Política

João Lourenço convidado de honra na investidura de Cyril Ramaphosa

Santos Vilola | Pretória

O Chefe de Estado, João Lourenço, assiste hoje, em Pretória, à investidura do Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, eleito pelo Parlamento depois da vitória do Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla inglesa) nas eleições nacionais de 8 de Maio.

Chefe de Estado, João Lourenço, quando embarcava ontem para a capital sul-africana para participar na cerimónia de posse
Fotografia: Kindala Manuel | Edições Novembro

João Lourenço, que está desde ontem na capital sul-africana, tem um lugar na tribuna de honra do estádio desportivo Loftus Versfeld, ao lado de outros estadistas dos países membros da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e de representantes das Nações Unidas e da União Africana.
Cyril Ramaphosa foi reconduzido quarta-feira, sem surpresas, à Presidência à qual chegou em finais de 2018, com a demissão do ex-Presidente, Jacob Zuma, suspeito de envolvimento em casos de corrupção que estão em tribunal.
No seu discurso no Parlamento, após a eleição formal, o antigo líder sindical e empresário do sector das Minas disse que assume um país “sufocado pelo desemprego e pelas desigualdades”.
O ANC, no poder desde o fim do regime do apartheid em 1994, obteve nas sextas eleições pós-apartheid, de 8 de Maio, o pior resultado da sua história nas legislativas, embora tenha conservado uma maioria de 230 assentos na Assembleia Nacional.
Cyril Ramaphosa garantiu pôr em primeiro lugar os interesses dos cidadãos. Relançar a economia, reconstruir as instituições do Estado e restaurar a esperança foram outros desafios assumidos pelo Presidente sul-africano. O novo Governo deve ser anunciado nos próximos dias e, segundo Cyril Ramaphosa, no discurso que fez no Parlamento, deve ser sinónimo de mudança.

Combate à corrupção

O Presidente eleito é agora pressionado a não incluir nos cargos de responsabilidade no ANC, Parlamento ou no Governo políticos do partido considerados culpados em casos de corrupção, para reforçar a credibilidade e a sua autoridade.
Cyril Ramaphosa chegou à presidência do ANC no final de 2017. O político procura agora consolidar o seu poder no seio do partido onde apoiantes do seu predecessor Jacob Zuma ainda têm uma forte influência política. Mas figuras importantes do partido, entre as quais Malusi Gigaba, antigo governador da Reserva Nacional (banco central) e antigo ministro das Finanças, voluntariamente decidiram sequer aceitar a função de deputado, por serem visados em esquemas de corrupção num passado recente.
O Presidente a ser investido hoje no cargo tem pela frente uma ampla reforma económica e uma população impaciente por resultados concretos. Cyril Ramaphosa vai precisar de habilidades e postura de estadista, para vencer a corrupção institucional e a inércia administrativa que travam a economia do país.
Se a vitória do ANC nas eleições legislativas foi confortável, a “engenharia” económica para a recuperação que a África do Sul precisa parece difícil.
Com uma população jovem, a maior economia do continente africano tem no desemprego massivo desta camada da população um problema que afecta até a segurança na sociedade.

O simbolismo de Loftus Versfeld

A escolha para acolher, pela primeira vez, uma cerimónia de investidura de um Presidente eleito, o quarto em seis eleições nacionais desde 1994, teve que ver com o momento menos bom que a economia do país vive e que obriga o Governo a racionalizar recursos financeiros.
Mas Loftus Versfeld tem um simbolismo na “inauguração” da “Nação Arco-Íris”, baptizada com o fim do regime segregacionista do apartheid, onde negros, brancos, indianos e asiáticos podem conviver em harmonia. O estádio, localizado na cidade de Tshwane (nome tradicional da capital do país, Pretória), província de Gauteng, que compreende também a metrópole Joanesburgo, acolheu jogos do primeiro campeonato do mundo de râguebi, em 1995, um ano depois de Nelson Mandela ter sido eleito primeiro Presidente da República pós-apartheid.
Na festa mundial daquele desporto mais popular na África do Sul, Mandela esteve na cerimónia de abertura, percorrendo o relvado, tinha o país apenas um ano do fim do apartheid que o isolava do mundo. O acontecimento histórico inspirou até o cinema, que imortalizou o momento no filme “Invictus”, com Morgan Freeman e Matt Damon.
Hoje, quando Cyril Ramaphosa for investido a Presidente da República, no estádio Loftus Versfeld, o país vai assinalar 24 anos desde que acolheu no mesmo lugar a competição mundial e viu pela primeira vez Nelson Mandela num estádio desportivo depois de sair em liberdade da prisão da Ilha de Robben Island.
O primeiro campeonato do mundo de râguebi no continente começou exactamente no dia 25 de Maio (Dia de África) e terminou a 24 de Junho, com a consagração dos sul-africanos, cuja maioria negra da população tinha no jogador Chester o “representante da raça”. A “Nação do Sul” (Mzanzi, na designação tradicional) vencia a Nova Zelândia, com uma reviravolta na segunda parte, depois de uma desvantagem considerável na primeira.
A África do Sul é uma República Parlamentar. Ao contrário da maioria das repúblicas parlamentares, os cargos de Chefe de Estado e chefe de governo são mesclados num Presidente dependente do Parlamento.

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