Política

Memórias de um antigo guerrilheiro

João Dias |

José João Simão “Zé Preto” nasceu em 1947. Desde cedo, isto é, aos 14 anos começou a desenhar a sua própria trajectória no MPLA e experimentou durante os tempos de adolescente o sofrimento das matas.

“Zé Preto” afirma que valeu a pena a luta pela liberdade, mas está descontente com o tratamento que recebe
Fotografia: Paulo Mulaza | Edições Novembro

Lembra com orgulho os comandantes que o guiaram nas matas nos idos anos de 70 e realça nomes como Cunjijila, comandante Barba d’Aço, comandante Kendanhoca e o Tchamichinda, entre outros.
Naqueles anos, o comandante Cunjijila, diante de uma guerra contra o colono que era praticamente irreversível, pediu que os grupos de espiões, dos quais fazia parte Zé Preto, fossem à cidade para “se encostar” aos brancos e assim saber do seu pensamento e do que fazem para melhor traçar estratégias de combate. Começava a dar os primeiros passos na espionagem, descobrindo informações privilegiadas do colono sobre estratégias ou planos.
Para que tudo isso fosse possível, tinham de procurar emprego nas lojecas e estabelecimentos ou restaurantes de brancos. Era um “manancial de informação fresca” e foi assim que conseguiu apanhar boleia do Tiago dos “Peixes Graúdos”, o Calongula, um vendedor de peixe na comuna da Cerca, município do Gulungo Alto, província do Cuanza-Norte. “Pedi-lhe que me trouxesse para cá, Luanda, mas naquele tempo preto não podia vir para Luanda.”
Contou que na altura teve de convencê-lo com a "dica" de que estava doente e que o seu irmão lhe esperava para o tratamento…e depois ele assentiu. Na verdade, lembrou, não conhecia ninguém em Luanda, excepto o irmão e um outro primo. “O branco Calongula até foi muito gentil e generoso. Deixou mesmo bem no Marçal, no ‘Manda Fama’, onde tive de pernoitar semana e meia debaixo do caminão”, enquanto procurava pelo irmão, que afinal tinha mesmo a casa a escassos metros do camião que durante dias lhe serviu de abrigo. 
Deparou-se depois com o seu primo, que ficou atónito por o ver, pois sempre pensou que Zé Preto se encontrava nas matas. Explicou o que lhe trazia por estas bandas de Luanda. Volvidos alguns dias, arranjou-lhe um emprego num bar na rua Senado da Câmara. Por lá, na pequena “taberna”, precisavam de ajudante, pois lá trabalhavam apenas o próprio dono, a mulher e um outro português. Precisavam de ajudante para fritar moelas e fazer dobrada com feijão. “Ensinaram-me tudo e aprendi rápido, mas havia um problema: a mulher do dono era malcriada.” Lembra-se do dia em que foi dar uma voltinha no quintal, pisou num caco de garrafa e “borrou” o quintal de sangue... A mulher do proprietário não gostou e partiu para a agressão verbal, tendo usado impropérios contra a mãe de Zé Preto. Zé Preto não gostou e de repente arremessou-a contra as grades de cerveja o que resultou num corte na perna esquerda. O proprietário sacou da caçadeira, mas quando quis disparar ficou arrepiado com o sangue que saía da perna da mulher e socorreu-a. Foi ao hospital de S. Paulo. Zé Preto foi aconselhado a sair daí de imediato ou mesmo a desaparecer, mas preferiu permanecer em “regime de clausura”, debaixo da cama da casa do primo durante alguns meses. Quando as coisas ficaram mais calmas, arranjou outro emprego na Portugália, do gerente Simão Augusto Pereira, que o admitiu e ordenou que ficasse apenas no balcão a fazer sandes. “A Portugália era fonte de informação, pois era um lugar de passagem. Todos os portugueses que chegassem a Luanda passavam por lá e a tropa toda que viesse com o barco ‘28 de Maio’ passa pelo bar para tomar um copo e depois já falavam o que não deviam”, contou.
Conta ainda que tinha de se ser o máximo cauteloso e extremamente discreto na hora de ouvir e até de escrever para depois entregar pessoalmente ao companheiro que de 15 em 15 dias estava à espera do “relatório do espião” no agora campo de futebol Mário Santiago, junto ao ex-Roque Santeiro. “Era naquele campo, no Mário Santiago, o local onde ia entregar os relatórios para os companheiros que viessem das matas com este propósito.”

Um apelo à juventude
“A juventude tem de ouvir mais os mais velhos para que saiba como se guiar nestes novos tempos”, aconselha Zé Preto. Lamenta o facto de terem dado, ele e os outros, muito da sua juventude pelos esforços da conquista da liberdade e da Independência do país sem que hoje sejam devidamente reconhecidos. “Muitos jovens tornaram-se generais, mesmo sem terem combatido. Os que combateram de verdade, nem sargento são. Muita gente do meu tempo está abandonada. Não é tida nem achada”, desabafa o ancião que acrescenta: “eu próprio sou uma espécie de mendigo. Como antigo combatente, ganho 21 mil kwanzas. Temos de mudar este estado de coisas.”
Hoje, diz representar antigos combatentes no distrito urbano da Ingombota. “Recebo velhos a cair na ‘tripeça’, que não conseguiram nada nessa vida, não são nada.” “É triste isso. Sempre que os vejo, dá-me vontade de lagrimar. Fui para as matas em 61. Há gente que foi muito antes que eu. Estas pessoas, hoje, não são nada e, por isso, diante disso, estão a apanhar trombose”, concluiu.

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