Política

Líderes africanos lançam Zona de Comércio Livre

Bernardino Manje | Kigali

África dá hoje um importante passo para a sua integração económica, com o lançamento, em Kigali (Ruanda), da Zona de Comércio Livre Continental Africana, uma iniciativa apoiada pela maior parte dos países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), entre os quais Angola.

Presidente João Lourenço, desde a tarde de ontem na capital ruandesa, participa hoje na décima sessão da Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da UA
Fotografia: Joaquina Bento | Angop

O Presidente da Republica, João Lourenço, encontra-se desde a tarde de ontem na capital ruandesa, onde participa, hoje, na décima sessão extraordinária da Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da União Africana, que foi convocada especificamente para a assinatura do acordo que marca o lançamento da Zona de Comércio Livre Continental (ZCLC) e do Protocolo do Tratado que estabelece a Comunidade Económica Africana relativo à livre circulação de pessoas e bens no continente.
Hoje, antes da sessão de abertura da cimeira, está previsto um encontro, à porta fechada, em que apenas devem estar presentes representantes de cinco Estados-membros, chefes dos órgãos da União Africana  e directores executivos. Na ocasião, Mahamadou Issoufou, Presidente do Níger, e líder do processo de criação da ZCLC, faz a apresentação do seu relatório. 
No encontro restrito, são, igualmente, analisados e adoptados os instrumentos jurídicos relativos à zona de comércio, e dos projectos de decisão e declaração da Conferência de Chefes de Estado sobre a ZCLC.
Na sessão de abertura devem discursar o presidente em exercício da União Africana (UA) e Chefe de Estado do Ruanda, Paul Kagame, o presidente da Comissão da UA, Moussa Faki Mahamat, e o estadista nigerino, Mahamadou Issoufou, na qualidade de líder do processo de criação da ZCLC. Seguem as declarações dos directores executivos das comunidades económicas regionais e de Chefes de Estado e de Gover-no do continente.
Além do acordo que cria a Zona de Comércio Livre Continental e do  Protocolo do Tratado que estabelece a Comunidade Económica Africana relativo à livre circulação de pessoas, direito de residência e de estabelecimento, deve igualmente ser assinada hoje a Declaração de Kigali sobre o Lançamento da ZCLC. O discurso de encerramento é proferido pelo presidente em exercício da UA, Paul Kagame.

Fórum Económico
A anteceder a cimeira, decorreu ontem um fórum económico em que participaram mais de 200 empresários africanos, entre eles três angolanos, que receberam esclarecimentos sobre como deverá funcionar a ZCLC.
Agostinho Kapaia, presidente do conselho directivo da Comunidade de Empresas Exportadoras e Internacionalizadas de Angola (CEEIA), foi um dos presentes no fórum. Em declarações à imprensa angolana, o empresário angolano considerou ser um mo-mento histórico o lançamento da ZCLC, algo que era muito esperado e desejado por muitos países africanos.
Kapaia acredita que, a partir de agora, África já não será a mesma, salientando que o acordo a ser rubricado hoje na capital ruandesa vai permitir aos empresários africanos ter uma maior abrangência em termos de mercado. Os países que subscreverem o acordo, disse, terão um mercado aberto para fazerem as suas transacções comerciais, troca de experiência e do comércio no continente. O empresário salientou que, neste mo-mento, o comércio intra-africano é de apenas 16 por cento, mas, segundo um estudo das Nações Unidas, com a entrada em funcionamento da ZCLC, o comércio interno no continente será de 75 por cento.
“É, de facto, uma grande oportunidade para África, para os empresários e os países africanos, razão pela qual devemos abraçar e apoiar esta iniciativa”, defendeu.
Relativamente ao fórum decorrido ontem, Agostinho Kapaia reconheceu que nem todos os assuntos discutidos foram convergentes. “Houve a participação de líderes de países e empresários. Os empresários colocaram muitas questões ligadas à prática e acção, como a necessida-de de melhoria das infra-estruturas no continente, para que haja desenvolvimento a nível da indústria e do comércio”, disse o em-presário angolano, para quem, ainda assim, o futuro de Áfri-ca é promissor, com a entrada da ZCLC.
“Temos vários recursos e precisamos ter capacidade para exportar mais”, defen-deu o empresário Agostinho Kapaia, que disse ter aproveitado o encontro para manter contactos com empresários de alguns países africanos e responsáveis de bancos estrangeiros. O fórum económico, aberto pelo Presidente do Ruanda, Paul Kagame, de-correu sob o lema “Aproveitando o poder dos negócios para impulsionar a integração de África”.
Os debates foram repartidos em quatro painéis, a saber: “Alavancando o poder dos negócios para impulsionar a integração de África”, “Emprego, juventude e mu-lheres: o que significa a Zona de Comércio Livre Continental para os cidadãos de África”, “Tecnologia, inovação e comércio intra-africano” e “Financiamento do comércio intra-africano”.

Empresário Bartolomeu Dias fala em “encontro histórico”

Bartolomeu Dias, presidente do grupo empresarial com o mesmo nome, é outro empresário angolano que participou no fórum económico e que considerou um “encontro histórico” a cimeira que marca, hoje, o lançamento da ZCLC.
Defendeu que, para se passar para uma zona de comércio livre, deve-se contar com produtos feitos em  África, tal como realçou, no fórum, o antigo Presidente da Nigéria, Olusegun Obasanjo. O empresário angolano considerou que os participantes do fórum foram muito abertos e objectivos sobre aquilo que se quer para África. A ZCLC, disse, vai materializar aquilo que os empresários sempre sonharam: não estarem dependentes das economias fora de África, transformar a matéria-prima, comercializá-la internamente e exportá-la.  Bartolomeu Dias considerou que a criação da ZCLC é sinal de que a África está a dar passos significativos para que os actuais problemas sejam um assunto do passado.
Bartolomeu Dias lamentou que tenham participado no fórum poucos empresários angolanos, mas ele e os restantes dois participantes comprometem-se a transmitir os assuntos discutidos em Kigali.

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