Política

“Fiquei preso quase dois anos”

Diogo Paixão

“No dia 27 de Maio fui trabalhar. Era repórter-locutor da Rádio Nacional de Angola (RNA). Também apresentava o Kudibanguela. Vivia-se no país um momento sensível. O director mandou-me fazer a cobertura do acontecimento. E fui. Já não consegui regressar, porque, por volta das 11 horas, todo o perímetro do 1º de Maio estava cercado de cubanos. O director era o Matoso, agora se era João Matoso ou Alberto Matoso já não me lembro.”

Fotografia: DR

Fiquei preso quase dois anos. Eu e outras pessoas que estiveram presas nas mesmas circunstancias estamos em liberdade condicional, por uma razão muito simples. Primeiro, fui preso sem culpa formada; segundo, puseram-me na rua sem guia de soltura. Portanto, tecnicamente, ainda estou preso. Para agravar a situação, nunca me pagaram o dinheiro que me devem.
Este tempo todo que fiquei sem trabalhar (porque a partir do 27 de Maio deixei de trabalhar) alguém tem que me pagar, porque não fui exonerado. Esta é a realidade. Agora, como é típico neste país, alguém vai falsificar documentos para dizer que eu pedi exoneração.
Já fui à Rádio e aquilo era uma maquineta devidamente oleada. Este diz que vai ali, outro diz que não sou eu e assim vamos andando. Se eu recebesse a 'massa' que essa malta me deve, seria milionário, não teria que estar aqui a vender ovos.
Este pequeno espaço que estou a explorar (bar) faz parte do chamado instinto de sobrevivência. Isso não conta, o que conta é o dinheiro que me devem e mais nada.
Fui para uma cela onde estava a malta da Revolta Activa. Isto foi na Cadeia do São Paulo. Conheci lá o Gentil, o Justino, Menezes, Pinto de Andrade e outros. Estes também queriam dar golpe de Estado? Depois, fui transferido para a Casa de Reclusão. Estive num corredor que se chamava “Corredor da Morte”. Éramos 44 indivíduos que lá estávamos e acabámos 22. Entre mortos e feridos sobra sempre alguém e fui um dos tipos que sobreviveu. Aquilo era tão quente que até no tempo do frio usava abano.
Tinham-me dito que seria fuzilado se estivesse a mentir. Como sabia que a qualquer momento podia morrer, deixei a tristeza de lado. Quando viro filósofo, costumo dizer que pobre triste é um homem morto. Você já é pobre, vai ficar mais triste para quê? Lá na cadeia, o dia-a-dia era ouvir barulho devido à porrada.
Fui parar na Rádio Nacional em 1974, depois de ter passado por algumas revistas. Fui o primeiro negro a entrar lá como jornalista. Encontrei o Francisco Simons, o Berenguel, o Paulo Pinha, o ministro João Melo, Lucrécio Cruz, a Luísa Fançony e outros. Fui preso dias depois do 27 de Maio, concretamente no dia 30 de Maio, em casa do meu pai, e transferido para a Cadeia do S. Paulo.
Tinha dois filhos. Foram buscar-me por volta das 9 horas. Tinham cercado todos os becos que davam acesso à casa. Fui eu quem ligou para me virem buscar. Depois do 27 de Maio, o carro de recolha da RNA não ia à minha busca para ir trabalhar. “Decidi ligar pessoalmente para o serviço. Veio uma equipa completa de agentes à minha busca. Cercaram a casa e alguém lá fora, utilizando um altifalante, gritou: 'Carrasquinha não se mexa'. Ficaram com o fio de ouro que a minha namorada me tinha oferecido”.

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