Política

Criança negra angolana foi usada como “cartaz” na manifestação partidária em Portugal

Um criança angolana negra, a segurar um cartaz que a identifica como adoptada e com pais do partido português Chega, foi fotografada numa manifestação convocada pelo político André Ventura, para desmentir o racismo em Portugal.

Juristas avaliam a exposição da criança como crime de maus-tratos e a mãe admite que foi erro
Fotografia: DR


A iniciativa mereceu reacções de desagrado de diferentes sectores da sociedade portuguesa. A Comissão de Protecção da Criança, por exemplo, recebeu “mais de uma dezena de queixas”, enquanto juristas avaliam a situação como crime de maus-tratos. A mãe da menor admite que “foi um erro”.

De acordo com o jornal “Diário de Notícias”, a foto foi tirada no último domingo, na manifestação do partido Chega, convocada pelo seu líder demissionário, André Ventura, para “responder” à concentração ocorrida, na sexta-feira anterior, em homenagem a Bruno Candé (o actor assassinado a 25 de Julho em Moscavide) e correu as redes sociais, com centenas, talvez milhares, de partilhas: uma menina muito pequena, negra, envergando um cartaz amarelo onde se lê “sou adoptada, angolana, meus pais são Chega” e com uma bandeira do partido na mão.
“Repugnante”, “abjecto”, “obsceno”. Os adjectivos usados no Facebook e no Twitter, para qualificar a imagem, exprimem indignação e revolta. Houve até quem invocasse, a propósito, os zoos humanos do início do século XX, em que às multidões europeias - incluindo portuguesas - eram exibidas, em cercados, pessoas trazidas de África como exemplares dos “indígenas” das colónias.

Houve quem participasse o caso à Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ), que, na quinta-feira, admitiu ao jornal ter recebido “mais de uma dezena de comunicações a dar conta da situação, através das redes sociais e por mail”. A CNPDPCJ acrescentou ter encaminhado “a situação para a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, territorialmente competente para verificação e demais termos necessários”, por ser a esta que incumbe a verificação da situação e os pressupostos da intervenção.

A mãe

Como mãe da menor apresenta-se uma mulher, de 44 anos, empresária, que diz ter adoptado a menina de quatro anos “há dois, legalmente, em Angola”. Assumiu estar muito assustada com as reacções à foto e com medo das consequências.
“Fiz o maior disparate da minha vida, foi um acto irreflectido. Estou a ser acusada no Facebook de ser má mãe, mas fiz isto para mostrar que podemos amar-nos uns aos outros. Ela não é o meu troféu, é o amor da minha vida. Tenho uma filha de cor e quis mostrar às pessoas que não somos racistas”, disse. “O erro foi ter dito que era adoptada e de Angola - devia ter escrito ‘o amor não tem cor'. Foi tudo mau. Se tivesse posto 'o amor não tem cor', nada disto acontecia. Tenho hoje consciência de que não devia ter feito aquilo, nunca. Não tenho como me justificar. Algumas pessoas que me conhecem estão incrédulas com o que fiz”.

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