Política

Media africana e chinesa exigem audiência global

José Ribeiro | Beijing

Os meios de comunicação social em África mudaram muito nas últimas décadas e o momento actual é propício ao desenvolvimento da cooperação com a China, que vem reforçando as suas relações com o continente.

Ministro da Comunicação Social José Luís de Matos chefia a delegação angolana
Fotografia: João Gomes

Esta foi uma das conclusões do 3º Fórum sobre a Cooperação entre os Media da China e de África, que ontem decorreu em Beijing na presença de mais de 350 personalidades e no qual Angola se fez representar por uma delegação chefiada pelo ministro da Comunicação Social, José Luís de Matos, o primeiro convidado africano a intervir no debate.
O quadro político e institucional africano, caracterizado no passado por uma concentração do Estado nos Media, alterou-se no início dos anos 90 com os processos de liberalização, com o surgimento de uma imprensa privada activa e os esforços de regulamentação no sector, reconheceram no Fórum os ministros africanos que tutelam os media em África.
O novo ambiente, acrescentaram, permitiu revelar as “potencialidades” e os “trunfos” do continente em matéria de imprensa, rádio e televisão, mas mostrou também as suas fragilidades, uma das quais, nomeadamente, o fraco acesso à energia eléctrica, condiciona as transmissões dos operadores e a recepção dos conteúdos informativos pelos cidadãos.
Outra debilidade em África tem a ver com a propriedade dos meios de comunicação. A liberalização no continente africano, disseram, permitiu uma expansão da comunicação social, mas facilitou também a entrada das grandes multinacionais do ramo dos media, particularmente de operadores de televisões.
Segundo o presidente do Conselho Superior da Comunicação Social do Níger, Abdourrahamane Ousmane, entre 1.500 canais de televisão transmitidos por satélite para a África do Oeste menos de cem são produzidas em África e muitas estações que difundem para África escapam à regulamentação e à regulação. O aumento do mercado audiovisual que se verifica hoje acompanhou o crescimento das economias africanas e coincidiu com a emergência de uma classe média mais exigente, levando, em simultâneo, ao aumento do aproveitamento das línguas africanas pelos potentes meios que orientam as suas emissões para África.
É nesse contexto que o continente africano deposita esperanças na cooperação “sincera” e “sustentável” vinda da China de modo a ultrapassar o seu atraso infra-estrutural e a falta de quadros técnicos capacitados. Um orador ilustrou as dificuldades africanas com o facto de, a um ano da data limite estabelecida pela União Internacional das Telecomunicações (UIT), apenas cinco dos 55 Estados de África terem efectuado a transição para a televisão digital terrestre (TDT), nomeadamente, Tanzânia, Uganda, Ruanda, Moçambique e Ilhas Maurícias.
Falando da situação angolana, o ministro de Comunicação Social, José Luís de Matos, apresentou o quadro jurídico-legal angolano, que desde 1991 permite o exercício pleno das liberdades de imprensa e de expressão e deu a conhecer os passos que estão a ser dados para a migração do sistema analógico para a televisão digital terrestre até 2017.
Intervindo em inglês, José Luís de Matos considerou “primordial” a cooperação entre os Media sino-africanos, tanto ao nível da troca de produtos informativos como da assistência técnica e tecnológica, para que os menos evoluídos possam rapidamente dotar-se das ferramentas que lhes permita competir no universo comunicacional.
Na tarde de ontem, José Luís de Matos reuniu-se com o ministro chinês da Administração Nacional da Imprensa, Edição, Radiodifusão, Cinema e Televisão, Cai Fuchao, com quem conversou sobre aspectos ligados à cooperação entre os dois países, em companhia da directora do Gabinete de Intercâmbio Internacional do Ministério da Comunicação Social, Lourdes Mouzinho, e dos presidentes dos conselhos de administração da RNA, Henrique dos Santos, da TPA, Hélder Barber, da ANGOP, Daniel George, e da Edições Novembro.

Cooperação “ganha ganha”

A expressão mais ouvida durante o Fórum, de um lado e de outro, foi a aposta numa cooperação “ganha ganha” com a China, que anunciou em Dezembro do ano passado, durante a Cimeira de Joanesburgo, na qual esteve presente o Chefe de Estado chinês, Xi Jinping, a disponibilização de um fundo de 60 mil milhões de dólares para financiar projectos de cooperação centrados em 10 sectores económicos, sociais e culturais.
Coroando o sucesso do fórum, um exemplo dessa cooperação foi dado ainda ontem com o lançamento da Africa Link Union (ALU), uma associação formada pelo Canal de Televisão Central da China (CCTV) e por 18 empresas africanas. A Televisão Pública de Angola (TPA) assumiu uma das vice-presidências dessa plataforma sino-africana, na pessoa do presidente do conselho de administração do canal público, Hélder Barber.
Apoiando a sua actividade no centro operacional da CCTV, que se apresentou no Fórum como “líder mundial na distribuição em quantidade de notícias sobre África”, a ALU vai produzir conteúdos para “globalizar a realidade africana” e permitir aos operadores do continente o acesso aos filmes e telenovelas chineses, de modo a “fazer a voz de África e da China ser ouvida” no mundo.
A declaração conjunta aprovada pelo3º Fórum sobre a Cooperação entre os Media da China e de África destaca a vontade comum das duas partes em “promoverem o enriquecimento mútuo das duas civilizações”, mantendo “relações de igual para igual” e progredindo “de mãos dadas”, ao mesmo tempo que expressa o apelo “enérgico” dos meios de comunicação social de África para uma resolução pacífica do problema do Mar do Sul da China, um dos focos de tensão regional na Ásia.

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