Política

Angola perdeu uma referência do nacionalismo

Filomeno Manaças, Kumuenho da Rosa e Bernardino Manje |

O nome de Lúcio Lara, ou o Comandante Tchiweka, cognome de guerra adoptado durante a luta de guerrilha contra o colonialismo português em homenagem ao seu avô materno, está associado aos momentos altos e também aos mais difíceis da história de Angola e do MPLA, em particular, disse o político Roberto de Almeida.

Companheiros de armas e classe política destacam o percurso de Lúcio Lara
Fotografia: Francisco Bernardo

Reagindo à notícia da morte do ex-deputado, fundador e antigo Secretário-Geral do MPLA, o nacionalista Lúcio Rodrigo Leite Barreto de Lara, na noite de sábado, 27, por doença, aos 86 anos, o número dois do partido maioritário lembrou do dia da chegada a Luanda da primeira delegação do MPLA, após os acordos de Alvor, chefiada precisamente pelo Comandante Tchiweka. “A imagem que retenho dele é a do combatente que chega a Luanda em 8 de Novembro de 1974 que ainda na carlinga do avião segurou no megafone para exortar os milhares de militantes que acorreram ao aeroporto para que se afastassem e fosse aberta a porta do avião”, recordou.
Para Roberto de Almeida a chegada da comitiva do MPLA com Lúcio Lara à testa seria o “primeiro grande referendo” sobre qual o movimento que detinha, na verdade, as rédeas da luta de libertação nacional em Angola. “Este momento (apenas) foi ultrapassado em 4 de Fevereiro de 1975, com a chegada do camarada Presidente António Agostinho Neto”, recordou o político, comparando a moldura humana que invadiu a pista para ver de perto os “irmãos cambutas”, como eram chamados os guerrilheiros do MPLA.
O vice-presidente do MPLA considerou Lúcio Lara como um dos “principais pilares do nacionalismo angolano”, que inclusive abandonou os estudos e a família para dedicar-se inteiramente à causa da libertação de Angola.“O camarada Lúcio Lara está na base do nacionalismo angolano e toda a sua vida foi dedicada à luta pela Independência, na direcção do Movimento Popular de Libertação de Angola. Foi um dirigente dedicado que se sacrificou bastante, renunciando a muita coisa para se entregar totalmente à luta pela Independência”, frisou.
Outro facto destacado pelo vice-presidente do MPLA é a ligação entre Lúcio Lara e o Presidente António Agostinho Neto. Acompanhou-o em praticamente todos os momentos da sua vida, além de contribuir juntamente com outros dirigentes das então colónias portuguesas em África, como Amílcar Cabral, Eduardo Mondlane, Samora Machel, Pedro Pires e outros, numa solidariedade e camaradagem que acabou por resultar nas independências de Angola, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. “São algumas das lembranças que tenho sobre Lúcio Lara, cuja morte lamentamos profundamente”, disse Roberto de Almeida, que endereçou condolências a todos os familiares do malogrado, em especial aos seus filhos, Paulo, Vanda e Bruno, e a todos os militantes do MPLA.
Julião Mateus Paulo “Dino Matrosse”, actual Secretário-Geral do MPLA, considerou Lúcio Lara um dos ícones na luta contra o regime colonial português, com lugar de destaque na génese da história do MPLA, e que deixa um importante e valioso legado para as actuais e futuras gerações de angolanos. Dino Matrosse também realçou o facto de Lúcio Lara ter estado sempre ao lado do primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto.
 “O camarada Lúcio Lara chegou a abandonar os estudos por causa da luta em prol dos angolano. Com a sua morte, ele deixa um legado: a continuação da luta em prol do desenvolvimento do país e pela unidade de todo o povo angolano”, disse. O deputado André Mendes de Carvalho, do partido CASA-CE, também lamentou a morte de Lúcio Lara, embora, como disse, o facto de ter estado durante longo período doente em estado grave era de prever que falecesse a qualquer altura. O também deputado afirmou que Lúcio Lara é um exemplo a seguir, pois dedicou todo o seu vigor em prol de Angola. “Não fui subordinado directo mas um inferior hierárquico dele. Ficamos com uma sensação de vazio pelo exemplo que deixou”, disse o político, para quem Lúcio Lara, apesar de fazer falta com a sua morte, “merece este descanso” por tudo o que fez pelo país.
André Mendes de Carvalho lembrou que o seu pai, o igualmente nacionalista e escritor Agostinho Mendes de Carvalho (Uanhenga Xitu) - também falecido -, foi um grande amigo de Lúcio Lara, ao ponto de frequentar a casa daquele. “É uma grande perda mas fica o seu exemplo. Vamos tentar seguir o seu exemplo”, disse André Mendes de Carvalho, que endereçou mensagens de condolências à família enlutada.
O presidente do PRS, Eduardo Kuangana, afirmou que o país acaba de perder mais um grande quadro e aproveitou a ocasião para endereçar uma mensagem de condolências à família enlutada e ao Bureau Político do MPLA.
O político defendeu que os jovens devem seguir o legado de Lúcio Lara, pois a geração de Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi, signatários dos Acordos de Alvor, está a desaparecer. “É uma perda, não só para o MPLA, mas para Angola e África”, defendeu Kuangana, ao lembrar que Lúcio Lara, ao lado dos líderes dos três movimentos de libertação nacional, foi um dos precursores da Independência Nacional.
A mesma opinião é partilhada pelo porta-voz da presidência da FNLA, Laiz Eduardo, para quem a morte de Lúcio Lara fecha o “ciclo dos nacionalistas da primeira hora”. Lara, sublinhou, “foi um dos que desbravaram o caminho” que conduziu o país à Independência Nacional. Tal como Kuangana, o dirigente da FNLA considera que a morte de Lúcio Lara não é apenas uma perda para o MPLA, mas para toda a Nação angolana. “Lúcio Lara dedicou toda a sua vida ao país. Por isso, o país todo deve render homenagem a este ilustre filho de Angola”, defendeu Laiz Eduardo, para quem a juventude angolana deve seguir o seu exemplo.

Regresso a Luanda

Presente nos momentos mais importantes da História de Angola, além de ter dado posse ao Presidente António Agostinho Neto e, depois, ao Presidente José Eduardo dos Santos, Lúcio Lara chefiou a  primeira delegação do MPLA que a 8 de Novembro de 1974, foi entusiasticamente recebida pela população, no aeroporto de Luanda, então designado de Belas. Transportada por um avião da Zambia Airways, a delegação era ansiosamente aguardada por uma multidão de gente.
O Jornal de Angola traz hoje a primeira página do seu antecessor, A província de Angola, edição de 9 de Novembro de 1974, e excertos da reportagem a propósito desse acontecimento que paralisou Luanda, com a mobilização de uma multidão que só seria superada com a chegada de Agostinho Neto, em Fevereiro de 1975, e comícios posteriores do MPLA:
“... compara-se com cerca de 100.000 pessoas que enchiam por completo o aeroporto, a aerogare, o largo fronteiriço, as zonas adjacentes, as zonas de segurança, , a placa. Gente que realmente vibrava, que realmente aparecia ali porque ia ver a delegação do MPLA, chegada de Lusaka e Brazzaville, longamente esperada, longamente ansiada. (...) A chegada do avião estava prevista para as 10 horas. Mas houve atraso e o “BAC III” da “Zambia Airways” acabaria por chegar só a uma da tarde. Mas ninguém arredou pé. Antes pelo contrário, cada hora que passava trazia mais gente para o aeroporto.  (...) O “BAC III” fez-se à pista, aterrou, rolou, entrou na placa. Mas ainda os grandes reactores não tinham parado de silvar e já a multidão, perdendo por completo toda e qualquer possibilidade de controle, rompia as barreiras e irrompia pela placa. Em dois minutos, o avião estava semi-submerso por populares e a escada, como um cacho de gente. Impossível sair. Gritos constantes MPLA!, MPLA!...”
E continuando: “Em vão se pedia às pessoas que se afastassem, em vão se procurava fazer cordões capazes de afastar um pouco a multidão. A porta do avião assomavam caras conhecidas e os gritos, as chamadas, multiplicavam-se. Rocha! Mingas! Monstro! Lara! - ouvia-se gritar”
“De repente, Lúcio Lara - que tinha estado à janela da cabine de pilotagem tentando (em vão...) com um megafone, afastar as pessoas das proximidades mais directas do acesso à aeronave -, arrancou pela escada, meteu-se a meio da imensa mole de gente, tentando “arrastar” consigo os populares, para deixar o caminho livre à restante delegação. Também essa tentativa foi gorada. Era gente a mais...”
“Lúcio Lara foi levado em ombros, como um toureiro num fim de tarde épico... E a multidão continuou a pé firme.”  Com Lúcio Lara vieram nesse voo Lopo do Nascimento, Carlos Rocha Dilolwa, Ludi Kissassunda, Saidi Mingas, Manuel Tuta “Batalha de Angola”, Jacob Caetano “Monstro Imortal”, Pedro Maria Tonha “Pedalé”, Henrique Santos “Onambwe”, Valódia, Bento Ribeiro “Kabulo”, Pascoal Luvualo, Ambrósio Lukoki, Pedro Gomes, Maria Mambo Café, Sílvia de Almeida, Ruth Neto, Luzia Inglês, entre outros.

Uma vida em prol da liberdade 


Lúcio Lara, de seu nome completo Lúcio Rodrigo Leite Barreto de Lara, ou Tchiweka, nasceu no ano de 1929 no Huambo (Nova Lisboa), de pai português e de mãe angolana natural do Bailundo e neta dum soba do Libolo (hoje situado no Cuanza Sul).
No próximo dia 29 de Abril completaria 87 anos. Fez os estudos primários e parte dos secundários no Huambo e terminou o liceu no Lubango (Sá da Bandeira). Em 1947 seguiu para Portugal para os estudos universitários (Ciências Físico-Químicas). Foi ali que se embrenhou na luta nacionalista, juntamente com Agostinho Neto, Mário de Andrade, Amílcar Cabral, e outras figuras  nacionalistas das colónias  portuguesas, numa dinâmica que iria desembocar na formação de organizações  comuns, nomeadamente o MAC (Movimento Anti-Colonial) em 1957, a FRAIN (Frente Revolucionária  Africana  para a Independência Nacional ) em 1960 e a CONCP (Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias  Portuguesas) em 1961. Com Mário de Andrade, Viriato da Cruz, Eduardo Macedo dos Santos, Hugo de Menezes, Matias Miguéis participou da estruturação do MPLA em 1960, e na decisão da passagem à luta armada. Durante a Luta de Libertação Nacional, ocupou lugares de responsabilidade político-militar nas Frentes Norte e Leste, tendo pertencido às estruturas directivas do MPLA desde o primeiro Comité Director de 1960, as direcções seguintes, o Bureau Político e Comité Central desde 1974 (Conferência Inter-regional de Militantes), até à sua paulatina retirada, que culminou com a saída definitiva da vida política, em 2003.
Foi também Primeiro Secretário da Assembleia do Povo a partir de 1981 e deputado eleito para a Assembleia Nacional em 1982. A nível internacional foi presidente da Agência Pan-Africana de Informação (PANA), em 1978. Toda a vida política de Lúcio Lara se confunde com a história e os meandros da trajectória do MPLA, de Movimento de Libertação a Partido no Poder, e numa longa relação de amizade, fidelidade política e estreita colaboração com Agostinho Neto, tendo sido considerado nos círculos políticos  nacionais e internacionais  como o braço  direito do Primeiro  Presidente de Angola até ao falecimento  deste, em 1979.
Como nacionalista africano, Lúcio Lara lidou com figuras emblemáticas do Pan-Africanismo, assim como da intelectualidade africana, entre eles Kwame NKrumah, Franz Fanon, George Padmore, Felix-Roland Moumié, Ruben Um Nyobe, Cheikh Anta Diop, Sembéne Ousmane e outros.
Nesse longo e muitas vezes difícil percurso, sempre contou, no espírito dos princípios que ele defendia, com a firmeza política e moral de Ruth Lara, sua esposa, e companheira de todas as lutas, falecida em 2000. Figura emblemática e bem conhecida da luta de Libertação Nacional em Angola, Lúcio Lara constituiu o símbolo de uma espécie, já rara, de militantismo e de entrega a um ideal político, numa vida inteira dedicada à luta por uma Angola e uma África livres e dignas.

In “Itinerário do MPLA através de documentos de Lúcio Lara/ Um amplo movimento...”

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