João Lourenço é o candidato escolhido pelo MPLA

Kumuênho da Rosa e João Dias |
4 de Fevereiro, 2017

Fotografia: Vigas da Purificação | Edições Novembro

Na sua primeira declaração pública após ser confirmado cabeça-de-lista do MPLA às próximas eleições, João Lourenço disse estar “pronto para o desafio” e que tem estado a preparar-se “de um tempo para cá” e que a deliberação do Comité Central foi apenas “o confirmar de algo que a nível da direcção do partido já era praticamente dado adquirido”.

“Estou preparado a assumir este desafio, que quer o camarada Presidente José Eduardo dos Santos, quer o partido, colocam na minha mão”, declarou João Lourenço, que direcciona o seu discurso para o “muito que há a fazer” para que o MPLA consiga o seu primeiro grande objectivo que é vencer as eleições.
O candidato do MPLA comentou sobre eventuais dúvidas em torno da sua popularidade: “Penso não ser um eterno desconhecido. Sou quadro do partido há muitos anos e desempenhei muitas funções. Já fui secretário-geral do partido e nessa condição andei muito pelo país. Penso que o meu rosto é conhecido e sete meses são suficientes”.
João Lourenço também falou sobre a sua trajectória militar. “Os desafios são outros e passam pela consolidação da democracia e o fortalecimento da economia. O país já não está em guerra, por isso não gostaria de relevar a minha condição de militar ou de ex-militar”, referiu ao responder a uma questão sobre a sua trajectória militar.

Grande responsabilidade

João Lourenço também comentou a responsabilidade de vir a substituir José Eduardo dos Santos. “É um desafio grande que embora difícil não é impossível.” O candidato considerou fundamental que se tenha “optimismo suficiente” para conseguir. “E quem vai conseguir não é o cidadão ou o militante João Lourenço, mas quem vai conseguir é o próprio MPLA que é uma verdadeira máquina. Sinto-me suficientemente respaldado para fazer frente a este desafio”, frisou.
Questionado sobre se estaria aberto ao debate político directo com outros candidatos, João Lourenço respondeu que tal depende das “regras de jogo” que forem estabelecidas. “Se as regras do jogo assim o determinarem, eu sou apenas um dos jogadores e vou jogar com as mesmas armas, tal como os outros.”

Momento histórico

Em caso de vitória do MPLA nas Eleições Gerais de Agosto próximo, João Gonçalves Lourenço, actual ministro da Defesa, será o Presidente da República e Bornito de Sousa, hoje, ministro da Administração do Território, Vice-Presidente.
Os dois nomes tinham sido aprovados pelo Comité Central já em Dezembro do ano passado, durante uma reunião no quadro da preparação do partido para participar nas eleições. Ontem, a reunião do “CC” não apenas confirmou o nome daquele cujo rosto estará ao lado da bandeira do MPLA no boletim de voto, como aprovou a lista completa de candidatos efectivos e suplentes que a direcção do partido vai apresentar nas Eleições Gerais de 2017.
A hipótese de João Lourenço como candidato a substituir José Eduardo dos Santos começou a ganhar corpo em meados do ano passado, quando já era ministro da Defesa Nacional. Depois de eleito vice-presidente do MPLA, em Agosto, durante o VII Congresso Ordinário do partido, João Lourenço passou a ser o principal e mais cotado candidato a líder da maior força política angolana.
A poucas horas de celebrar 56 anos do início da Luta Armada de Libertação Nacional, o MPLA por via do seu órgão deliberativo máximo do partido dá assim um passo importante no sentido de concretizar o processo de transição política, que o próprio Presidente José Eduardo dos Santos havia avisado, também no Comité Central, que “teria mesmo que ser realizado”, mas no “momento certo e de forma muito cuidada”.

Construir a Transição


Recorde-se que foi em Julho de 2015, também numa reunião do Comité Central, que o líder do MPLA colocou a “construção da transição” na agenda do partido, considerando, nesta altura, que a forma como seria feita tinha que ser “estudada com muita seriedade”. Na ocasião, José Eduardo dos Santos partilhou com o Comité Central a sua opinião sobre o assunto: “é conveniente escolher o candidato a Presidente da República, que é uma competência do Comité Central nos termos dos Estatutos, antes da eleição do presidente do Partido no VII Congresso Ordinário”.
Nesta altura, o líder do MPLA também deixou claro que naquelas circunstâncias, com a economia a viver os efeitos da maior quebra de preço do petróleo, seria “insensato” interromper o mandato, tal como apontavam “certos círculos restritos” que davam como dado adquirido que não levaria o seu mandato até ao fim como Presidente da República. José Eduardo dos Santos defendeu, na ocasião, que o estudo das soluções a equacionar no processo de renovação da direcção do partido deviam servir para “reafirmar o carácter democrático do partido e consolidar o regime democrático da República de Angola”. Dito e feito. José Eduardo dos Santos foi eleito com maioria qualificada no Congresso em 2016, reforçando a sua liderança e legitimidade para continuar a conduzir o processo de transição.
A nível do aparelho de Estado, mantém-se como Presidente da República e titular do Poder Executivo até ao fim do mandato para o qual foi eleito em 2012, e que só termina em 2017, com a tomada de posse do próximo Presidente eleito, tal como manda a Constituição da República de Angola.
Tal como havia prometido, a transição está a ser feita de forma cuidadosa e responsável. José Eduardo dos Santos mantém-se no activo, como Presidente da República e, em princípio, até ao próximo Congresso, “número um” do MPLA.
É pois de esperar por um quadro de coabitação, transitória, refira-se, visto que o agora confirmado candidato do MPLA a Presidente da República nas próximas Eleições Gerais de 2017 não é o presidente do partido. À partida, o facto de estar ausente da lista de candidatos a deputado pelo MPLA, em nada afecta a sua condição de líder do partido, já que foi eleito em Congresso Ordinário, para um mandato de cinco anos, conforme os estatutos.
Desde a sua fundação, em 1956, o MPLA teve três presidentes, reza a história. Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto e o actual líder do partido, José Eduardo dos Santos. Há registos de outros personagens na liderança do então movimento na luta clandestina, como Ilídio Machado.
Mas depois da Independência, em 1975, o MPLA teve apenas dois presidentes, que foram também, em contextos diferentes, Presidentes da República. Hoje, a maior força política angolana pode reeditar um cenário em que, ganhando as eleições em Agosto, o líder do partido não seja o Presidente da República.
A primeira vez que isso sucedeu, foi aquando da vacatura por morte do Presidente Agostinho Neto, em Setembro de 1979. Agostinho Neto foi então substituído nas funções de Presidente da República, pelo então jovem diplomata e engenheiro de formação José Eduardo dos Santos, que no seu discurso de tomada de posse considerou a substituição “difícil porém necessária”. Somente no ano seguinte, José Eduardo dos Santos viria a assumir a liderança do MPLA.
Esse momento histórico do MPLA e do país foi recordado pelo próprio Presidente José Eduardo dos Santos, o ano passado, precisamente na reunião do Comité Central em que anunciou que se retiraria da vida política activa em 2018. “Peço a vossa atenção para o seguinte: integrei-me nas fileiras da Luta Clandestina de Libertação Nacional em Luanda, em 1960, aos 18 anos. Em 7 de Novembro de 1961 saí clandestinamente de Angola para o então Congo Léopoldeville, onde pouco tempo depois recebi o meu cartão de membro do MPLA, no escritório deste Movimento de Libertação Nacional, na cidade de Léopoldeville, hoje Kinshasa. Em Novembro de 1974 fui eleito membro da Direcção do MPLA. Em 1980, no quadro do Sistema de Partido Único, fui eleito presidente do MPLA e Presidente da República Popular de Angola.”
Antes de anunciar a decisão de deixar a política activa em 2018, a qual manteve firme, José Eduardo dos Santos lembrou aos membros da direcção do MPLA que em Setembro de 1992, em eleições democráticas multipartidárias, como presidente do partido, conduziu o MPLA à vitória com maioria absoluta e como candidato à eleição presidencial ganhou a primeira volta dessa eleição. Em 2012, continuou, em eleições gerais foi eleito Presidente da República e empossado para cumprir o mandato que nos termos da Constituição da República termina em 2017.

Governo do MPLA

Com a confirmação de João Lourenço para cabeça de lista do MPLA às próximas eleições e Bornito de Sousa, como candidato a vice-presidente, adivinha-se mexidas em breve no actual Governo, que é do MPLA, como lembrou José Eduardo dos Santos.
Mas o ainda ministro da Defesa Nacional, João Manuel Gonçalves Lourenço, que este ano completa 63 anos de idade, natural do Lobito, terá sobre si a responsabilidade de ser o rosto da campanha eleitoral do MPLA e conduzir o partido para mais uma vitória nas eleições.
O Presidente José Eduardo dos Santos, que se mantém líder da maior força política angolana, já avisou que o MPLA vai trabalhar para reforçar a confiança dos eleitores e vencer com maioria qualificada ou, no mínimo, com maioria absoluta. Tal como João Lourenço, é de esperar que Bornito de Sousa deixe as funções no Governo e se dedique um pouco mais ao plano de acção do partido para atacar o seu grande objectivo nas eleições.

O perfil do cabeça de lista do partido para as eleições

Licenciado em História e general na reserva, João Lourenço exerceu vários cargos de relevo no MPLA, nas Forças Armadas e no aparelho de Estado, de um modo geral. Chegou a presidente da Bancada Parlamentar do MPLA (1993-1998) e Secretário-Geral do partido, de 1998 a 2003, foi Secretário do Comité Provincial do Partido e Governador Provincial do Moxico, de 1984 a 1987, e de Benguela (1987–1990). Foi deputado ainda na Assembleia do Povo (1984–1992), antes de assumir a chefia da Direcção Política Nacional das FAPLA (1990–19929) e depois Secretário da Informação do MPLA (1992–1997).
João Lourenço nasceu a 5 de Março de 1954 na cidade do Lobito. É filho de Sequeira João Lourenço, natural de Malanje, e de Josefa Gonçalves Cipriano Lourenço, natural do Namibe, enfermeiro e costureira, respectivamente, ambos já falecidos. Fez os estudos primários e secundários na província do Bié, onde o seu pai se encontrava na situação de residência vigiada por 10 anos após ter estado preso 3 anos na prisão de São Paulo em Luanda, pelo exercício de actividade política clandestina enquanto enfermeiro do Porto do Lobito.
Deu continuidade aos estudos em Luanda no então Instituto Industrial de Luanda. Após a queda do regime fascista em Portugal, na companhia de outros jovens, juntou-se à luta de libertação nacional em Ponta Negra, em Agosto de 1974, no CIR Kalunga. Integrou o primeiro grupo de combatentes que entraram no território nacional via Miconge-Belize-Buco Zau-Dinge-Cabinda.
Em vésperas da Independência, participou nos combates na fronteira do N’Tó/Yema contra a coligação FNLA/Exército Zairense, e a partir do morro do Tchizo em Cabinda contra a unidade da FNLA que se encontrava nas margens do rio Lucola à entrada da cidade.
João Lourenço tem formação em artilharia pesada e exerceu funções de Comissário Político em diversos escalões, desde pelotão, companhia, batalhão, brigada e comissário da 2ª Região Político-Militar Cabinda, entre 1977/78. Foi enviado para a então União Soviética, de 1978 a 1982, para estudar na Academia Superior Lénine, onde além da formação militar obteve o título de Mestre em Ciências Históricas. Em 1982 e 1983 participou nas operações militares no centro do país, Cuanza Sul, Huambo, e Bié com posto de comando no Huambo. De 1983 a 1986, desempenhou as funções de Comissário Provincial do Moxico e presidente do Conselho Militar Regional da 3ª Região Político Militar.
De 1986 a 1989, desempenhou as funções de 1º Secretário do Partido e Comissário Provincial de Benguela. Nos anos 1989 e 1990 desempenhou as funções de Chefe da Direção Política Nacional das FAPLA, em substituição do General Francisco Magalhães Paiva N’Vunda, nomeado ministro do Interior. De 1991 a 1998 desempenhou as funções de secretário do Bureau Político para a Informação, de secretário do Bureau Político para a Esfera Económica, por um curto período, e de chefe da Bancada Parlamentar.
De 1998 a 2003 foi secretário-geral do MPLA e presidente da Comissão Constitucional. De 2003 a Abril de 2014, João Lourenço foi 1º Vice-Presidente da Assembleia Nacional. Membro do Bureau Político do Comité Central do MPLA, João Lourenço é general de três estrelas na reserva. É casado com Ana Afonso Dias Lourenço, actual deputada pelo mesmo partido, e pai de seis filhos.

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