Política

Lunda-Norte era "terra de ninguém"

José Bule | Dundo

Sacholavam a terra sem receio de ninguém. Os garimpeiros, maioritariamente clandestinos provenientes da República Democrática do Congo (RDC), destruíam campos agrícolas e desviavam o curso das águas dos rios e lagoas. Exploravam de forma ilegal, à vontade, uma das principais riquezas de Angola, o diamante.

Fotografia: Edições Novembro

Efectivos dos diversos órgãos de defesa e segurança do país nada faziam para impedir a entrada de milhares de estrangeiros ilegais, que pilhavam de forma abusiva e descontrolada os recursos naturais. Eram cúmplices de um negócio que tinham à testa os ditos “bosses”, maioritariamente libaneses e mauritanos, que geriam as casas de compra e venda de diamantes e faziam de tudo para atrair milhares de pessoas vindas de todas as partes de Angola e de vários pontos do mundo.
Ninguém podia entrar nas “computarias”, nem mesmo os administradores municipais. As ordens saíam de Luanda. Marcos, Clement, Wissam, Prince Arik, Miguel, Malek, Salifu e Leo, este último conhecido como o irmão dos garimpeiros, eram os “bosses” que comandavam as operações ilícitas de exploração de diamantes na Lunda-Norte.
Eles eram facilmente identificados através das viaturas que utilizavam para publicitar o negócio de diamantes, onde as imagens dos seus rostos e contactos telefónicos eram estampados.
Da província, que conta neste momento com mais de 50 mil desempregados, saíam e entravam milhões de dólares que deviam ser investidos em vários projectos sociais destinados à população local, que, por ironia do destino, vive abaixo da pobreza. A maioria habita em casebres construídos com material rudimentar. Falta água potável e energia eléctrica em muitas localidades da província. Por falta de escolas, milhares de crianças estão fora do sistema normal de ensino. Depois de Luanda, a província registava o maior número de estrangeiros ilegais da RDC.
A Lunda-Norte parecia ser terra de ninguém. Todos estavam metidos na exploração ilícita de diamantes. Desde o início da “Operação Transparência”, no dia 25 de Setembro, mais de 230 casas de compra e venda de diamantes e 90 cooperativas foram encerradas, e mais de 380 mil cidadãos da RDC abandonaram livremente o território angolano.
Até 20 de Outubro foram apreendidas 71 dragas, 47 lavarias, 14 jangadas, 59 armas de fogo, mais de um milhão de dólares americanos e cerca de 17 mil quilates de diamantes.
A operação permitiu, também, a apreensão de vários instrumentos utilizados no garimpo, como moto-bombas, detectores de diamantes, compressores de ar, máquinas de teste e balanças de diamantes, lupas, cofres, viaturas, de diversas marcas e capacidades, e equipamentos como retroescavadoras, pás cavadoras, niveladoras, cavadoras, bulldozers e tractores.
Neste momento, toda actividade legal ou ilegal, realizada por cooperativas de exploração de diamantes e semi-industriais, está suspensa. A decisão foi tomada pelo Executivo para reduzir o risco de dispersão dos diamantes, garantir maior fiscalização de receitas sobre as vendas e reorganizar o mercado artesanal.
A Empresa Nacional de Prospecção, Exploração, Lapidação e Comercialização de Diamantes (ENDIAMA) está orientada a não voltar a reemitir licenças para o exercício da actividade.

“Angola não recebeu notificação da RDC”

Angola não recebeu qualquer notificação da República Democrática do Congo (RDC) sobre suposta violação dos Direitos Humanos contra imigrantes ilegais, afirmou sábado, no Dundo, Lunda-Norte, o ministro de Estado e chefe da Casa de Segurança do Presidente da República.
Pedro Sebastião, que falava durante uma conferência de imprensa realizada na fronteira do Chissanda, a cerca de sete quilómetros do Dundo, no âmbito da “Operação Transparência”, disse que no país não foram praticados quaisquer actos de violência por parte das autoridades policiais ou militares, susceptíveis de serem classificados de violação dos Direitos Humanos contra os cidadãos da RDC.
O ministro de Estado esclareceu que as imagens que circulam nas redes sociais e em vários canais internacionais são descontextualizadas e não correspondem à realidade dos factos relacionados com a “Operação Transparência”, que decorre desde 25 de Setembro em sete províncias do país. “Não houve cidadãos estrangeiros ou nacionais molestados e nem existiu qualquer apreensão de haveres pessoais. Portanto, são completamente falsas as afirmações sobre massacres e violações praticadas pelas autoridades ou populares angolanos”, disse Pedro Sebastião, que considera legítima a alegada intenção da RDC de repatriar os cidadãos angolanos em condições migratórias ilegais naquele país vizinho.
Face às medidas que levaram ao encerramento de mais de 90 cooperativas e 230 casas de compra e venda de diamantes, mais de 380 congoleses que viviam na condição de ilegais abandonaram voluntariamente o país. 
Segundo Pedro Sebastião, a Lunda-Norte parecia terra de ninguém em que todo o mundo estava metido no garimpo, explorando ilicitamente os diamantes. Daí que o Governo achou por bem realizar essa operação que vai durar o tempo necessário para que possamos estabilizar a região, em particular, e o país, no geral.

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