Política

Memória dos ataques sul-africanos

José Maria |*

O segundo semestre de 1981 foi assinalado com acontecimentos indeléveis, que marcaram a sanha belicista da África do Sul, condutora da agressão contra Angola, a 23 de Agosto, seguida de ocupação, a mais prolongada, de uma parcela do território nacional, o Sul da província do Cunene e a intenção criminosa de destruir a economia angolana com o “ataque de um comando” para a destruição da Refinaria de Luanda, a 30 de Novembro.

José Eduardo dos Santos cumprimenta as tropas na frente da Cahama que se opunham ao avanço do inimigo

 

O segundo semestre de 1981 foi assinalado com acontecimentos indeléveis, que marcaram a sanha belicista da África do Sul, condutora da agressão contra Angola, a 23 de Agosto, seguida de ocupação, a mais prolongada, de uma parcela do território nacional, o Sul da província do Cunene e a intenção criminosa de destruir a economia angolana com o “ataque de um comando” para a destruição da Refinaria de Luanda, a 30 de Novembro.
A 23 de Agosto de 1981, passados já 30 Anos, as tropas sul-africanas desencadearam a “Operação Proteia”, iniciada com bombardeamentos de aviação sobre os radares da Chibemba. Os aviões sul-africanos desferiram o ataque na direcção Norte-Sul, vindos do mar, a partir do Namibe, por Virei, Lubango, voando a baixa altitude, para evitarem, desta forma, serem identificados pelos radares das FAPLA.
Apesar de terem ocupado o Sul do Cunene, as tropas sul-africanas jamais conseguiram tomar Cahama, que se tornou um dos pontos mais emblemáticos da heróica resistência das FAPLA e do Povo Angolano, que entrou, com todo o mérito, na galeria das grandes batalhas: Cabinda, Kifangondo e Ebo, 1975, Cuito, Agosto de 1993 e Cuito Cuanavale  entre 1978 e 1988. O Presidente José Eduardo dos Santos, no seu papel de Comandante em Chefe das Forças Armadas Populares de Angola, foi ao terreno comandar as tropas.
Cahama, onde a valorosa II Brigada se encontrava bem entrincheirada, definiu, com o Cuito Cuanavale, o teatro operacional de Angola em duas frentes distintas.
A Frente Sudeste, no Kuando-Kubango, em que as tropas sul-africanas e os batalhões da UNITA, numa primeira fase impediram que as FAPLA tomassem a Jamba e numa segunda em que as FAPLA impediram que o exército sul-africano e as FALA tomassem o Cuito Cuanavale.
O teatro de guerra tinha também a Frente Sudoeste, onde as tropas sul-africanas usaram, vezes sem conta, “o direito de perseguição” aos combatentes da SWAPO em território angolano para defender os interesses do Apartheid.


A fase da derrota

A última fase da intervenção do exército sul-africano em Angola desenvolveu-se em dois teatros operacionais distintos que influenciaram significativamente o carácter dos combates travados no período de Agosto de 1987 a Março de 1988 entre as FAPLA e as Forças de Defesa Sul-Africanas apoiadas pela UNITA na frente sudeste, e entre as FAPLA, as Tropas Cubanas e os Guerrilheiros da SWAPO contra as Tropas Sul-Africanas na Frente Sudoeste de Angola, depois de derrotadas no Cuito Cuanavale.
Na Batalha do Cuito Cuanavale as FAPLA enfrentaram, sozinhas, as Tropas Sul-Africanas e a UNITA que desferiram três ataques conjuntos contra a pequena localidade do Tumpo, para os sul-africanos, e para nós Samaria. A operação “Triplo Tumpo”, na linha da intervenção militar sul-africana tinha como objectivos a tomada da ponte e o desalojamento das FAPLA desta posição estratégica de defesa.
É importante referir a Frente Sudoeste, em que foram protagonistas as FAPLA, as Tropas Cubanas e os Guerrilheiros da SWAPO, que desenvolveram acções conjuntas a Sul do Cunene, as quais puseram fim à ocupação do território Angolano pela expulsão do Exército Sul-Africano, tendo esta culminado com o ataque aéreo angolano-cubano a Calueque, a 27 de Junho de 1988.
 

Terrorismo internacional

O número “11”, para os Americanos, traz algo de fatídico. Para os Angolanos tem muito de fatídico mas também de grandioso. A 11 de Novembro de 1975, o Heróico Povo Angolano conquistou a sua independência. A 11 de Setembro de 1981 Angola foi agredida pela racista África do Sul.
A 11 de Setembro de 2001, Bin Laden surpreendeu os Americanos e o Mundo ao ferir profundamente o orgulho da nação mais poderosa do planeta, os Estados Unidos da América, com um ataque às Torres Gémeas em Nova Iorque, marcando, desde então, o princípio de uma nova era enfrentando o terrorismo sobre todas as formas de guerra convencional e até mesmo de guerra irregular e assimétricas.


Ofensiva diplomática

No dia 11 de Setembro de 1981 a Nigéria acolheu a Cimeira da Linha da Frente. Presentes em Lagos, seis dos 15 homens que geriam os destinos de África: Julius Nyerere, Kenneth Kaunda, Samora Machel, José Eduardo dos Santos, Shehu Shagari e Robert Mugabe.
A invasão sul-africana a Angola desencadeou em cadeia uma vigorosa acção diplomática encabeçada pelo Presidente José Eduardo dos Santos que se deslocou a sete países, iniciando pela Nigéria, onde teve lugar a Cimeira da Linha da Frente+1 (Nigéria) que nesta desempenhou um papel diferente ao de 1975 no qual se comprometeu a combater abertamente a invasão sul-africana ao nosso país.


A Cimeira de Lagos

A argumentação, bem interiorizada pelos “grandes” dos Países da Linha da Frente, consistia na falácia de dar prioridade à cooperação regional e continental sendo de evitar e de rejeitar qualquer ajuda militar do exterior de África. Era impensável, e por isso fora de qualquer cogitação, que José Eduardo dos Santos, Presidente há dois anos e com apenas 38 anos, se confrontasse e questionasse qualquer proposta apresentada sobretudo por Julius Nyerere, por Kenneth Kaunda e por Samora Moisés Machel. Ao tempo, Robert Mugabe era inexpressivo, porque tinha acabado de chegar ao poder através do Acordo de Lancaster House. Como podia o jovem Presidente Angolano afrontar e assumir qualquer posição diametralmente oposta à deles, à “sagesse” africana, onde o “mais velho” está acima de qualquer suspeita?
Na Nigéria, o Presidente estava enfraquecido pela invasão e pela ocupação sul-africana de toda a parte sul do País e nestas condições os americanos calcularam e determinaram que era o momento mais favorável e propício para que ele caísse na sua bem urdida armadilha, ao colocar os Países da Linha da Frente e a Nigéria contra as suas posições.
A fórmula desta “solução africana”, em detrimento da “solução das Nações Unidas”, foi, por outros termos, a desqualificação da Resolução 435/78 do Conselho de Segurança.
O Presidente José Eduardo dos Santos, vendo que não era prudente contrariar, abertamente, a eloquência destes “sábios” da África Austral, eufóricos e reciprocamente envaidecidos “pela sua cooperação regional e continental”, levou-os a analisar o Risco e o Perigo da Retirada das Tropas Cubanas de Angola. E provou que o perigo era não só para o nosso País mas para toda a Região. Ninguém, depois da perspicaz argumentação do Presidente José Eduardo dos Santos, quis ficar com o ónus de tal decisão, pois que nenhum dos presentes era detentor de qualquer possibilidade logística e combativa para enfrentar o poderoso Exército Sul-Africano. 
Caso o Presidente não conseguisse convencer esta Cimeira da Linha da Frente + 1 (Nigéria), era a consumação da vitória dos americanos em Angola, sem armas, eles que perderam no Vietname, sendo isso a compensação para o seu “desaire” na Indochina e mesmo em Angola em 1975. José Eduardo dos Santos triunfou. Os Presidentes aceitaram a sua sábia posição. E Lagos possibilitou que chegássemos ao Cuito Cuanavale e o Cuito Cuanavale levou-nos a Nova Iorque e a Bicesse.
Caso o Presidente não conseguisse convencer os líderes africanos na Cimeira de Lagos, não tinha havido Cuito Cuanavale. Hoje, não existíamos como Estado Soberano, de Direito e Democrático, não se teria cumprido a Resolução 435 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a Namíbia não seria Independente e o Apartheid, possivelmente, ainda estava de pé e com mais força.


* General das Forças Armadas Angolanas

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