão, manifestando-o através do seu activismo na luta pela dignificação dos povos africanos. Retratou-o ainda em factos da história recente da libertação e emancipação de África, como a sua vitória contra a colonização portuguesa, em 1975, o seu apoio incondicional à luta pela independência do Zimbabwe, em 1980, e da Namíbia, em 1990, e os seus esforços políticos e diplomáticos para o fim do regime do apartheid na África do Sul e a resultante ascensão da maioria negra ao poder, em 1994.
Ao fazerem parte da génese dos EUA - lado a lado aos ingleses que criaram o colonato de Jamestown dos Índios Pawhattan, habitantes originários desta região de Virgínia - os angolanos, ao preservarem as suas tradições africanas de defesa de valores tais como a independência, o respeito mútuo e a solidariedade, contribuíram para esta sociedade americana contemporânea, que abraça culturas, respeita civilizações, irmana e dignifica cada vez mais uma humanidade mergulhada na senda inexorável da globalização.
Unidos por este passado histórico comum, Angola e os EUA podem continuar a evoluir para uma parceria cada vez mais estratégica, enfrentando desafios e explorando oportunidades com vantagens recíprocas, numa relação de complementaridade de interesses mais estreita entre dois povos que aprenderam a respeitar-se e a entender-se no ardor da Guerra Fria.

Tempo

Multimédia