Pagamentos e transferências analisados com Paulo Portas
João Dias |
O Vice-Primeiro-Ministro português considerou ontem em Luanda que Angola e Portugal têm uma “relação insubstituível”, na medida em que “são duas nações muito amigas que se conhecem há muito tempo e dois Estados soberanos que cooperam de uma forma próxima e cúmplice”.
Vice-Presidente da República Manuel Vicente recebeu na Cidade Alta o Vice-Primeiro-Ministro português Paulo Portas Fotografia: Mota Ambrósio
Paulo Portas, que efectuou ontem uma visita de algumas horas a Luanda, fez esta afirmação logo à sua chegada, no Aeroporto 4 de Fevereiro, e voltou a repeti-la à saída de uma audiência que lhe foi concedida pelo Vice-Presidente da República, Manuel Vicente. O Vice-Primeiro-Ministro português, que veio a Luanda por ocasião do dia do seu país na Feira Internacional de Luanda, considerou a relação entre os dois países “singular e única” e afirmou que muitos países gostavam de ter este tipo de relacionamento “que só Angola e Portugal sabem ter”. Paulo Portas disse que Angola e Portugal são também duas economias importantes uma para outra, quer do ponto de vista do desenvolvimento, quer do ponto de vista das relações comerciais, sublinhando que tem dado muita importância, em nome do Governo português, ao relacionamento económico com Angola. Sobre a FILDA, o Vice-Primeiro-Ministro português disse que ela representa todo o potencial de Angola no quadro africano. “Toda a gente sabe que 2015 não tem sido fácil para a economia angolana e que a contracção dos preços internacionais na área dos combustíveis teve impacto na situação económica e nos níveis de investimento”, lembrou Paulo Portas, que considerou essa é “uma circunstância transitória”. Paulo Portas sugeriu que a participação de Portugal no processo de diversificação da economia angolana pode ser feita por via das exportações, de um e do outro lado. “Muitas empresas portuguesas fazem de Angola a sua base regional em África e empresas angolanas fazem de Portugal a sua base europeia”, sublinhou, revelando que nos últimos quatro anos as exportações de Portugal para Angola aumentaram cem por cento. Apesar das exportações terem sofrido, este ano, uma retracção, Paulo Portas está optimista quanto a uma possível mudança. “Achamos que isso vai mudar e melhorar e estamos aqui para desenvolver todos os instrumentos bilaterais que permitam recuperar essa contracção”, assegurou. Portas admitiu que existem problemas práticos na cooperação económica, mas que podem ser ultrapassados. “Temos confiança nisso e quero simbolizá-la com esta presença para dizer que estamos disponíveis, presentes e que estamos juntos para o crescimento das nossas relações económicas”, frisou. E insistiu que o Governo português está disponível para “se irem ultrapassando os problemas que por vezes se verificam, ao nível dos pagamentos e das transferências”.
Ultrapassar fase difícil
Paulo Portas disse acreditar que Angola vai ultrapassar esta fase, lembrando que Portugal viveu entre 2011 e 2014 anos muito difíceis, mas conseguiu vencer as dificuldades financeiras, terminando o seu programa de ajustamento externo. “Hoje em dia (Portugal) regista os melhores níveis de confiança e o investimento está a subir. Isso também é uma oportunidade para Angola, porque há mais confiança dos empresários portugueses para
investir, exportar e também para internacionalizar negócios”, disse Paulo Portas, acrescentando que, o facto de Portugal estar numa fase “melhor e mais positiva”, representa também uma oportunidade para Angola neste período de baixa do preço do barril do petróleo.
Endiama e SPE
“Temos confiança na economia portuguesa, que pode ajudar o reforço das relações económicas com Angola, na presença dos nossos exportadores e na internacionalização das empresas portuguesas e angolanas”, frisou o Vice-Primeiro-Ministro português. Em relação ao diferendo que opõe a diamantífera angolana Endiama e a Sociedade Portuguesa de Empreendimentos (SPE), Paulo Portas referiu que abordou com o Vice-Presidente da República assuntos práticos. “Quer o Vice-Presidente da República quer eu próprio somos pessoas pragmáticas e quando existem problemas, ao invés de os aumentarmos, solucionamos”, afirmou o governante. O Vice-Primeiro-Ministro disse que a reunião serviu para analisar “temas práticos e instrumentos diversificados” nas áreas dos pagamentos e das transferências, mas preferiu não entrar em detalhes sobre o assunto. “Não entro em detalhe, pela simples razão de que a reserva é boa conselheira e é boa ajuda para as coisas melhorarem”, sublinhou o Vice-Primeiro-Ministro português, para quem as diferenças devem solucionar-se através das formas institucionais previstas. Mota Engil e FILDA
O encontro entre Manuel Vicente e Paulo Portas durou perto de 40 minutos e serviu para abordar todas as formas práticas e directas que visam incentivar um clima que encoraje as exportações, o investimento e as parcerias estratégicas entre Angola e Portugal, para benefício mútuo. Antes do encontro com o Vice-Presidente da República, Paulo Portas efectuou uma visita às instalações da empresa Mota-Engil, que tem em mãos a tarefa de reparar as ruas de Luanda. Portas recebeu garantias de que todo o trabalho de reparação deve ser concluído dois dias antes da celebração dos 40 anos da Independência Nacional, que se comemoram no dia 11 de Novembro. Posteriormente, o Vice-Primeiro-Ministro visitou as instalações da FILDA. Acompanhando pelo embaixador João da Câmara e por Miguel Frasquilho, presidente da Agência para o Investimentos e Comércio Externo de Portugal (AICEP), Portas passou pelos “stands” de cada uma das empresas portuguesas. É a quarta vez que Paulo Portas visita a FILDA, onde estão 75 empresas portuguesas. “Faço por dever e por gosto, apesar da agenda difícil em Portugal”, sublinhou, acrescentando que isso diz alguma coisa sobre a importância que as empresas portuguesas dão a Angola e o valor que o Governo português dá aos investimentos e às empresas angolanas em Portugal. A balança comercial entre Angola e Portugal cifrou-se, em 2014, em 4,7 mil milhões de euros. Nos últimos quatro anos as exportações angolanas para Portugal cresceram 42 por cento e, no sentido inverso, subiram 14 por cento.