Política

Durão Barroso lembra o percurso para a paz em Angola

Miguel Gomes

Durão Barroso, antigo líder do Partido Social Democrata (PSD) relembrou, em entrevista à TPA, que parte dos militantes do seu partido fazia uma grande pressão para alinhar com a UNITA, mas que a política governo-a-governo, definida em Portugal, no fim da década de 1980, defendia a não tomada de posição político-partidária ou ideológica.

Fotografia: Santos Pedro | Edições Novembro

O antigo primeiro-ministro português e ex-presidente da Comissão Europeia deixou Luanda quinta-feira, depois de participar num encontro sobre a história do MPLA. Figura central enquanto mediador dos Acordos de Bicesse, assinados em 1991, Durão Barroso lembrou à TPA, em entrevista na quarta-feira, alguns dos momentos históricos que viveu por dentro, agora em tempo de paz. 

“Sentia que havia vontade das duas partes, para chegar a um acordo, mas também muita desconfiança. Foram centenas de horas de negociações. Confesso que não havia grande comunhão, mas ambas as partes queriam a unidade de Angola”, frisou o diplomata português, ao recordar os dias que antecederam as negociações de Bicesse.
Barroso considerou que aquele foi o momento em que sentiu maior intensidade no papel de mediador. “É sempre bom voltar a Luanda”, disse.
“Vivi momentos de grande tensão e desconfiança. Numa perspectiva histórica, Angola passou por períodos muito difíceis: sem um mínimo de segurança, sem podermos circular pelas restantes províncias. A presente situação de unidade e reconciliação é muito positiva - encontro uma Luanda em paz, muito maior, onde se verifica um crescimento demográfico impressionante, o que é um grande desafio para um país extremamente jovem”, considerou Durão Barroso.
O antigo líder do Partido Social Democrata (PSD) relembrou que parte dos militantes do seu partido fazia uma grande pressão para alinhar com a UNITA, mas que a política governo-a-governo, definida em Portugal, no fim da década de 1980, defendia a não tomada de posição político-partidária ou ideológica.
A grande clivagem ideológica entre o PSD (um partido ocidental de matriz democrata-cristão) e o MPLA (originalmente marxista-leninista que depois adoptou formalmente o socialismo-democrático) descambou numa proximidade indesmentível, como confirmou Durão Barroso à TPA.
“O MPLA e o PSD sempre tiveram relações excelentes. As relações são boas, de confiança”, disse, apesar de sublinhar as diferenças. “Ideologicamente, não estamos na mesma posição. No entanto, o MPLA evoluiu no sentido de se tornar num partido de quadros, que vai além das fronteiras ideológicas tradicionais”.
Sobre a relação com a UNITA e Savimbi, afirmou não ter receio de encontrar Jonas Savimbi. E recusou comparar José Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi, apesar de reconhecer a desconfiança sobre o antigo líder da UNITA
“É difícil comparar as duas figuras, porque é muito cedo para fazer um balanço completo. José Eduardo dos Santos é uma pessoa racional e muito prudente, que foi sempre muito sincero no processo de paz, com quem foi possível criar uma relação de grande confiança”, descreveu.
Jonas Savimbi “era um líder do tipo carismático, um homem inteligente, um animal político com grande vontade de poder”, mas que nos “suscitava menos confiança”.
“Sempre dissemos que havia uma condição essencial para o sucesso do processo de paz: a boa-fé e o comprometimento. Do exterior, pode ser possível criar condições para o diálogo, mas a paz não se pode impor a partir de fora. Havia um risco de voltar à guerra e Savimbi recusava-se a admitir sequer a hipótese de perder as eleições. Quando se vai para uma eleição deve se ir preparado para perder”, contou Durão Barroso.
Com a tragédia do regresso aos combates, o actual presidente do banco Goldman Sachs International sentiu-se “triste e revoltado ao mesmo tempo”, mas considera que são memórias do passado. “Preferia olhar mais para o futuro”, disse.

“Visão acima dos Partidos, nas relações externas”

 Durão Barroso defende que, “nas Relações Externas”, deve existir uma “visão acima dos partidos”, porque os partidos passam e os países ficam. “As relações entre os povos devem estar acima das mudanças partidárias, que são normais em democracia”, defendeu na entrevista. 

Sobre as relações oficiais entre Angola e Portugal, reconhece alguns problemas, devido às investigações ao antigo PCA da Sonangol e vice-presidente da República, Manuel Vicente.
“Neste momento, estão boas; houve alguns problemas, mas tem de haver sabedoria dos dois lados. Um simples problema não pode prejudicar o conjunto da relação e no futuro devemos evitar que os problemas se transformem em questões diplomáticas, o que não é útil nem para Angola ou para Portugal”, defendeu.
Curiosamente, afirmou não ter acompanhado a situação de Manuel Vicente, porque agora não vive em Portugal. Disse também que, em Portugal, o poder judicial é completamente independente.
“Não há possibilidade de haver pressão política. Como Primeiro-Ministro de Portugal, nunca me passou pela cabeça interferir e assim é que deve ser”, frisou Durão Barroso.
Sobre a política internacional, não fugiu à conotação com a segunda intervenção ocidental no Iraque, em 2003, que foi anunciada oficialmente na Base das Lages, nos Açores (Portugal), pela voz de Durão Barroso.
“Os principais aliados de Portugal (EUA, Espanha, Reino Unido) pediram-nos para tomar uma posição. Entre os EUA e o regime de Saddam, não seríamos neutros. Foi essa a posição que tomei e não me arrependo”, apesar dos argumentos utilizados na altura - a urgência de conter o programa nuclear iraquiano, que afinal não existia, como defendiam as Nações Unidas - terem sido manipulados.
Durante a entrevista, criticou o proteccionismo e o nacionalismo agressivo de Trump e confirmou que as redes sociais mudaram a forma de fazer política, sendo mais difícil navegar em águas mais agitadas.
“Sou ainda novo demais para escrever memórias. Faço outras coisas e talvez não tenha a concentração necessária. Mas sou muito metódico e tomei nota de tudo”, confessou Durão Barroso, que, além de gestor, dá seminários internacionais em universidades de Portugal, Suíça e Itália.

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