Política

Jovens falam sobre Agostinho Neto

Isaquiel Cori

A memória de Agostinho Neto tem toda a importância e valor. É assim que muitos jovens nascidos depois da Independência pensam. É uma figura política de importância transcendente para Angola. No campo das Letras, é capaz de inspirar qualquer um, desde que se lhe leia sem motivações extra-literárias.

O Jornal de Angola foi ao encontro de jovens angolanos, todos nascidos depois de 1979, portanto, após a morte de Agostinho Neto, e formulou-lhes as seguintes perguntas:

1 - Como se inteirou da vida e obra de Agostinho Neto?
2 - Que importância e valor dá à memória de Agostinho Neto?
3 – Para si, qual é o verdadeiro legado de Agostinho Neto?
4 – A geração de Agostinho Neto, que se levantou contra o colonialismo e proclamou a Independência, já é devidamente valorizada ou devia ser mais valorizada? Como?
As respostas são publicadas a seguir:

 

A) Conheci Agostinho Neto, primeiro, como escritor, o poeta da Sagrada Esperança, nos idos anos ‘90, quando frequentava a quarta classe. Eu tinha um livro, “Textos Africanos”, onde havia vários textos dele. Só mais tarde o conheci como político e nacionalista. Portanto, o meu contacto com a sua obra foi muito precoce, como de resto foi com os outros escritores da geração Mensagem.

Toda a importância. Pela centralização da sua obra no imaginário da Luta de Libertação Nacional e na construção da angolanidade e afirmação dos seus valores. É verdade que houve, logo após a sua morte, uma forte politização da sua figura. O MPLA, na altura do Partido único, promoveu uma apropriação desta figura excessivamente política, pelo que, hoje, alguns sectores da vida nacional tentam demarcar-se dele. Mas é fundamental sabermos compreender os contextos e hoje devolver a figura do Camarada Agostinho Neto ao povo angolano. De onde veio e pertence. Temos de nos unir, debater mais os seus feitos. É a melhor forma de honrarmos a sua memória.

Prefiro falar em principal, em vez de verdadeiro. O seu principal legado é a luta pela libertação do povo angolano. O nosso desafio, hoje, é buscar inspiração na sua gesta heróica para resolvermos os problemas mais prementes.

Penso que tem sido valorizada. Concordo que devíamos fazer mais. Mas este "mais" não é, necessariamente, a prestação de ajuda material. Passa, sobretudo, pela imortalização das suas memórias. E isto faz-se pela música, poesia, pelo estudo nas universidades... etc.

B)Como quase todos os angolanos da minha geração, através da escola. As informações sobre a vida e obra aprendíamo-las na escola, de forma sintetizada. O acervo que a gente retém sobre as figuras históricas dá-se através de uma construção gradual. Nos anos ‘90, não dispúnhamos de ferramentas como Internet e a nossa menor idade não nos permitia visitar bibliotecas localizadas distantes das escolas e das casas. Assim, vou aprendendo sobre Agostinho Neto.

Neto é uma personalidade histórica, um património cultural que nos obriga, volta e meia, a confrontá-lo por diferentes motivos. É a resposta para muitas inquietações filosóficas sobre a construção da nação que se pretende e também motivo de reflexões artísticas. Aprendendo sobre a sua vida e obra, estaremos a compreender uma filosofia de vida de um homem, que teve acertos e desacertos.

O verdadeiro legado de Agostinho Neto, para mim, enquanto escritor e homem de cultura, é naturalmente a sua obra literária. Mas deixa também um legado político e social, consubstanciado em frases com valor de axiomas e em actos. A sua obra reside num espaço de debate conflituoso, marcado muitas vezes pelo “supérfluo” de quem elogia e de quem desvaloriza e quase sempre por razões extraliterárias. No meio dessa discussão entre ser e não ser, eu digo que é “Poeta”, que marcou uma geração, que inspira muitos poetas. Confesso que, em termos de estilo, não é dos que me excita, mas até agora foi o único a dar-me ideia para a construção de um livro. Penso que é aqui onde reside a sua grandeza. É capaz de inspirar qualquer um, desde que se lhe leia sem motivações extra-literárias.

Acredito que ainda não foi suficientemente valorizada. Porque, no dia do Herói Nacional, parece que celebramos apenas a figura de Agostinho Neto. É importante celebrar Neto, julgo, mas não se precisa anular as outras figuras que também contribuíram para o alcance da dipanda. E se pretendemos uma sociedade cada vez mais inclusiva, por que não celebrar nessa data Angola de Cabinda ao Cunene, com todos aqueles que lutaram por essa Angola, antes do equívoco da guerra fratricida?

C)Inteirei-me pelos livros. Vinham alguns textos de Neto nos manuais de Língua Portuguesa e depois criei interesse próprio pelas suas obras. A televisão foi também importante.

Neto, para mim, foi dos políticos com discursos mais eloquentes, valorizava a vida humana. Teve as suas falhas, como todo o humano, mas a sua postura política e legado histórico conferem-lhe um lugar de destaque na história de Angola.

O legado de Neto é extenso, apesar da sua “curta” trajectória, mas vamos destacar a valorização da vida humana e o lugar de África e dos africanos no Mundo. Porque tanto em seu discurso político como literário essas são as mensagens subliminares.
A geração de Neto, infelizmente, deixou muito a desejar. Todos contribuíram de algum modo para o país que temos hoje e, se perguntarmos a Neto, não era o que estava agendado. Acredito que alguns deles, os mais destacados, sempre foram considerados como opiniões importantes para o país e não poderiam ser mais valorizados.

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