Política

Morreu João de Matos

O Presidente da República, João Lourenço, destacou, em comunicado, que o general João de Matos faz parte da história recente de Angola e é uma referência para a juventude na defesa dos valores da cidadania.

Primeiro chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas morreu vítima de doença
Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

O primeiro chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas (FAA), João de Matos, faleceu ontem em Espanha, por doença, aos 62 anos. Colegas de armas e amigos lamentam a morte daquele que foi um dos principais rostos da criação das Forças Armadas Angolanas (FAA), em Outubro de 1991.
O Presidente da República, João Lourenço, sublinhou, em comunicado, que João de Matos faz parte da história recente da República de Angola e é uma referência para a juventude na defesa dos mais nobres valores da cidadania.
A dedicação ao cargo, destacou o Presidente da República, elevou-se para a contribuição inequívoca do alcance da paz, reconciliação nacional e manutenção da integridade territorial. Na mensagem, o Presidente da República refere que o amor pelo país levou o general João de Matos a dedicar, incansavelmente, recursos ao seu dispor para a preservação da biodiversidade, tendo sido um dos principais impulsionadores da localização e protecção da Palanca Negra Gigante e do Parque Nacional da Kissama.
“Neste momento de dor e luto, o Presidente da República, João Lourenço, curva-se perante a sua memória e endereça à família enlutada e às Forças Armadas Angolanas, os mais sentidos pesares”, lê-se na mensagem presidencial, na qual augura que o seu exemplo de patriota, activista ambiental e empreendedor, acompanhe os angolanos, enquanto Nação, na construção de uma sociedade mais inclusiva e protectora do bem-comum.

Exército para a vitória


Nascido aos 30 de Maio de 1955, João de Matos foi chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas (FAA) de 1992 a 2001 e o seu empenho foi fundamental para derrotar as então Forças Militares da UNITA, após o retomar da guerra em 1992, na sequência das primeiras eleições multipartidárias, realizadas em 1992. João de Matos reorganizou o Exército para a vitória. O ministro da Defesa Nacional, Salviano Sequeira, em mensagem divulgada ontem, considerou o general do Exército João de Matos um dos mais destemidos “cabos de guerra” com que as Forças Armadas Angolanas já contaram nas suas fileiras.
Na mensagem de condolências do Ministério da Defesa Nacional, Salviano Sequeira referiu que foi sob o comando inquestionável e  exemplar de João de Matos que o Comando Superior das FAA  conseguiu reunir nas suas fileiras, em tempo recorde, outros bravos e destemidos filhos da pátria angolana que tudo fizeram e sacrificaram as próprias vidas em defesa da independência, da soberania e da integridade territorial, para que a paz e as instituições democráticas vingassem em Angola.
“João de Matos celebrizou-se no período de 1992 a 2001, em que chefiou o Comando Superior das FAA, numa altura em que o conflito posterior às primeiras eleições ameaçava minar as bases do sistema democrático então emergentes”, diz a mensagem, na qual, em nome próprio e do Ministério da Defesa Nacional, o ministro da Defesa endereça às Forças Armadas Angolanas e à família do general na reforma João de Matos os mais sentidos pêsames, pelo infausto acontecimento.

Normalidade na RDC

João de Matos chegou a liderar a força militar angolana enviada para a República Democrática do Congo, a pedido do então Presidente Laurent-Désiré Kabila, na guerra civil que atingiu o país vizinho, em 1998. Foi chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas entre 1991 (antes das primeiras eleições angolanas) e 1999. João Baptista de Matos, um dos mais conceituados generais das Forças Armadas Angolanas, que ajudou a criar a 9 de Outubro de 1991, liderou a força militar angolana para a RDC que ajudou a acabar com a perigosa instabilidade no país vizinho. O Bureau Político do MPLA também lamentou o falecimento de João Baptista de Matos, que considerou um destacado combatente da luta pela paz em Angola. O MPLA recordou João de Matos como um intrépido comandante político-militar, que soube interpretar e aplicar, na prática, os anseios mais nobres do povo angolano, na sua luta revolucionária pela conquista e preservação da independência nacional, da integridade territorial de Angola e da paz definitiva, tendo granjeado, por isso, grande prestígio no país e no exterior.
O ministro das Relações Exteriores, Manuel Augusto, destacou as qualidades do general João de Matos e salientou que ele deu o seu valioso contributo para a fundação das FAA, verdadeiras forças republicanas e um exemplo no continente africano, marcado por vários conflitos. O chefe da diplomacia angolana referiu ainda que o general João de Matos foi um combatente que marcou a historia militar da África Austral.
A ministra da Juventude e Desportos, Ana Paula Sacramento Neto, escreve, numa mensagem, que João de Matos marcou uma geração de jovens angolanos pelas acções que desenvolveu para preservar a independência nacional e outras conquistas do povo angolano. A ministra do Ambiente, Paula Francisco, realçou o papel de João Lourenço na defesa da biodiversidade. 
João de Matos foi fundador e presidente da Fundação Kissama em 2001, organização não lucrativa que tinha por objectivo a reabilitação, conservação e desenvolvimento da fauna e flora de Angola.
O seu primeiro projecto foi lançado em 2010, com o programa “Arca de Noé”, que teve por objectivo repovoar o Parque Nacional da Quiçama com vida animal trazida da África do Sul. É ainda de sua autoria a criação do Centro de Estudos Estratégicos de Angola (CEEA), instituição que se tem revelado um parceiro incontornável das Forças Armadas para a definição de planos e programas de segurança nacional.

O general que reorganizou as FAA para derrotar Savimbi

João de Matos ingressou nas extintas FAPLA em 1974 e formou-se, de 1983 a 1987, em ciências militares na Academia Militar de Frunze, antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Durante a carreira militar, exerceu várias funções, entre as quais  comandante de companhia, batalhão, sector de forças especiais, director regional de inteligência militar e de comandante geral. Foi Chefe do Estado-Maior General das FAA, de 1992 a 2001. A sua liderança foi fundamental para ganhar a batalha contra as então Forças Militares da UNITA, após o retomar da guerra em 1992, na sequencia das primeiras eleições multipartidárias. Rapidamente reorganizou o Exército e a mudança de estratégia, enfatizando a sustentabilidade dos ataques, em vez da ferocidade.
Ambientalista activo, João de Matos foi fundador e presidente da Fundação Kissama em 2001, organização não lucrativa que tinha por objectivo a reabilitação, conservação e desenvolvimento da fauna e flora de Angola. O seu primeiro projecto foi lançado em 2010, com o programa “Arca de Noé”, que teve por objectivo repovoar o Parque Nacional da Quiçama com vida animal trazida da África do Sul. É ainda de sua autoria a criação do Centro de Estudos Estratégicos de Angola (CEEEA). Recebeu várias condecorações, medalhas e louvores a nível nacional e internacional.

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