Política

As memórias do general Farrusco

Artur Queiroz e Pereira Dinis|

O general Joaquim António Lopes Farrusco comandava as tropas que na Cahama sofreram o primeiro embate das forças invasoras sul-africanas, na fase de preparação da “Operação Protéa”.

General Farrusco enfrentou os primeiros ataques das forças racistas de Pretória
Fotografia: Kindala Manuel

Depois de preparar uma brigada na Matala, partiu para o teatro de operações onde rendeu um regimento de tanques cubanos que se foram colocar mais a Norte do famoso “Paralelo 13”. As tropas invasoras fizeram vários ensaios, na faixa do Caiundo, entre 1979 e 1981,para ocupar o Sul de Angola numa profundidade superior a 120 quilómetros.
“O inimigo antes da “Operação Protéa” fez treinos parciais e gerais no nosso território. Em 1979 atacaram Ondjiva, Cuamato e Xangongo com forças terrestres e aéreas”, recorda o general Farrusco. Na época, o comandante Luís Neto Evadi estava à frente das tropas. Os primeiros confrontos aconteceram no Cuamato e na Môngua. A sétima companhia do terceiro Batalhão de Infantaria Motorizada combateu com bravura os invasores. Logo a seguir Ondjiva foi cercada.
Nesta fase a II Brigada do general Farrusco já estava bem implantada na Cahama. À frente da Região Militar estava o comandante Foguetão, o comandante Kianda era o chefe do estado-maior e o chefe das operações era o comandante Mau-Mau. Foi acelerada a constituição de forças capazes de enfrentar os poderosos invasores.
“Quando se efectivou a invasão, em 1981, os sul-africanos já tinham feito todos os preparativos no terreno. Mas não se sentiam muito seguros porque no quarto ou no quinto dia da invasão eles partiram a ponte sobre o rio Cunene em Xangongo”, recorda o general Farrusco.
O primeiro “golpe aéreo” contra Angola foi desferido a 23 de Agosto contra Ondjiva, Cahama, Xangongo e Viriambundo. Com essas acções pretenderam aniquilar todos os equipamentos de vigilância aérea e tiveram êxito”, disse o general Farrusco.

Sangue em defesa da Pátria

Quando passam 33 anos sobre o início da agressão da África do Sul a Angola, com a “Operação Protéa”, o general Farrusco lembra aos jovens angolanos que a paz e a reconciliação nacional que hoje vivemos teve elevados custos. Na guerra, Angola perdeu alguns dos seus melhores filhos: “Em Xangongo, perdemos praticamente toda a 19ª Brigada e da 11ª sobreviveram 500 homens, foram perdas muito pesadas”.
A 11ª Brigada foi cercada em Ondjiva, estava debilitada e não havia qualquer possibilidade de socorrê-la. Os aviões sul-africanos começaram a bombardear de madrugada. Depois avançou uma divisão completa. Tiveram que abandonar as posições para não serem todos aniquilados pelo inimigo: “se não abandonassem a posição não tinham como sair dali vivos”, lembra o general Farrusco.
A resistência foi organizada na Cahama. A partir desse momento, os invasores começaram a sentir que a “Operação Protéa” não era um simples passeio a Angola: “eles fizeram várias investidas por terra contra a Cahama, apoiados pela aviação. Nada conseguiram. Pelo contrário, deixaram no terreno um militar das forças especiais que não conseguiram retirar do teatro de operações com um helicóptero. Ele tombou num combate entre Chiudo e Chipelongo O corpo foi depois para o Lubango e  mais tarde para Luanda, porque serviu de prova à invasão da África do Sul, que Pretória sempre negava. A partir daí já não podiam continuar a desmentir a realidade.”

Fronteira na Cahama

Em 1985, a fronteira de Angola estava na linha da Cahama. Os invasores ocuparam todo o território até à fronteira do Cunene. O governo provincial ficou instalado provisoriamente na Matala (Castanheira de Pera). O governador era Ari da Costa, hoje general das FAA. Nesse ano foi aberta a pista de aviação militar da Catumbela e a da Cahama.
“Eu saí da Cahama na fase dos ataques de preparação da grande operação. Fui rendido pelo general Nzumbi. Foi com ele que chegou o tempo de chumbo.A Cahama era atacada todos os dias e a toda a hora. Mas os combatentes resistiram heroicamente”, afirmou o general Farrusco.
O antigo comandante das tropas na Cahama recorda que “naquela época, o Presidente da República falava sempre na invasão dos sul-africanos a Angola. Em todos os seus discursos ele denunciava essa agressão. E Pretória desmentia. Mas depois de acumularmos tantas provas, eles nunca mais desmentiram”.
Foi quando os Media internacionais lançaram uma campanha de desinformação, apresentando a invasão e ocupação de Angola como uma guerra civil. A verdade é que nunca houve guerra civil. No tempo da guerra colonial, as tropas portuguesas também tinham os Flechas, os Grupos Especiais (GE) e as Tropas Especiais (TE). Mas isso não mudou o cariz da guerra colonial. A guerra contra o regime de apartheid também teve ao lado das forças sul-africanas unidades especiais constituídas por angolanos.
Mas esse facto não altera a  realidade: Os angolanos fizeram uma guerra pela integridade territorial e a soberania nacional, não uma guerra civil. O Comandante em Chefe, José Eduardo dos Santos, deixou sempre isso bem claro durante as ofensivas diplomáticas que desencadeou na qualidade de  Chefe de Estado.

Repetição da Operação Savana


O general Farrusco vê a “Operação Protéa”, desencadeada a 23 de Agosto de 1981, como a repetição da “Operação Savana”, que teve lugar em 1975 e visou ocupar Angola até ao Rio Cuanza, para impor a UNITA no poder. Criado o bantustão com Savimbi à frente, os racistas de Pretória podiam depois avançar com um plano mais ambicioso. Em princípio, as tropas mercenárias e as unidades do exército do Zaire de Mobutu, apoiadas por assessores da CIA, iam tomar Luanda antes do 11 de Novembro de 1975. Uma unidade de choque comandada pelo coronel comando Santos e Castro, português, abriu caminho até ao Morro da Cal. Mas nunca conseguiu chegar a Kifangondo.
 Na “Operação Savana”, além de Savimbi e das tropas sul-africanas, também vinha uma unidade especial do Exército de Libertação de Portugal (ELP), organização que estava apostada em derrubar o poder saído da Revolução do 25 de Abril, em Lisboa. A UNITA estava reforçada pelos restos do regime colonial-fascista, uma ligação que vinha de longe.

A Batalha final


“Em 1975, os sul-africanos foram derrotados e em 1985, ao perderem o domínio no ar, foram novamente derrotados. Aviões que estavam na base da Cahama fizeram combates aéreos com os aviões sul-africanos. Ao perderem o domínio do ar tiveram que recuar para lá de Xangongo. As FAPLA lançaram uma contra ofensiva demolidora que terminou com a Força Aérea Nacional a bombardear as posições dos racistas no Calueque.
“Os sul-africanos foram estrondosamente derrotados na famosa Batalha da Chipa, cerca de 60 quilómetros a sul da Cahama. Perderam muitos homens. O general Nzumbi é que viveu esses acontecimentos”, disse o general Farrusco. O general Nzumbi, que derrotou os sul-africanos na Cahama, também tem muito que contar.

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